Eles acham que eu sou bom porque sou empático, por os entender como ninguém, mas eu os entendo porque vivo todo tipo de inferno em minha mente. Isso eles não sabem. Algo em mim identifica o que se passa no submundo deles. É como se eu me reconheces...
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Nem apocalipse, nem viver no próprio inferno em chamas, nem uma visita na calada da noite do próprio Lúcifer, nada disso provoca-me tanto medo quanto meus pensamentos obsessivos.
Não. O nome correto não é medo, é horror, pânico. Estou nesse exato momento suando terror, mesmo com o arcondicionado do carro a todo vapor marcando 10 graus. Minhas mãos estão tremendo no volante. Minha respiração está incontrolável. Estou prestes a ter um colapso.
Não, Deus, por favor, isso não! Jogue todo tipo de maldição sobre mim, menos outro surto obsessivo!
Minha mente joga contra minha sanidade.
Meu último surto obsessivo ocorreu quando eu tinha 14 anos. Minha mente saía criando padrões e regras online. Tudo começou com regras simples e bobas; desligar a luz duas vezes, virar a chave da fechadura 4 vezes, só parar de olhar as horas quando marcasse número par...
A medida que fui satisfazendo, inocentemente, meu demônio, ele foi ficando mais forte e mais complexo.
Aqui vem algumas partes de minha memória que tremo só de lembrar.
Infelizmente ainda guardo as partes mais traumáticas em memória viva. São flashes de um pesadelo. Digo infelizmente porque na maioria das pessoas normais existe um recurso cerebral chamado amnésia seletiva, popularmente conhecido como apagão de memórias traumáticas. Quando sofremos um acidente, um ato violento, estupro... Nosso cérebro registra a experiência e guarda em um calabouço mental. É algo como uma edição cerebral, algumas pessoas acabam esquecendo absolutamente tudo que ocorreu durante todo o trauma. Nosso cérebro pode apagar 24 horas de memória, ou até anos...
É uma solução que a nossa mente arranjou para conseguirmos sobreviver apesar de terríveis experiências.
Mas é obvio que esse sistema do apagão não funcionou comigo. Você acha que minha mente ia perder a oportunidade de me torturar?
Acho que foi uma terça, um dia sem graça, ímpar. Infelizmente, esse dia estava ensolarado, minha vó foi me deixar no colégio, assim que abro a porta do carro, uma amaldiçoada coruja, enviada pelas trevas, imagino, mergulha em uma rasante sobre nós e solta um rugido horripilante. Minha vó riu e disse que era uma rasga-mortalha. Imediatamente minha mente criou um padrão: eu só devo sair do carro quando essa coruja der outra rasante.
Fechei imediatamente a porta do passageiro, nervoso. Minha vó achou que eu tinha esquecido alguma coisa. Sei que ela perguntou algo que não lembro, ficou esperando alguma resposta, olhando para mim, mas eu já não conseguia mais falar. Minha mente havia acabado de criar outro padrão, uma nova regra: eu só poderia falar se a coruja desse outra rasante e emitisse o mesmo amaldiçoado grito, afinal, quando ela fez sua horripilante aparição, eu estava calado, portanto, só podia falar novamente depois do segundo grito daquele demônio de asas (número par, percebe?).