Capítulo 22 - Meridale

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EM RECONSTRUÇÃO

Acordo devagar. Não aquele acordar brusco e desorientado depois de uma má noite, mas lentamente, como se o meu corpo tivesse finalmente decidido descansar depois de dias anteriores em tensão sem eu perceber.

A luz entra pelas cortinas da sala em tons dourados suaves, espalhando-se pelo chão de madeira e pelas mantas desalinhadas à minha volta. Durante alguns segundo fico imóvel, ainda meio perdida entre o sono e os restos da noite anterior e no meu cérebro faz-se um clique quando me lembro. Noah. O sofá vazio à minha frente confirma imediatamente aquilo que já me tinha apercebido antes mesmo de abrir os olhos por completo. Endireito-me lentamente, puxando a manta para mais perto do corpo por causa do frio leve da manhã e é então que noto o pequeno papel pousado em cima do livro do Principezinho, em cima da mesa de centro ao meu lado. Oh, ele procurou por ele e deixo-me rir mesmo antes de começar a ler.

"Já te disseram que te babas a dormir? Adorável Eleanor Evans. Espero que tenhas conseguido desligar esta noite. Pareceu-me que sim, então achei cruel acordar-te. Obrigada pelo café e pela companhia. Noah."

Com um pequeno smile engraçado no final.

- Idiota... - murmuro sozinha, incapaz de evitar a gargalhada pequena que me escapa.

A casa continua silenciosa e isso é estranho, porque normalmente odeio acordar sozinha depois de noites emocionalmente intensas, fica sempre aquela sensação desconfortável de eco, como se tudo tivesse sido demasiado grande para caber na manhã seguinte.

Mas hoje não. Hoje sinto-me mais leve. Confusa na mesma, mas leve.

Encosto a cabeça no sofá por um instante e fecho os olhos novamente enquanto puxo a manta para me aconchegar melhor. Agarro no telemóvel e não tenho nenhuma notificação. O meu cérebro tenta imediatamente puxar-me para Joey e o meu peito aperta-se automaticamente. Não como se doesse. Apenas por não o ter aqui. Mas volto ao pensamento de ontem, que me relembra que não preciso resolver tudo em mim já. Nem perceber tudo, nem decidir nada a correr. Apenas deixar-me existir um bocadinho.

Abro novamente os olhos e olho para as horas. Onze e dezasseis. Levanto-me completamente preguiçosa, tropeçando na manta, enquanto atravesso a sala ainda meio sonolenta. A cozinha está inundada pela luz clara da manhã e o meu telemóvel vibra. Três mensagens seguidas da Beth e uma do Lou. Nenhuma novamente do Joey e o meu olhar fixa-se nisso durante um segundo a mais do que devia. Estranho. Não um estranho mau, apenas estranho, porque mesmo quando não falamos muito, Joey manda sempre qualquer coisa, nem que seja um "Els" ao qual retribuo com um "Joey" e não falamos mais o resto do dia, apenas nos deixamos mutuamente saber que estamos vivos e sorrio agora ao perceber o quanto isso é parvo. Às vezes manda-me memes idiotas, uma foto aleatória da praia, uma foto aleatória dele na praia, ou qualquer outra coisa aleatória que envolva a praia, uma pedra que ele acha parecida com um animal, um dos mil e um cortes que faz no surf, é nojento e ele sabe isso e por isso mesmo me envia foto.

"Estás?" - diz a primeira mensagem da Beth.

"Preciso de atualização do estado emocional da minha melhor amiga antes de decidir se levo álcool ou bolo, estou de folga hoje." - reviro os olhos com a segunda mensagem.

"Também preciso de saber se o meu irmão está vivo porque me ignorou completamente desde ontem e isso normalmente significa sentimentos a mais ou prisão."

Solto uma gargalhada automática e depois releio a ultima mensagem novamente e odeio o facto do meu coração reagir imediatamente. Bloqueio o telemóvel antes de pensar demasiado nisso e sinto que preciso de respirar e penso automaticamente em Isaac e nos meus pais. Na casa deles, no jardim, na voz serena da minha mãe pela manhã, o meu irmão provavelmente espalhado no chão da sala com dinossauros por todo o lado, o meu pai que deve andar cedo a regar o redor da casa com os seus fones nos ouvidos a ouvir uma música que em nada condiz com a imagem dele, tipo "Eleanor, sabes quem é a Taylor Swift?" e mostra-me a música mais antiga dela ao qual me deixo rir completamente, ele é totalmente fã de artistas da atualidade, ou talvez lhe tenha eu passado esse gosto quando o obrigava a ouvir as mesmas músicas vezes e vezes sem conta, seja em casa seja no carro. Às vezes dançávamos todos no meio da sala, tinham-nos sempre um pequeno momento engraçado antes do jantar e acho que preciso de ir a casa visitá-los. Não para fugir. Apenas para me recentrar.

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