Olhar Proibido

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  Corri desesperadamente. Aquela era minha única chance de fugir daquela prisão eterna. O laboratório parecia um labirinto com tantos corredores iguais. O alarme soou e fiquei ainda mais desesperada. Mas não poderia perder essa oportunidade. Se parasse de correr por um minuto, tudo iria voltar ao que era antes. Tirei meus óculos escuros. Por mais culpada que me sentisse, esta era a única forma de escapar. Comecei a ouvir as vozes mais perto. Acelerei mais ainda minha velocidade e então encontrei o que precisava: uma saída. Era uma daquelas entradas de ventilação, mas a hélice era enorme, por sorte estava parada.

 Comecei a andar mais devagar, sabia que ali estava mais segura dos olhares deles. Encontrei uma escada e subi para o túnel a que ela levava. Tinha que andar abaixada, mas ao menos estava livre. À medida que caminhava, as vozes se aproximavam. Encontrei uma luz. Literalmente “uma luz no fim do túnel”. Escorreguei e descobri que ali era o esgoto e as luzes vinham dos bueiros. Corri eufórica ao encontrar um deles com escada.

 O bueiro me levou a um beco que estava escuro com a noite. Pus meus óculos - não queria machucar ninguém inocente – e continuei a correr.

 - Ali está ela! – Gritou um dos agentes, desarmado. Retirei meus óculos e olhei diretamente nos seus olhos. Pude ver seu último sentimento:o pavor, pânico. Foi assim que ele ficou. Seu corpo todo enrijeceu e virou pedra.

 - Sinto muito. – Disse sem a certeza de que estivesse sendo ouvida. Um corpo bateu em mim e comecei a ficar histérica novamente.

 - Por favor, não! – Gritei descontroladamente.

 - Ei! Calma garota! Tudo bem, não vou te fazer mal algum. – Explicou o homem calmamente.

 - Por favor, por favor – Comecei a falar roucamente. O medo havia tirado minha voz.

 - O que aconteceu? Venha. Melhor me explicar em outro lugar.

 Percebi que ele não era um agente e coloquei meus óculos novamente.

 - De quem você está fugindo? – Perguntou o homem abrindo a porta de sua casa.

 - Eu... Eu não posso contar. Perdoe-me.

 - Tudo bem. Vamos começar com calma. Qual seu nome?

 - Medusa. – Respondi sem pensar bem. – Quer dizer... – Tentei pensar em um nome e lembrei da mulher que me salvou daquela prisão. – Kimber.

 - Bem. Sou Martin. Aceita um suco? Quem sabe não te acalma mais.

 - Sim. Obrigada.

 Martin trouxe dois copos e nos sentamos à mesa. Por um tempo apenas bebemos em silêncio. Mas eu resolvi quebrar o silêncio.

 - Então, como é sua vida por aqui? Agitada? – Perguntei fingindo interesse.

 - Na verdade não. É bem tranquila.

 Ouvi gritos fora da casa. Eram os agentes novamente. Eu estava com medo. Medo de voltar àquela vida. Desde que nasci fui usada em seus testes que jamais chegariam a algum lugar. Mas não tinha escolha, era obrigada a viver naquela sala. Aprendi tudo sobre a humanidade ali, mas no fim aquilo era apenas uma forma de dizer que eu estava livre. Mas não estava. Feliz foi minha mãe que se livrou dessa vida após olhar os meus olhos. Até hoje não entendi porque não aconteceu comigo. Sobrevivi. Para quê?

 - Quer mais suco? – Ofereceu Martin me trazendo de volta a realidade.

 - Não. Martin, obrigada pelo que acabou de fazer. Mas tenho que ir. Se eles te verem comigo, vão matá-lo. Eles têm armas.

 - Quem são eles?

 - Esquece. Apenas não me siga se quiser viver.

 - Ao menos me deixe ver seu rosto nu. Eu sei que parece bobagem, mas talvez um dia nos vejamos novamente. Preciso reconhecer seu rosto. – Disse ele pegando nos meus óculos.

 - Não! – Gritei tirando a mão dele.

 - Desculpe.

 - Aqui! – Avisou um agente entrando na casa e apontando uma arma para nós. – Não se mexam.

 - Ele é cúmplice, atirem! – Ordenou outro agente entrando.

 -Não! - Um gatilho foi acionado e eu empurrei Martin para o lado.

 A bala perfurou meu peito e eu fiquei tonta. Não conseguia fazer nada com o corpo, apenas sentir dor. Senti dois braços me pegando e levando-me para outro lugar rapidamente. Desmaiei.

 Acordei ainda sentindo dores e sem saber onde estava. Já podia perceber meu coração se regenerando. De repente, um beijo. Retribuí ainda com os olhos fechados, porque sabia que era Martin. Meu coração começou a se encher de esperanças. Talvez eu pudesse ser feliz, afinal. Suas mãos acariciaram minha cabeça e minha visão ficou mais clara. Tentei abrir meus olhos aos poucos. Ainda com a visão turva, avistei-o com um grande sorriso. Minha visão normalizou e só então notei que estava sem óculos.

 - Martin. Não. – Pedi baixinho. Mas já era tarde demais. Ali, à minha frente, estava uma estátua do que fora minha felicidade. Aconteceu tão rápido. Não tive tempo nem de me despedir. Eu sentia uma bala muito mais potente dentro de mim e essa, não sarava.

 - Eu sinto muito Medusa. – Falou uma agente se aproximando.

 - Eu não sou Medusa, essa era minha mãe. – Retruquei com lágrimas descendo dos olhos.

 - Mas no fim, você acabou sendo o mesmo monstro que ela. Venha. Será melhor para você e para toda a humanidade.

 Era verdade. Seria melhor ficar sozinha a viver rodeada de estátuas. Caminhei um tempo com eles. Pensando que voltaria para aquela eternidade dolorosa. Mas agora seria insuportável. Lembrar-me do que fiz todos os dias. Não poderia aceitar isso.

 A agente me ofereceu os óculos e quando vi o reflexo do sol neles, descobri o que deveria fazer. ”Monstros não têm finais felizes” é o mantra que repetia em minha mente sem parar para não desistir do que faria a seguir. Encontrei uma vitrine e fui em sua direção. Parei, retirei os óculos e olhei fixamente para os meus olhos no reflexo. Prateados. Era a primeira vez que os via. E seria a última. Todo meu corpo enrijeceu e petrificou de uma só vez. Estava feito.

Aleatoriamente ContandoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora