Sabem quando são crianças e adormecem no sofá e quando acordam, reparam que estão na cama como por magia? É. Isso não acontece mais comigo devido ao meu tamanho e peso e acordo no sofá da sala onde adormeci na noite anterior, com uma dor de costas desconfortável. A televisão está desligada e a casa demasiado silenciosa. Durante alguns segundos nem me mexo. Ainda estou meia embrulhada na manta do sofá com a cabeça pesada de sono e o coração estranhamente tranquilo.
Na noite anterior a minha mãe tinha passado quase uma hora a escolher as melhores cassetes VHS para vermos. Todas com etiquetas escritas à mão.
"Primeiro dia de aulas do 4º ano. - Verão 2008. - Verão 2009. - Aniversário de 11 anos da Eleanor."
Foram poucas as vezes que tive realmente coragem de as rever. Ontem tive e sinto tudo tão vivo em mim, que memórias tão bonitas. É estranho, vê-lo apenas por um ecrã, em gravações antigas. Como se fosse tudo ainda tão próximo, como se ele ainda aqui estivesse na casa ao lado, como se pudesse agora sair, tocar à campainha que soa com um som melódico e demorado e do nada ver um sorriso de cóvinhas contente por me ver.
E do nada, um tremor de terra desde o cimo das escadas até cá a baixo, fazendo-me por momentos pensar que alguém tinha caído e vinha aos tropeções até ao final.
- A minha mana ainda está cá? - pergunta como se lhe faltasse o ar e eu apenas levanto a cabeça por cima do sofá para olhar lentamente para ele, ainda com os olhos pequeninos pela claridade.
Isaac acorda cheio de energia e salta por cima do sofá até cair em cima de mim, onde o abraço com força, de forma a o ouvir gargalhar com gargalhadas que ecoam por toda a casa. Declara-me solenemente que eu sou a escolhida para participar numa missão ultrassecreta para salvar um dragão invisível que vive no nosso jardim e eu aceito imediatamente mesmo ainda antes de acordar totalmente, porque honestamente, parece um excelente plano para um sábado. Passamos quase duas horas no jardim, o cheiro a natureza entrega-me anos de vida. Construímos fortalezas com a nossa mesa de piquenique de madeira do exterior, com uma toalha de praia por cima e ele entregou-me a sua melhor espada de plástico, porque diz que sou mais forte para o apanhar, um dragão invisível, que se revela surpreendentemente difícil de derrotar.
- Ele está atrás de ti! - grita Isaac e eu olho imediatamente para trás e finjo um susto exagerado que lhe rouba estridentes guinchinhos.
Tenho saudades de ter esta imaginação fértil, cheia de mundos e cores.
- Oh não! Outra vez ele? - questiono olhando em meu redor como se procura-se realmente algo.
- Corre mana! - grita-me fininho e começa a correr pelo jardim.
E eu corro com ele. Claro que corro, porque ele se ri desta maneira que me deixa feliz, tão puro que parece impossível existir alguma coisa má neste mundo. Sem ser este dragão invisível. Deixamos nos cair na relva, completamente cansados, quando ele me diz que ele voou para trás das nuvens e se escondeu no seu castelo de algodão doce azul. Ele encosta a cabeça no meu braço e diz-me como gostava que eu voltasse a viver aqui com ele. O meu sorriso vacila um bocadinho e passo-lhe a mão pelo cabelo transpirado e prometo-lhe que irei fazer visitas mais recorrentes. Porque é assim simples, nós em adultos é que complicamos tudo. Os meus pais iriam adorar a ideia, assim como eu, mas ambos apenas por algumas semanas. Porque eles sabem que se o fizesse, seria porque as coisas não estão a correr bem, sempre fui muito apegada a eles mas também sempre me incentivaram a viver a minha vida e ter saído cedo atrás dos meus sonhos, soube-lhes melhor do que me terem aqui, dizem imensas vezes que a intenção deles é criarem crianças para se desemerdarem primeiro sozinhas, só depois a correr até eles, com o conforto de que sempre aqui estarão para nos acolher, mas com o conforto para eles de que se por alguma razão me faltarem, saberei como me manter de pé. Agradeço-lhes por isso, fui das pessoas que ao ir viver sozinha sabia colocar uma máquina de lavar a funcionar corretamente, qual o compartimento do amaciador e qual o do detergente e isso é bom. O Joey lavou durante semanas a roupa com pastilhas da loiça, por pensar que eram iguais às da máquina da roupa. Lembro-me e deixo-me rir com esse pensamento.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fallen
RomanceNovembro 2024 Esta história encontra-se em reconstrução para poder ser então concluída. Um romance cheio de mistério, suspense, drama, criado principalmente para quem gosta de histórias emocionantes com fins imprevisíveis. "A sua única preocupação...
