O piche descia puxando sua pele. Seu rosto, imóvel, expressava sofrimento. "Me perdoe" ele
sempre dizia, era preciso.
Ele a amava de verdade, adorava seu rosto. Mas adorava mais ainda suas lágrimas. Ele lhe
dizia coisas horríveis, às vezes nem precisava. Já bastava que ela percebesse as correntes que a
prendiam e observasse a luz do sol entrando pela minúscula janela.
Ele colhia o preto devagarzinho e aguardava enquanto mais surgia. Ela queria soluçar,
entretanto ainda estava muito afogada naquela substância.
- Obrigado, amor. - Beijou o rosto da pobre garota e a deixou.
A garota o amava tanto quanto era amada. Doía-lhe mais ainda o tratamento que recebia.
Em seu primeiro encontro, os dois se olhavam incansavelmente. Ele fazia juras de amor e
abraçava com carinho. Ela sorria, alguém a queria mesmo com seu defeito.
Foi com muita confiança e alegria que decidiu morar com ele, em sua casa no campo. E ali
percebeu que seu quarto não existia, só a sua prisão. Desde o início, ela sabia do seu desejo,
mas pensou que ele não forçaria.
- Por favor... - Gemeu baixinho. O piche descendo.
- Que lindo... Obrigado amor.
E ele experimentou...
As letras apareciam tão rápido e suas ideias não paravam. Escrevia sem parar, era ótima a
sensação. Cada palavra se formando daquele preto luminoso. E não seria branco? Não. Ele
sabia que o branco era diferente.
Mandava cartas, artigos, histórias. Tudo que escrevia se espalhava nuclearmente. Todos
adoravam assim que viam a cor das letras. A atração era irresistível. Ele mesmo se
narcisificava.
Ela sofria, clamava por liberdade... E chorava. Ele colhia, escrevia, lia e repetia.
A garota perdeu os devaneios, não sabia mais voar além do comum. Porque o presente gritava
com ela. "Por favor!" sua mente berrava. E berrava, berrava e berrava.
Todas as noites, ele dizia que ficaria tudo bem, que pararia. Ela acreditava sempre, e era essa
hora e o beijo os momentos mais esperados de cada dia. Porque sentia o cheiro da vida, sentia
um rosto sem lágrimas. Quanto amor havia ali! Depois era deixada e voltava a gritar de boca
fechada. Olhava o escuro e não via nada além do que existia nele. Dormia de olhos abertos, da
mesma forma que estava acordada. Se sabia? Imagina-se que nunca soube se realmente
dormiu ou se foi sonho que dormira.
Ele lhe trazia raros momentos de pura alegria, da alegria que faz chorar. E nessas alegrias,
leite macio descia em suas bochechas e limpava o piche grudado. Ele achava aquele momento
o mais lindo. Pena que pouco precisava das alegrias dela. A tinta preta sempre foi mais
necessária que a branca.
E assim o tempo andava. Ela esperava a liberdade que seria concedida, ele tentava se lembrar
disso. Mas todas as vezes que via aquela tinta, adiava a idéia.
Foi depois de tanto protelar que ele percebeu que jamais cumpriria o prometido. Estava
viciado! Aquele ciclo era tão prazeroso de se repetir. Até aquele momento, quando começou
a sentir um vazio. Quando supôs que talvez não estivesse amando-a. Viu as dores que causou e
sofreu. Precisava parar aquela sensação. Abriu o tinteiro e escreveu, seu corpo relaxou, no
entanto sua angústia continuava.
Correu para a cela, olhou para as lágrimas negras que vertiam da garota. Dessa vez, conseguiu
ver além das lágrimas. Compreendeu a tristeza de seus olhos petrificados.
Com as chaves em mãos, desatou as correntes e abraçou-a. Ela retribuiu e o beijou
desesperada. Não saiu da cela e nem desgrudou os lábios. "Vá embora" foi o que ele disse,
incerto se era o que queria.
- Fuja...
Ela sorriu e se manteve ali. As lágrimas brancas caindo e lavando sua alma. Ele farejou e
voltou a beijá-la. Queria mais daquelas lágrimas. "Não posso deixar que vá". Segurou-a com
força e encaminhou-se para as correntes. A garota desatou a chorar o piche. Ele parou de se
mexer e tocou em sua face. Brincava com as lágrimas dela e gargalhou. A tinta não parava de
jorrar e ele gargalhava cada vez mais. Ela desejava parar e ele adorava. Passou a tinta no
próprio rosto e um pouco no corpo. Permitiu que seu paladar experimentasse e sorriu. Bebia
com sede, seu corpo exigindo. Até que por fim sufocou.
A garota soluçou e o tocou. Ao sentir a frieza do corpo, chorou mais ainda. Suas lágrimas
cobriam o resto sem que sobrasse outra cor além do preto. Chorava e chorava querendo
parar. Acariciou o corpo de seu amado, suas mãos saudosas modelando.
As artes de seu amado eram conhecidas por todos que passavam. Entretanto, por mais
modesta que fosse quando dizia não ser a criadora, era a sua arte que mais intrigava todos que
a viam. Ela dizia ser o amor à tinta.
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Aleatoriamente Contando
De TodoDesate os sapatos, solte as algemas que o prende ao chão e deixe que sua mente vagueie por mundos diferentes contados aqui. Não tenha medo do tédio, aqui existe de tudo para evitar esse grande inimigo. Leia e descubra histórias de amor e fantasia e...
