2. Sua indiferença

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O alarme do celular gritava ao lado da cabeça de Bruno. Ele podia muito bem desliga-lo e fingir que nada tinha acontecido, que seu celular não tinha avisado e nada do tipo. Mas ele agora era adulto, e essa desculpa só era aceita quando era para matar aula e não trabalho.

O Sol nem tinha dado o ar da graça, imagina a indisposição de levantar quando ainda está aquele friozinho e tudo escuro? Bruno sentia aquilo 90 vezes mais forte. Seu corpo estava mole, sua cabeça doía e seus olhos não conseguiam nem abrir. Ele queria fingir muito uma doença, mas era somente preguiça e falta de vontade de ir para aquele trabalho de merda que ele tinha - na verdade, era algo muito bom. Um emprego maravilhoso, mas tudo vira uma bola de coisas horríveis, de várias bostas juntas, quando você simplesmente odeia o que faz. Um emprego de merda seria se ele não fosse reconhecido pelo o que fazia, ou se ganhasse uma mixaria. Mas não. Bruno tinha quase ganhado na loteria ao conseguir uma vaga logo que se mudara de Brasília. Era o emprego de qualquer graduado em engenharia civil, então era um trabalho maravilhoso para uma pessoa que odiava tudo que o fizesse se lembrar engenharia.

Com o tempo aquela paixão (ou obrigação) que ele tinha pelo curso que fizera na universidade, virou ódio, nojo e ranço. Odiava tudo!

Ele conseguira um emprego em uma empresa pequena, naquela época. Mas assim que entrou, o mundo da engenharia cresceu enlouquecidamente, e ele só foi subindo de cargo. Agora fazia parte da segunda maior empresa de construção civil, e seu cargo só não era o melhor (mas estava entre os cinco). Ganhava tanto dinheiro que não conseguia nem gastar a metade, então deixava boa quantia na poupança assim que ajudasse a pagar todas as contas de casa - sua irmã era uma mera escritora, e por mais que fosse conhecida, se ela pagasse tudo eles viveriam na miséria. As contas eram dividas pelos três que tinham emprego, mas Bruno exigia pagar mais, já que ganhava mais que o dobro do salário de Luísa e Bernardo juntos.

Bruno poderia pedir demissão no minuto que entrara naquela empresa e viu que não queria aquilo para a vida dele, mas o que diabos ele faria da vida? Não podia largar seus longos seis anos de faculdade que foram sofridos e se aventurar com outra profissão. Mesmo que não quisesse ele não podia abandonar tudo, se não seria um quebrado e desesperado a mais.

Ele mandou aquele celular ir se foder e desligou o alarme. Foda-se que tinha que trabalho, ele era quase o chefe. Iria se dar uma manhã descanso. Almoçaria em casa e depois iria trabalhar, e não estava nem ligando se alguém fosse reclamar.

Virou para o lado contrário da janela e relaxou mais uma vez, ficando prestes a cair no sono.

Mas, aprendam: nada nunca é do jeito que nós queremos. E para Bruno não foi diferente.

Assim que ele fechou os olhos, sua porta foi aberta na maior ignorância por uma irmã desesperada. Parecia até uma cena de filme, quando o personagem principal abre a porta e encontra algo horrível. Mas no caso, ele era o principal, não Ana Júlia. Tava tudo errado, assim como seu sono.

- Eu preciso muito de você nesse momento - Ana Júlia disse e começou a balançar os ombros do irmão que ainda tentava voltar para aquele sonho aonde ele era um cantor super famoso. - É sério, Bru! Só você pode me ajudar.

- O que você quer? - Ele perguntou, ainda com a voz embargada e com aquele bafo matinal que parecia que tinha comido um rato morto.

- Eu tenho aula daqui há uma hora, e é lá na lapa. Me leva, por favor!

Bruno levantou seu rosto até conseguir ver o celular. Desbloqueou e sofreu com aquele brilho que cegava ainda no escuro do quarto. Eram 6:07! O que diabos Ana Júlia queria em ter aula em pleno sábado naquele horário.

Tudo bem que ele também tinha trabalho, mas ele era praticamente obrigado! Já Ana Júlia poderia curtir a preguiça do sábado jogada na cama, sonhando com unicórnios. Não ir estudar.

(Amar)eloOnde histórias criam vida. Descubra agora