Era uma vez na pequena cidade de Fortaleza...
- Ela se chamará Branca de Neve.
Ali nasceu a pequena duquesa Branca de Neve. Seu suave rosto da cor da mais alva neve, seus cabelos negros de ébano e seus lábios vermelhos como sangue. Sua aparência tão portuguesa, relembrando sua linhagem.
A bela menina brincou e aprendeu com a mãe em seus primeiros três anos, quando a perdeu e descobriu o que era a morte, a última lição ensinada por sua progenitora.
Após a morte, Branca foi reconfortada por seu pai e continuou aprendendo sobre a sua classe e o que deveria fazer. Aprendeu a ser uma duquesa de respeito, verdadeira moça da elite. E foi aos cinco anos de idade da garota, que o pai decidiu arranjar uma nova mãe.
A nova mãe de Branca entrou na casa com sorrisos e promessas maravilhosos, logo conquistou o coração de todos, inclusive dos empregados. O pai ficou feliz de ter encontrado uma mulher tão perfeita de sangue azul. Mas de duquesa aquela mulher não tinha nada, porque logo foi descoberto que forjara seu título e propriedades. E quando o homem da casa soube, pensou em expulsá-la o mais rápido que pudesse.
Foi em uma noite que a falsa duquesa trouxera novas joias, compradas com o dinheiro do marido. Foi surpreendida pelas rudes palavras do homem e ouviu seu segredo sendo revelado. "Não és nada! Não és duquesa, nem nobreza. Não passas de uma mentirosa!". Diante de tal humilhação e da percepção de seu futuro, não hesitou muito quando pegou um revólver e atirou na cabeça do homem.
Pobre da pequena Branca, que viu seu pai deitado em poça de sangue, enquanto a madrasta escondia a arma. A menina, sem medo, se levantou e ergueu o queixo. "Eu vou lhe denunciar" disse sem rodeios. A madrasta se recompôs e respondeu "Vais escolher, morres agora ou levo-te para longe" e sorriu, triunfante.
Branca chorou a noite inteira, pelo pai e pela ameaça. A falsa duquesa, indiferente à dor da menina, contratou um cangaceiro para levá-la na madrugada. "Leve-a para longe, bem longe. Tens o dinheiro para alcançar o sertão. Lá, distante de tudo e de todos, mate-a com a espingarda e me traga o coração" Pobre Branca, que mal sabia o que planejava sua "má-drasta"
O cangaceiro, chegando a sua casa com a menina, entendeu que a ordem era cruel até para ele. Tinha princípio e onde já se vira, matar uma pobre garotinha. Decidiu, então, criar a pequenina. "Venha Branca, que serás minha menina". Caçou um veado e arrancou seu coração, deixando Branca e saindo do sertão.
- Aqui teu coração, vossa majestade. – Disse o cangaceiro.
- Muito bem. Para ti sou mesmo rainha. – Respondeu a duquesa e jogou o coração na fogueira improvisada.
"Rainha má, isso que é" pensou o cangaceiro.
E o tempo correu. Branca aprendendo a cuidar da casa e do pasto, virando mulher da plebe e seu novo pai lhe dando o que precisava. Cresceu e ficou forte, aprendeu a arte do cangaço com o pai, até lutar a menina sabia. Mas da prática, preferiu ficar longe. Disse "Matar é que não quero, ainda que fosse homem". O cangaceiro compreendia e até achava melhor.
Com dezoito, Branca era bonita e robusta, todos que a viam desejavam. E a duquesa, que não é boba, logo tratou de saber "Quem é essa bela garota?". E como seu espelho não falasse, foi atrás de descobrir com a comitiva que tinha. Sua carruagem e seus homens comprados.
A duquesa nem demorou, logo viu Branca em seu esplendor. Invejosa e descobrindo de quem se tratava, resolveu destruir sua vida. Branca, tão ingênua, recebeu visita da vigilante sanitária. "Deixe-me ver as plantações" exigiu a mulher, com a idade de quem deveria estar na aposentadoria. "Venha, minha senhora. Venha, que vou lhe mostrar". E mais uma vez sofreu com as façanhas da Rainha Má. A velhinha era a duquesa em disfarces e trouxera substâncias perigosas. Derramou um pó em toda a terra e disse: "Agora esta lavoura está encantada". Branca duvidou, mas como se tratava de uma senhora, assentiu e a levou para a saída.
A lavoura produziu e a colheita foi feita. A venda foi rápida e Branca sorria feito boba. "Aqui a plantação é boa e só tem animais. Aqui ninguém vai perturbar minha paz". Mas enganada estava a jovem mulher. Porque de passar mal morreram cinco, seis, sete e oito compradores da plantação. Seus legumes viraram notícia e denúncias foram feitas. Ninguém comia aquelas verduras e saía vivo. Branca desesperada, nem parou para pensar que a lavoura estava envenenada. O cangaceiro descobriu e tratou de limpar todas as terras dali. Branca contou-lhe da senhorinha e ele disse: "Aqui ninguém mais entra e nem você sai". A menina obedeceu.
Com todos os processos, Branca teve novas ideias, investindo em outras coisas e recuperando a reputação da fazenda. E com muito suor, passou por cima do problema, agora esquecido pela sociedade. Quem não esqueceu mesmo foi a duquesa.
A duquesa, injuriada, mandou homens armados para matar tudo o que tinha vida por lá. E os animais levaram tiros. Branca e o cangaceiro correram pra fora, acudir o que sobrara. Levaram as espingardas e sem pena atiraram. No meio do tiroteio, só Branca saiu viva e intacta. Se ajoelhou diante do cangaceiro e chorou. "Essa mulher há de me pagar!" pensou.
A duquesa soube da falha do plano e disse: "Ao menos um morreu, em vão não foi". O subordinado pediu: "Minha senhora, deixe a menina" e ela respondeu: "Deixe está, que agora eu que mato ela".
A duquesa foi. Levou a pistola, a mesma que usara no pai da menina. Deixou todos atrás e entrou na fazenda. Amoleceu quando viu a mulher a frente da casa, esperando com a espingarda em mãos.
- Poupaste meu esforço, encontraria-te de qualquer maneira. – Disse Branca.
- A plebeia sabe falar!
- Nunca esqueci os modos que aprendi na infância, nem a morte de meu pai.
Apontaram e se encararam. Duas mulheres cheias de ódio. A duquesa não esperou um sinal, logo disparou. Errou o tiro e se estressou, tentando preparar o próximo. Branca correu ao encontro da mulher. A duquesa deu o segundo tiro, que teria acertado se Branca não tivesse disparado com a espingarda no chão e se arribado para cima da mulher.
A duquesa pensou que era puxar de cabelos, mas com um soco se assustou. Branca tomou a pistola e guardou. Apontou a espingarda para a mulher.
- És uma boa moça, não matarias nem um pernilongo. – Disse a duquesa.
Branca riu e tacou a coronha da espingarda na cabeça da mulher.
Acordada e tonta, a mulher se viu amarrada em uma cadeira de madeira.
- O que estás a fazer?
Branca mostrou uma vasilha transparente com uma cenoura e um líquido verde dentro.
- Vês? É o último resquício do teu veneno.
- Guardaste isto? Louca!
- Mataste centenas e me chamas de louca? Tu és louca duquesa. Uma bruxa! E agora, te darei do teu próprio veneno.
- Não comerei.
- E estás em posição de recusar?
Branca cortou a cenoura e cozinhou-a com a água esverdeada. Um cheiro azedo entrou na cozinha. Terminou e colocou no prato. Pegou um garfo e tirou o primeiro pedaço.
- Hora de experimentar.
- És uma duquesa!
Branca enfiou a cenoura na boca da mulher e forçou seu queixo com o cotovelo, evitando o retorno. Deu mais pedaços e a sopa verde em colheradas cheias.
- Não sou duquesa, sou cangaceira. – Explicou quando viu o prato vazio. – Gostou?
A mulher gemeu, tentando falar, mas suas maçãs do rosto ficaram verdes e seus olhos reviraram, seu corpo se contorcia em agonia. Levantou-se e bateu os pés.
- Queres uma dança? Isso não te negarei! – Branca disse.
Branca pegou as mãos da mulher e se balançou junto ao corpo agonizante. Sem música, apenas os gemidos da duquesa. Branca gargalhava e batia os pés também. Até que a mulher abriu a boca e arfou, depois caiu morta.
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Aleatoriamente Contando
RandomDesate os sapatos, solte as algemas que o prende ao chão e deixe que sua mente vagueie por mundos diferentes contados aqui. Não tenha medo do tédio, aqui existe de tudo para evitar esse grande inimigo. Leia e descubra histórias de amor e fantasia e...
