O relógio marca quase as 03h20 da manhã.
A minha garrafa de vinho está praticamente vazia, da dela pouco sobra para um copo. Beth dorme profundamente no sofá, completamente atravessada, um braço caído para o chão e o cabelo loiro a tapar-lhe metade da cara. Sorrio sozinha pela forma como ela se encontra, parece que veio de uma noite atribulada e apenas de deitou no primeiro lugar que encontrou ao chegar a casa. Ainda há pouco estava a jurar que não tinha sono nenhum e que nem estava a sentir o álcool, a tagarelar como se não houvesse amanhã, durou míseros seis minutos e do nada adormece a meio de uma frase com a fala já completamente arrastada. Não a culpo, gostava de conseguir fazer o mesmo.
A casa está mergulhada no silêncio que só existe de madrugada, onde apenas se ouvem os grilos no exterior, o frigorifico a trabalhar baixinho e de vez em quando uma gaivota completamente perdida da noção das horas.
Levo novamente o copo aos lábios, não porque me apeteça particularmente beber, mas porque me ocupa as mãos e se as deixar quietas, começo inevitavelmente a pensar à velocidade da luz.
É então que ouço o que sempre foi previsível, apenas não no dia de hoje. Mas não me assusto. Nem sequer levanto a cabeça, apenas esboço o que se parece com um sorriso cínico. Conheço muito bem este som. Conheço demasiado bem a forma como a chave roda uma vez... hesita... e roda outra. Este barulho sempre significou apenas uma coisa a esta hora.
Ele chegou, para me fazer companhia de noite.
A porta abre-se devagar, com receio. Os passos lentos, quase sem fazer ruído. Só quando ele fecha cuidadosamente a porta atrás dele é que levanto finalmente os olhos.
E ali está ele.
Parado na entrada, ainda com uma mão na maçaneta. O cabelo despenteado por todas as partes, como se tivesse acabado de sair da cama e provavelmente acabou de sair. Agora com uma sweat de carapuço preta. As chaves presas entre os dedos. Olha primeiro para Beth. Depois para mim, sinto que engole em seco. E durante alguns segundos, nenhum de nós diz absolutamente nada. Sei que ele observa tudo em meu redor, enquanto o observo a ele.
A primeira interação que tem é com ela, não comigo.
Aproxima-se do sofá devagar, baixa-se e apanha a manta que tinha escorregado para o chão por ela se ter virado para o outro lado. Volta a cobri-la com cuidado, ao qual Beth resmunga qualquer coisa imperceptível e ele revira os olhos com algum humor, até que se endireita novamente e só então volta a olhar para mim.
Continuo a observá-lo. É irritante. Irritantemente injusto. Porque ele continua exatamente igual. Como se o fim de semana não lhe tivesse mudado nada. Como se eu não tivesse passado quarenta e oito horas inteiras a ensaiar uma conversa que, afinal, talvez nunca venha a existir, nem acredito a este ponto que seja necessária.
Ele aproxima-se lentamente da ilha da cozinha. Não pergunta se pode entrar. Nunca perguntou. Também nunca precisou. Os nossos olhos encontram-se. Nenhum desvia. Nenhum sorri. Há apenas um silencio estranho que só existe entre duas pessoas que sempre souberam tudo uma da outra... até deixarem de saber.
Os olhos dele crescem para as garrafas, depois para o meu copo, depois para o de Beth. Volta a olhar para mim e quase parece que estou em um filme, enquanto soa baixinho vindo ainda do Spotify na TV "Stop crying you heart out".
- Cheguei tarde? - questiona num sussurro quase inaudível e a pergunta arranca-me um sorriso triste antes que o consiga impedir e sei que ele nota, então baixo os olhos para o copo e brinco distraidamente com a base de vidro.
- Chegas sempre um bocadinho tarde... - assim que as palavras me escapam, arrependo-me e levanto imediatamente os olhos. Vejo-o baixar ligeiramente a cabeça, como quem acabou de levar um murro inesperado e fico sem saber o que fazer.
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Fallen
RomansaNovembro 2024 Esta história encontra-se em reconstrução para poder ser então concluída. Um romance cheio de mistério, suspense, drama, criado principalmente para quem gosta de histórias emocionantes com fins imprevisíveis. "A sua única preocupação...
