4.

6 0 0
                                        

Andie raspou a garganta e o fitou.

- O que te impede? – ele refez a pergunta e ela deu de ombros.

- Não tenho mãe e... – não era de todo mentira – Minha mãe morreu há muitos anos... quase não a conheci. Na maioria do tempo, sempre fomos eu e meu pai.

Olhou para o nada e quanto o fitou segurou a respiração ao perceber que ele a fitava com uma intensidade... molhou os lábios com a língua e deu de ombros.

- Bom, o fato de ter que deixar meu pai sozinho... acho que o assustaria um pouco.

Lion assentiu e voltou a dirigir, ela começando a ver se aproximar os arredores de onde morava.

- Hum... sinto pela sua mãe. Sei bem o que é isso. - Lion lamentou, o olhar triste.

- Não tem mãe? - ela indagou e ele a fitou, ela então percebendo olhos cinzentos fabulosos.

- Não tenho pai. Ele morreu quando eu tinha sete anos.

- Minha mãe quando eu tinha cinco. Doze anos atrás...

- Então agora tem dezessete?

- Sim. – ela sorriu sem mostrar os dentes.

Lion sorriu e voltou a dirigir quando ouviu as buzinas e percebeu que semáforo já liberava a passagem deles, há algum tempo.

- Então acho que nossos pais morreram no mesmo ano.

Foi então que ouviram um chorinho no banco de trás do jipe. Andie virou-se e viu uma jaula onde tinha um pequeno cachorrinho preto, ao lado de uma mochila que tinha o mesmo símbolo do agasalho dele.

Abriu a gaiola e pegou o cachorrinho.

- Meu Deus! Que fofura! - disse erguendo enquanto os olhos âmbar a fitavam carinhosos.

- Estou treinando-o para que possa andar comigo sem aprontar.

- E te proteger. - completou ela colocando-o no colo.

- Sim... e também vou ensiná-lo a nadar.

Ela não pode deixar de ver mãos grandes... e o couro cabeludo... os cabelos que lembravam uma escova macia. Pensou se... os olhos se encontraram as mãos se tocaram quando ele se aproximou para afagar a cabecinha do cachorro.

Andie arrepiou-se toda e fez uma careta, continuando a carícia no pequeno animal que se arrodilhou no colo dela, a calda balançando devagar.

- O que foi isso? – ele sorriu e ela viu o sorriso mais lindo do mundo. Olhou para o lado, ignorando o que sentia...

Ele poderia pensar que... Andie fez uma careta e olhou a rua, carros parados ao lado do jipe.

- Bem, é que... eu não tenho uma experiência boa com água... - disse voltando o pensamento para tempos atrás - quase me afoguei quando tinha seis anos... – ela escondeu uma risada meio nervosa no medo que ainda sentia - Meu pai nunca mais deixou que entrasse em uma piscina de novo.

Arqueou as sobrancelhas.

Lion deu uma gargalhada.

- Que isso! Mas que bobagem! - disse Lion - E se você cai na água um dia?

A adolescente arrepiou-se de novo e então sorriu, nervosa.

- Sério, Andie... Você tem que aprender. Não pode...

- Ei... Não me deseje mal! - ela o fitou com um meio sorriso.

And ficou séria, dessa vez.

- Eu sei! Mas tenho... pânico! E não tenho quem possa me ensinar!

- Bom... Se quiser te ensino. – ele de ombros, no mesmo instante em que o jipe parou em frente ao prédio onde a adolescente morava.

Novamente, de forma impetuosa ela sorriu, dessa vez tirando o fôlego dele ao sorrir.

- Tudo bem, aceito. - disse ela e virou-se para colocar o cachorrinho de volta à gaiola, no banco se trás.

Quando voltou para frente, não percebeu o quão perto estava seu rosto... os rostos se tocaram...

- Desculpe. – ele murmurou quase ofegante e e olhou para frente, com um meio sorriso.

Andie engoliu em seco sentindo-se acanhada e...

Algo pesado...

Algo...

Lion pegou uma caderneta no porta luvas e anotou um número, rapidamente.

- Me ligue e marcamos o dia e como! - disse entregando-lhe o papel.

And pegou e desceu do jipe, rapidamente.

- Muito obrigada. Até...

- Até! - disse Lion e partiu.

* * *

Andie praticamente entrou correndo no prédio, passando quase sem cumprimentar o porteiro. Em sua mente estava vívido tudo o que ela sentira naquela tarde. Era como...

Não conseguia explicar... não... parou inquieta quando se sentiu observada por uns e outros. Sempre acostumada a conter-se o que conseguiu foi olhar para o chão, os sapatos de salto médio cor bege...

Entrou no elevador e então viu-se.

A saia na altura dos joelhos, cor creme... a bata branca de renda, gola alta, botões perolados... os cabelos presos em um rabo de cavalo...

Brincos discretos como toda ela... passou a mão pelos cabelos. Fora aqueles cabelos flamejantes, pouca coisa chamava atenção em sua aparência. Na verdade, quase sempre era... insossa... era...

O teto do elevador pareceu cair em sua cabeça quando a porta se abriu e ela praticamente fugiu de si mesma. O que estava pensando?

Que...

- Quem era naquele jipe que te trouxe para casa? – a pergunta veio do pai, a fixando no chão logo que abriu a porta e entrou em casa.

- Um rapaz que conheci no clube. É instrutor de natação. - And respondeu, com um sorriso seco para o pai.

- Natação? Mas você sabe que eu não quero te ver falando de natação, Andie! – a irritação aflorou no pai que se exaltou do nada.

Andie suspirou e sentindo-se elétrica e surpreendentemente irritada, o fitou.

- Eu sei, papai! - disse ríspida.

O homem ergueu o rosto atento. Às vezes acontecia aquilo. E ele sabia que a solução era não fazer nada. conhecia... sua mente pareceu voltar no tempo...

- ...licença vou para meu quarto. Estou com sono e quero dormir para estudar para as aulas que retornarão.

Dessa forma, fugiu para o lugar que mais sentia-se segura por ali: seu quarto! 



MarquesaOnde histórias criam vida. Descubra agora