EM RECONSTRUÇÃO
Tapo a cara com ambas as mãos assim que o vejo chegar lentamente, e encostar-se à ombreira da porta, está escuro mas consigo notar que está com um ar descontraído mas com algo mais nele. Uma mão no bolso, a outra solta ao lado do corpo ainda com a chave na mão, como se pudesse necessitar ainda dela dentro de minutos. O cabelo loiro ligeiramente desalinhado, com se tivesse passado a mão por ele demasiadas vezes antes de chegar e sinto que, tanto quanto eu, ele não sabe o que está aqui a fazer.
Soluço involuntariamente pela surpresa que neste ponto já não esperava, soluço por o querer abraçar, mas não me deixo agir por não querer que ele me veja chorar, então fico apenas em silêncio, imóvel, a tentar não soluçar uma vez mais e sinto-me parva.
Ele não me interrompe, até que os olhos dele por fim encontram os meus e tudo nele muda. A postura, a expressão, a respiração.
- El... - diz baixinho, dando um passo em frente, pousando apenas as chaves na estante da entrada sem fazer barulho e observa-me sem dizer nada mais.
A voz dele não tem humor nenhum desta vez, nem leveza, apenas preocupação e limpo rapidamente o rosto com a mão num gesto automático praticamente inútil e decido então que não me vou importar com a minha vulnerabilidade.
Ele atravessa o quarto em dois passos e, antes sequer que eu tivesse tempo de pensar, ele estava ali, a puxar-me para ele, sem perguntas, sem hesitação, e eu, sem resistência nenhuma. Os nossos corpos encaixam perfeitamente, sabendo o caminho de cor, o braço dele rodeia-me, firme, quente, seguro, de uma forma que me fez soltar o ar que nem sabia que estava a prender. Enterro o rosto no peito dele e sinto-me perdida, enquanto sinto os seus dedos a passarem pelo meu cabelo, devagar, repetidamente, como se aquele gesto tivesse o poder de acalmar alguma coisa que nem ele entendia.
- Ei... - murmura demasiado baixo para quase o conseguir ouvir. - O que se passa? - soa a uma pergunta para ambos.
- Não sei... - abano ligeiramente a cabeça contra ele e é quase verdade.
Ele não insiste, não pede explicações, fica apenas aqui, comigo, aconchegando-se mais ainda. E de alguma forma, isso ajuda mais do que qualquer pergunta. O quarto parece ficar mais pequeno agora, mais quente, o momento suspenso entre nós. A respiração dele está calma, como se estivesse a tentar puxar a minha para o mesmo ritmo, mas sinto que a qualquer momento o coração lhe poderá saltar do peito e percebo que ele está inquieto com algo mais na mente.
As mãos dele, sempre em movimentos suaves, movem-se como se quisessem garantir que eu não vou desaparecer daqui. Demorei algum tempo até conseguir abrandar tudo, até simplesmente, estar.
Sinto que passaram longos vinte minutos em silêncio, apenas de nós os dois nesta posição.
- Desculpa. - murmuro enterrada nos seus braços, enquanto tento encontrar a minha voz rouca, só sei que ele não está a dormir, por conseguir sentir o seu sangue a circular nas veias e a respiração, que tal como a minha, parece agora nervosa.
A sua mão deslisa devagar pelo meu braço, com tanta delicadeza que me faz arrepiar completamente sem aviso e sei que ele nota isso.
Sobe levemente, até pousar a mão no meu rosto, o polegar encosta-se à minha bochecha para limpar o que me parece ser a última lágrima perdida que já nem eu sentia. Ele não sabe de todo pelo que me desculpo, mas conforta-me como resposta, como se também ele pedisse desculpa por algo, mesmo que em silêncio.
O toque dele é familiar, estou habituada aos seus carinhos, mas parece diferente neste momento. Mais consciente do que está a fazer, mais demorado.
Tenho receio de o encarar por não saber o que dizer, nem que perguntas me irá ele fazer, mas levanto o olhar para encontrar o dele e falha-me uma batida no coração por me aperceber que estamos demasiado perto. Costumamos estar, mas não este tipo de perto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fallen
RomanceNovembro 2024 Esta história encontra-se em reconstrução para poder ser então concluída. Um romance cheio de mistério, suspense, drama, criado principalmente para quem gosta de histórias emocionantes com fins imprevisíveis. "A sua única preocupação...
