🌌Autora🌌
- Certo - ela disse a si mesma, encostando-se a parede. O mesmo nó em sua garganta de horas atrás ainda parecia sufoca-lá. A pergunta "Como irei fazer isso?" ainda pairava em sua mente confusa - Eu vou... De algum jeito, irei conseguir. Terminarei o que comecei.
Mais um suspiro. Mais uma falha. Mais um recomeço. Mais uma incerteza. Mais um aperto em sua garganta.
Fechou seus olhos com esforço e recomeçou da estaca zero. As árvores, o cheiro da grama a sensação do vento balançando seus cabelos castanhos e, principalmente, o Dipper que chorava desesperadamente, desapareceram em sua mente em um piscar de olhos e tudo que se pode ver foi o negro de sua mente se expandir como o vento, levando as cinzas daquela ilusão embora. Ela se imaginou fechando os olhos em sua própria mente e orou para que aquela fosse a última vez que colocava suas mãos delicadas e trêmulas sobre o iniciar que pairava gigante a sua frente com letras grandes e vermelhas - se não soubesse ler juraria que estava escrito perigo e nem se atreveria a colocar seus dedos ali - acompanhados de números que pareciam passar como segundos bem diante de seus olhos, como se estivesse em uma espécime de vídeo-game e não em sua mente. E assim a simulação recomeçava, o som do latido dos cachorros, junto às pegadas e sons de tiros para todos os lados e, com isso, uma longa caminhada em direção a liberdade. Quando já estava enfim livre das algemas, que antes a prendiam, sua missão passava a ser correr contra o vento e achar seu lugar de origem. Tarefa fácil e rápido que ela completava com prazer eminente. De alguma forma, ela podia sentir o vento contra seus cabelos e escutar barulho de galhos sendo quebrados conforme seus pés tocavam o chão com tal convicção que parecia que realmente estava correndo junto ao vento.
Os sons da natureza pareciam fazer sincronia com seu ser, coisa que lhe aguardava profundamente. Mas isso, sem sombra de dúvida, não era complicado. Sendo o destino a margem de todos os seus problemas, onde ela teria que encara-lo em poucas porém compreensíveis palavras que tudo estava acabado e assim consertar os erros do passado.
A palavra parecia ter surtido um efeito enorme nela, e junto com o aperto no peito, vieram os pensamentos que dês daquela madrugada fria ela não conseguia parar de pensar e muito menos dizer a si mesma que estava errada, como ela fazia toda vez que se via tendo pensamentos absurdos. Mas pra que negar? Ela era aquilo mesmo e naquele ponto tudo já estava claro o suficiente para que ela pudesse compreender que sua relação com Dipper era apenas um leve parasitismo, onde um se beneciava as custas do outro, não um mutualismo, como ela esperava e ansiava em noites em claro.
- Concentre-se - ela disse a si mesma, quando viu que o sono e aqueles mesmos pensamentos estavam a consumindo de novo. Tarde demais...
Doía e muito pensar daquela forma, mas era assim que a realidade se apresentava e contra fatos não há argumentos. Doía pensar que ela era e sempre fora um parasita na vida de Dipper. Doía pensar que ela sempre fora a doença ao invés da cura; a condenação ao invés da salvação; a depressão ao invés da felicidade. Doía mesmo pensar que ela era o seu maior mal quando tudo que ela queria era faze-lo feliz, mas doía mais ainda saber e não fazer nada a respeito. Sendo egoísta mais uma vez. Só pensando em suas consequências e pouco se ligando para o fardo dos outros. Eles que se danem, certo? Mas pela primeira vez em sua vida parecia que não havia nem uma faixa em meio a seus olhos castanhos e ela podia enxergar tudo com clareza, e, com isso, ela pode reparar em todos os seus erros e problemas[...] Pela primeira vez em toda sua vida ela enxergara a realidade e pela primeira vez em sua patética vida ela pode perceber o que acontecia em seu relacionamento com Dipper: ela dependia dele, mas ele não dependia dela.
As lembranças passadas de um erro fatídico misturadas ao grande peso que ela guardava em seu coração pelo remorso a fizeram despertar, quando seus olhos mais que tudo queriam se fechar. E ela mais que tudo se sentiu envergonhada por quase adormecer numa situação tão importante quanto aquela. Não era ela que estava com a cabeça a prêmio, mas sim Dipper. E por ele, ela moveria montanhas, quebraria regras e padrões, enfrentaria seus maiores medos e morreria.
