Juliana Narrando
Pablo e Marina subiram aos beijos para o quarto dela. Eu preferia não imaginar o que eles estaria planejando. Sentei-me no sofá e liguei a TV. Fui passando os canais até que um chamou a atenção. Meus pais estavam lá, chegando em um importante evento que ocorrera hoje de manhã. Eles estavam incrivelmente elegantes. Meu pai em um de seus ternos italianos e minha mãe em um vestido branco que ia até os calcanhares e seus cabelos loiros preso em um coque desfiado. Linda... O entrevistador fui até meu pai e eles começaram um dialogo.
XXX: Sr. Lúcio, alguma novidade na Arezzo Inc.?
Lúcio: Há sim, um novo produto que virá ao mercado no início do ano que vem.
XXX: Ouvimos rumores sobre sua vida pessoal. Problemas com seus filhos.
Lúcio: Eu não tenho filhos. Eu tenho um filho e ele se chama Felipe.
XXX: E quanto a Juliana?
Lúcio: Desculpe, não sei a quem se refere. – Disse encerrando a entrevista.
Nada havia me doido mais que o desprezo de meu pai. Ele se esquecera de minha existência. Me tratado como se eu fosse um simples objeto que não merecia ao menos ter o trabalho de ser jogado fora. Tão insignificante que poderia simplesmente ser esquecido. Senti as lágrimas brotando em meus olhos.
A porta, então, é aberta com violência e lá está Thiago. O que ele fazia aqui?
TC: Ei... está tudo bem?
Limpei-as da maneira que pude. Ele não ia me ver chorar.
Ju: Estou ótima. – Disse secamente.
TC: Não é o que parece.
Ju: Não interessa o que parece. O que quer aqui?
TC: O Play está aqui?
Ju: Está no quarto com a Mari. Nem fodendo eu vou lá em cima.
Ele suspirou. Acho que estava com raiva.
TC: Eu não estou acreditando. Eu vou...
Ju: Bem, faça o que achar melhor. Eu vou tomar um ar. – Passei por ele como um jato. Caminhei até a praça que ficava em frente a casa, ao lado das escadarias que davam no asfalto. Debrucei-me contra as baixas grades que davam em um pequeno precipício. O vento levantava meus cabelos.
Thiago apoiou-se ao meu lado.
TC: Olha morena, eu sei que você me odeia e coisa e tal, mas eu não gosto de ver menina chorar.
Ju: Eu não sou uma menina e eu não te odeio... não. Eu te odeio sim.
Ele riu.
TC: O nome do seu pai é Lúcio?
Ju: Ainda estava passando?
TC: Só estava reprisando algumas partes. Eu sinto muito. Quando me disse que o relacionamento com seus pais era complicado eu não imaginei que chegasse a tal ponto.
Ju: Meu pai é muito controlador. Ele não quer filhos, quer medalhas para exibir para os amigos. Ele sabe que eu não sou e nunca serei uma e por isso sou descartável.
TC: Sua mãe...
Ju: Também é uma medalha do meu pai. Ela faz o papel de esposa exemplar na rua, mas em casa, eles não usam ao menos a aliança.
TC: Não sei se isso vai te ajudar mas, eu também tive problema com meus pais. Na verdade, eu nunca conheci minha mãe. Meu pai sempre me disse que ela era uma drogada qualquer. Já ele, era o chefe de uma grande facção e sempre exigiu muito de mim. Eu queria ser militar... um grande coronel ou general. Mas veja onde estou hoje.
Sorri e o mirei.
Ju: Você é exatamente o que coronéis e generais caçam.
Ele aproximou-se de mim de maneira sombria. Suas mãos envolveram minha cintura e laçaram-me. Estávamos tão próximos agora... Seus lábios reivindicaram os meus avidamente e eu não pode os negar.
Seu beijo era tão quente, mas ao mesmo tempo, tão consolador. Pus minhas mãos em sua nuca e ele puxou-me as pernas, prendendo-as em sua cintura. Ele apoiou-me sobre uma das mesas de praça. O desejo queimava entre nós. Em outras ocasiões eu teria preferido a morte, mas agora, eu precisava de alguém e esse alguém era ele.
Mari: Até amanhã. – Ouvimos Mari dizer.
TC parou imediatamente e mirou os olhos arregalados tanto de minha amiga quanto de Pablo.
Eles estavam boquiabertos.
TC: Preciso ir.
Pus as mãos na boca, recompondo-me.
TC: Te vejo depois.
Ele disse para então subir em sua moto e arrancar, deixando o local assim como PB.
Eu não podia saber de meu lugar. Não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer.
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Do Morro Ao Asfalto
RandomDois mundos completamente diferentes, dois caminhos que se cruzam. De um lado, Juliana Arezzo, filha de um poderoso e impiedoso empresário. Do outro, Thiago da Costa, conhecido como TC, dono da maior favela da América Latina, a Rocinha. July, como é...
