Capítulo XX

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TC narrando

Aquela que eu tinha visto descer o morro era a mãe de Juliana. Eu tinha a sensação inquietante que já tinha a visto antes. Eu só precisava saber onde... 
TC: Escuta Ju, nos já nos conhecíamos antes? 
Ju: Não... Que pergunta... 
TC: Tem certeza que você nunca me viu antes? Absoluta? 
Ju: Tenho Thiago. Porque a pergunta? 
TC: Nada. Eu só achei que... eu conhece sua mãe. 
Ju: Ela é uma socialite, você deve a conhecer da mídia. 
TC: É, eu devo ter me enganado. 
Ju: É. – Ela concordou. 
Sentei-me ao seu lado, encarando seu belo rosto. Ela parecia perdida, procurando uma luz no fim do túnel. 
Ju: É incrível como ela é fria. Ela parece não ligar para o que eu sinto, sabe. – Ela disse, desabafando. 
TC: Eu não sei muito sobre família. Na verdade, eu considero que nunca tive uma. 
Ela voltou seus olhos para mim. 
Ju: Você me disse um pouco sobre seus pais anteriormente. Isso não é ter uma família? 
Neguei com a cabeça. 
TC: Eu não tive mãe e meu pai foi assassinado quando eu tinha 6 anos. 
Ju: Sinto muito. 
TC: É – Assenti. – Ele era dono de tudo isso aqui. Quando ele morreu, a Rocinha passou na mão de muitos até que eu completei 16 anos e pude assumir o morro. 
Ju: Nossa, eu não imaginava que sua história fosse tão... 
TC: Difícil? – Interrompi-a – A vida não foi nada fácil pra mim. Mas eu ainda procuro o homem que arruinou-a. 
Ju: Vingança... 
TC: Exatamente. Desde que eu vi meu pai morrer em meus braços, eu jurei a mim mesmo que o faria pagar. 
Ju: E você sabe quem este é?
TC: Um fuzileiro. Seu nome é August Schmidt. Ele era um homem cruel que ameaçava os negócios do meu pai. Todos os dias subia o morro com os seus e aterrorizava os moradores. Matava vários deles e jogava os corpos na entrada da favela. Era um passatempo pra ele. 
Ju: Um tirano na Rocinha. – Ela parecia incrédula. 
TC: Pior que um tirano. Ele fez uma promessa a meu pai, ele lhe disse que se abdicasse do controle das outras favelas nas quais ele comandava. Ele deixaria a Rocinha e a nossa família em paz. 
Ju: E ele cumpriu a promessa? 
TC: Não. Meu pai fez o que ele pediu e entregou as favelas para seus amigos, os que hoje conhecemos como milicianos, ficando apenas com a Rocinha. Mas ele não estava satisfeito e na primeira oportunidade que teve, voltou, deu um tiro em meu pai e sequestrou minha irmã menor, Sophia. Ele tentou me matar mas eu fui mais rápido e escondi-me antes que fosse pego. 
Ela parecia horrorizada. 
Ju: Você era apenas uma criança... Como alguém pode fazer isso? 
TC: Mas ele não ficou impune. Aos 10 anos, eu era uma criança amargurada, com raiva de tudo e uma sede de vingança muito intensa, isso tornou-me muito precoce pra minha idade. Eu pedi para o dono do morro na época, que era um braço direito do meu pai, que me ajudasse a encontrá-lo. Descobrimos, então, que ele morava em um apartamento na Barra da Tijuca. Aquela altura do campeonato eu já sabia manusear muito bem uma pistola. Nós fomos pra lá numa sexta-feira a noite na esperança de surpreendê-lo e matá-lo, mas pra nossa surpresa, quem estava lá, era apenas sua filha menor e sua mulher. 
TC: Meu companheiro rendeu a mulher e amarrou em uma cadeira. Ele chegou alguns minutos depois e eu vi minha oportunidade dourada. A morte era algo muito misericordioso para o homem que fora o responsável por fazer-me crescer sem pai. Ele tentou negociar, mas eu estava decidido, antes de deixar o apartamento, eu atirei na cabeça da menina e a matei.
Ju: Thiago... A menina não tinha culpa de nada. 
TC: Eu sei disso. Mas eu era moleque e não conseguia pensar por esse lado. Mas ainda sim, eu não desistirei nunca que fazê-lo pagar pelo sofrimento que causou-me. Fiquei sabendo anos mais tarde que ele teve outros filhos. Um menino, que eu creio que seja mais velho que a garota que matei e sua caçula. E por causa da minha irmã, eu vou pegar a sua filha e sumir com ela, assim como ele fez com Sophia. 
Ju: E nisso de pegar e sumir com a menina, quer dizer que vai matá-la também?
TC: Exatamente. Mas pra isso eu preciso achá-lo. Ele sumiu do mapa, nunca mais foi visto ou falado. 
Ju: Apesar de eu achar que este homem merece uma punição pelo que fez, não posso apoiar a ideia de você matar uma pessoa inocente pelo ato de seu antecessor. 
TC: É a única forma de eu achei de lhe infringir dor. Quero que ele sofra por toda a vida e se culpe pela morte das pessoas que mais amava. Prometi isso ao meu pai e vou cumprir. Sou um homem de palavra. 
Ju: É que... não sei, não faz sentido? Porque ele faria o que ele fez? 
TC: Não sei, mas tenho motivos para acreditar que é por causa de minha mãe. 
Ela suspirou. 
Ju: E eu achava que minha vida fora péssima. 
TC: A minha vida era péssima até eu chegar onde estou hoje. Agora... bem... não é tão ruim assim. 
Juliana olhava para os próprios dedos, confesso que estava surpreso ao vê-la daquela maneira, frágil e vulnerável. Era uma das primeiras vezes que ela retirava a armadura em minha presença.
Passei a mão pelos seus cabelos e ela encarou-me com os olhos marejados.
Ju: Porque você sempre está aqui quando eu estou fragilizada? – Perguntou ela
TC: Não sei. Sina... Destino?

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⏰ Última atualização: Aug 27, 2018 ⏰

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