Capítulo 10 - Depois da Meia Noite

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EM RECONSTRUÇÃO

Sinto que corremos toda a praia nesta noite, ela também não tem muita extensão, voltamos ao mesmo local que inicialmente e sinto que mesmo sendo tarde, o cansaço se dissipou e não chega a nenhum de ambos. Poderia ficar a conversar com ele por horas incontáveis, ou no silêncio com ele por horas incontáveis.

Mesmo longe, sente-se o cheiro da fogueira que começa agora a transformar-se em brasas, com o calor a dissipar-se lentamente no ar salgado da praia. Sinto-me estranhamente revigorada. Algo como estar aqui sentada com ele, a falar sobre teorias do universo, pelo que me pareceu serem simples cinco minutos, mas que na realidade foi toda uma hora e meia completa, parecia ter acalmado qualquer tempestade que nesta noite se estava a formar em mim.

- Eleanor! - ouço Joey berrar ao longe e dirijo a minha atenção na sua direção, onde o noto aproximar-se com Beth ao seu lado. Parece mais bêbado do que realmente acredito que esteja, ao andar meio desequilibrado pela areia, agora também descalço. 

- Por favor vamos embora. - implora Beth assim que estão suficientemente perto para os ouvir, fazendo-me sinal de que claramente já gastou a sua energia de hoje para o aturar e isso pode parecer algo impossível com ela. Antes que pudesse responder, o olhar de Joey pousou em Noah, como se estivesse prestes a falar mas Beth apressa-se a falar primeiro. - Boa noite. - diz com um sorriso educado mas apressado, erguendo uma mão em aceno e ficando fixada nele até algo a puxar de novo a Joey que quase tomba e a leva atrás. - Joey! - resmunga. - Eleanor, ele está prestes a cair com a cara na areia, por mais que gostasse de ver isso, precisamos mesmo de ir, por favor. - continua fazendo um beicinho ao qual me deixo rir.

Noah sorri e noto humor nos seus olhos. Entreolhamo-nos por momentos como uma despedida silenciosa, que eu estranhamente não queria fazer. Levanto-me e sacudo vestígios de areia da roupa, dando-lhe um envergonhado aceno, não sei se de desculpa, se de agradecimento por aquele momento, se implorando para não ser a única e ultima vez.

 Assim que me virei para seguir caminho, senti as ondas a rebentar com mais poder, como se a praia me quisesse agarrar e fazer-me ficar por ali. E eu gostava.

- Imagina aparecer aqui um lobo a sério e eu salvar-te. Ia ser épico. - interrompe Joey os meus pensamentos, após tropeçar vezes sem conta na minha capa.

- Tu mal consegues salvar-te a ti mesmo. -  Beth revira-lhe os olhos enquanto eu tento colocar a minha capa fora do seu alcance.

- És tão desnecessária. - resmunga olhando-a de lado.

- Tentei fazer os pais verem isso em relação a ti durante imenso tempo. - lá vão eles começar.

- Que insuportáveis, vocês deviam criar um podcast chamado "Gêmeos com trauma" ou algo assim do gênero, onde pudessem desabafar. - digo.

- Trauma é eu ter crescido ao lado de alguém como ele que colocava macacos do nariz na minha caixa de cereais. - responde Beth ao qual lhe faço uma careta de profundo nojo.

- Devias de me respeitar mais! - atira Joey.

- Já sei, pelos seis minutos que tens a mais que eu, mas nem esses seis minutos te fizeram ter mais cérebro que eu!

- Arrogância, foi o que esses seis minutos influenciaram em ti!

- Arrogante és tu! - berra Beth de volta como uma criança.

- Por favor não parem, isto está a ser terapia para os meus ouvidos. - digo com uma gargalhada.

- Ei, a tua função é ser o elo de paz perante este ser disfuncional de cabelo amarelo! - diz Beth olhando para mim em reprovação.

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