Capítulo 12 - Trazido Por Uma Onda

367 46 0
                                        

EM RECONSTRUÇÃO

A brisa arrepia-me a espinha, enquanto atravesso o caminho de madeira que me leva ao areal. Sinto os meus sapatos afundarem ligeiramente na areia húmida, marcando o meu percurso solitário, esta noite está mais fria que as anteriores, mas mesmo assim ainda se torna tolerável e meio que confortável. Tirando os pequenos grãos de areia que entram nos sapatos e me picam.

O céu já se encontra pontilhado de pequenas luzinhas, criando reflexos que pareciam dançar nas ondas. Apesar desta beleza que nunca me cansa, sinto um nó no peito, algo entre a expetativa e a apreensão. Mesmo após tentar racionalizar, não conseguia uma resposta concreta do porquê de estar ali. Talvez fosse a curiosidade, ou algo mais profundo, uma sensação quase inexplicável de que aquela pessoa, poderia preencher um vazio que à muito carrego. É tonto, mas a lembrança da outra noite, apesar de curta, permanecia vívida de uma forma desconcertante. Mas ao mesmo tempo, a imagem do meu Harry, surgia, e a culpa e a dor voltavam como uma onda inesperada que me acertava mesmo em cheio levando-me com ela.

Suspiro enquanto me aproximo da margem, onde as ondas se desfazem suavemente, até que encontro um sitio para me sentar, abraçando os joelhos e deixando os pensamentos fluírem como a maré. O que estou aqui a fazer? Um estranho que conheci durante breves momentos, não deveria ocupar tanto a minha mente. Mas havia algo nele, que me deixava inquieta e ao mesmo tempo... confortável?

A ideia de que ele podia não estar ali, era ao mesmo tempo um alivio e uma decepção. 

O som do mar é terapêutico para mim, mas não o suficiente para silenciar a confusão na minha mente que constantemente parece quando entramos em um restaurante cheio e existe uma mistura de vozes brutal não dando para concentrar em apenas um delas, ou então uma televisão que não apanha canal, que fica com o som de chuviscos, é exaustivo.

Passaram minutos, talvez horas, não sei ao certo, até que começo a sentir o corpo mais pesado e com o frio a entranhar-se na pele. Joey já deve ter batido à minha porta pelo menos duas vezes e neste momento deve estar sentado no sofá da sua sala de cortina aberta para ver quando chego e isso faz-me sentir mal. Decido desistir. Levanto-me, limpando as mãos da areia na roupa. 

"Ridículo", murmuro para mim mesma. 

Pareço uma adolescente parva e isso não é nada meu. Do que estou realmente à espera?

- Oh, hey! - foi nesse momento, enquanto dava o primeiro passo para me afastar, que uma voz me fez parar e estremecer de cima a baixo, quase fazendo-me tropeçar nos meus próprios pés. - Desculpa, não te queria assustar. - a sua voz suave, carregada de tranquilidade que parecia contrastar com a tempestade silenciosa dentro de mim. 

Aqui está ele, como se o universo me tivesse ouvido e quisesse agora pregar-me uma partida.

- Desculpa, quer dizer, nã não faz mal. Não esperava ver-te aqui outra vez. - gaguejei.

- Nem ponderei em coincidência, ia jurar que tinhas vindo para me voltar a encontrar. - brinca, fiquei em silêncio a encará-lo, enquanto sentia o sangue a subir-me até às bochechas, dando graças a deus por o espaço aqui ser pouco iluminado. 

- Ia jurar que és omnipresente. - deixo-me rir.

- Contratado pelos Deuses com um ordenado um pouco injusto, para ser honesto. - junta-se ao meu riso.

Ele tem um ar tão descontraído, como se o facto de estarmos aqui juntos novamente, fosse a coisa mais natural do mundo, como se fosse um hábito, algo que fazemos à imenso tempo.

- Na verdade, nem sei bem o que estou a fazer aqui. - confesso, sem saber se estou a mentir ou a falar a verdade.

Ele dá alguns passos na minha direção, mas mantêm uma distância respeitosa, como se soubesse exatamente até onde podia ir sem me fazer sentir desconfortável.

FallenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora