A vista não parecia tão incrível quanto a noite, mas ainda era bonita. Além do rio, Ei viu as planícies se estendendo e virando florestas até onde seus olhos alcançavam. Parece igual, mas é diferente de lá de casa, ela pensou por um momento, mas colocou a ideia de lado logo.
Apesar de ser uma sensação estranha, como se ela olhasse o mundo todo de cima, Ei não tinha vontade, nem tempo, para perder pensando sobre tal coisas. Tadayoshi não se importava, nem olhou ao redor. Ele já estava indo para a cidade e ela teve que correr atrás dele.
O destino deles não era tão fácil de encontrar de manhã. Sem as luzes trêmulas brilhando contra a escuridão, a cidade parecia tão pequena que dificilmente parecia diferente de uma vila comum. Mas isso não a incomodou. A cidade tinha perdido seu brilho inicial para a garota.
O problema mesmo era a distância. A gente vai chegar lá hoje mesmo? Ei não sabia quanta verdade havia nas palavras da dona, mas ela não estava mentindo quando disse que a cidade era mais longe do que parecia. De acordo com ela, eles não chegariam lá antes do meio dia. Essa hora tinha chegado e passado, o sol escaldante sobre suas cabeças no céu sem nuvem enquanto caminhavam pela planície, mas a cidade mal parecia mais perto.
Talvez não fosse tão ruim se ele dissesse alguma coisa, Ei pensou, olhando de relance para as costas de Tadayoshi. Ele não tinha dito nada desde que deixaram a pousada. E já que nem ela tinha algo a dizer, a jornada pareceu muito mais longa. O sentimento de culpa dela não ajudou também. Ela sabia que o progresso lento deles era culpa dela; ele tinha que desacelerar para acompanhar os passos dela.
O sol estava começando a tocar no horizonte quando eles finalmente podiam ver a muralha externa. Ei suava, ofegava, suas costas doíam e as pernas latejavam. Mas ao avistar a cidade que ia além de sua vista, ela esqueceu o quão exausta se sentia. Eles se juntaram a pequena fila para entrar e atravessaram os portões.
Ei apenas encarou com a boca aberta. Tantas casas e lojas que ela não conseguia contar todas. A maioria tinha dois andares, mas algumas tinham três e algumas pareciam tão grandes que faziam a pousada parecer pequena. Entre as construções, as ruas e becos pululavam com vida. A garota nunca tinha visto tantas pessoas num só lugar, nem mesmo quando os soldados vinham coletar e escoltar os impostos. Na vila dela, todos se vestiam quase igual. Aqui, homens e mulheres vestiam roupas coloridas e folgadas. Eles conversavam, compravam comida das mesas ao longo das casas e se abanavam com leques de papel, uchiwa, enquanto andavam pela cidade.
Ei queria checar as comidas nas mesas, mas só andar sem bater em ninguém precisava de sua atenção. Enquanto ela fazia se melhor para não pisar no pé de ninguém, ela notou algo estranho. Apesar da multidão e das coisas interessantes para olhar, alguns olhavam para eles mais de uma vez. Uns sussurravam entre si quando viam ela e Tadayoshi. Um velho até mesmo veio na direção deles, o rosto vermelho e os olhos lacrimejando, até um jovem musculoso o parar e o levar embora.
Apenas quando ninguém encontrou os olhos dela, Ei percebeu. As pessoas não olhavam para eles; elas olhavam para as armas. Ela puxou sua espada para mais perto por reflexo.
— Devia ter lembrado — falou Tadayoshi, mais para si do que para Ei. Ele olhou ao redor e entrou no beco mais próximo. Mesmo aqui estava lotado, mas eles podiam andar sem atrair a atenção de todos.
— Porque estão olhando pra gente? – Ela esperou para ele dizer o resto, mas quando percebeu que ele não ia dizer, ela perguntou.
— Espadas não—
Um homem deu um encontrão com força no ombro de Tadayoshi. O espadachim virou a cabeça e o homem careca o encarou de volta com o único olho que lhe restara. Por alguns longos momentos, Ei prendeu a respiração, esperando a luta começar. Mas quando o homem olhou para a espada na cintura de Tadayoshi, a garota percebeu que a mão do espadachim não estava no cabo. É claro... não tem chances do Tadayoshi lutar por algo tão idiota, ela pensou com um sorriso pequeno.
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Samurai NOT
ActionA pedido de seu mestre, Tadayoshi acabou com a sua vida. Agora ele procura o motivo por trás desse pedido.
