É sempre um bom momento para se recordar quem é

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Juliana

As palavras de Candela permaneceram rondando em minha mente, dividindo espaço com as lembranças daquele encontro febril e colocando em questão a confiança que eu poderia ter na garota que acabei de conhecer.

A verdade era que com ser lindo não se garantia caráter, meu próprio pai aparentava ser um anjo de candura e no fim demostrou ser exatamente como morreu: Um homem desonesto. Mas ao mesmo tempo não era demasiada crueldade julga-la apenas segundo minhas desconfianças? Até porque, em sua aparição não foi menos que carinhosa comigo, o que, no mínimo me levava a irrevogavelmente conceder o benefício da dúvida.

Sim, isso parecia bom e seguro por agora, não me confiar totalmente ainda por estar consciente dos meus erros, mas tampouco condena-la pelos dos outros, concluí ao atravessar o portão da minha casa depois de um árduo dia de trabalho.

Assim que entrei não fiz muita questão de cuidar meus passos, pois embora em casa Lupe já estava dormindo e não corria o risco de ser perguntada sobre meu trabalho, na verdade, nas primeiras noites me questionei se ela apenas não se deitava sem sono para não ter que me encarar, mas nunca ousei conferir realmente temendo a descoberta.

O que mais dava medo, entre todas as coisas, era descobrir o que no fundo já sabíamos.

Não suspirei mais por isso como em outros tempos, apenas me limitei a esquentar o jantar deixado para mim enquanto massageava meus pés fora do sapato que durante a maioria da noite deu lugar a um salto quinze.

Inevitavelmente, e sem qualquer aspiração de ambicionar algo, me veio a mente a vontade de ter a sensação de ser esperada ao chegar por alguém que quisesse saber de mim e da minha vida, mas não da parte superficial dela: Se a fila do banco estava grande, se o horário de almoço foi corrido ou se alguém se demorou demais me olhando no meio da rua, o que eu queria era alguém que pudesse me ouvir e como num truque faceiro, minha mente volta aqueles olhos claros com mais uma outra pergunta: Poderia ser ela o nome dos meus sorrisos sem ser das minhas lágrimas?

Eu não tinha a menor idéia. Mas enquanto eu não tivesse eu esperava poder entregar meus beijos sem ainda entregar de todo meu coração, porque de pessoas que me magoavam até com palavras e silêncios eu já tinha algumas.

Por falar na ausência das palavras, outra vez terminei minha refeição sozinha, tomando meu banho em seguida e indo para cama sem parar para ver televisão, pois quando a vida tem seus próprios nuances dramáticos acompanha-los em frente a uma caixa colorida parece vazio. Assim, apenas entrei debaixo das minhas cobertas tentando não dizer que mais aquele dia parecia uma série de outros como se meu destino fosse uma boneca russa, mas mesmo que ousasse dizer não havia problema, porque o cansaço extra que abatia meu corpo me confessava que aquele dia foi diferente e nos outros adiante, se a loira ousasse voltar, também o seriam.

Mas passada alguns minutos do horário que chegou no dia anterior ousei pensar que não realmente viria. Quando os segundos se transformaram em horas terminei pensando que não era uma ousadia, era um fato e comecei a me recriminar e não por ter cedido na pela primeira vez na primeira noite, eu queria, ela também, e foi uma experiência deliciosa, mas por ter saído de trás das minhas trincheiras me colocando na linha de tiro de maneira que mesmo que ainda não estivesse acontecendo acabei sendo atingida.

Para completar aquela noite incrível em que eu cometi o erro de buscar uma bebida no bar depois da minha apresentação me deparei com o riquinho insuportável.

- O que esse bombom está fazendo fora da caixa? - Para minha sorte o suco ainda girava em minhas mãos, do contrário, teria o colocado para fora apenas com aquela desagradável cantada.

- Não sou um bombom, sou uma mulher, e se alguém não te ensinou a uma você respeita ou respeita - Avisei tomando o sabor da laranja em meus lábios desejando que tivesse entendido bem o recado.

- Calma doçura, eu apenas estava elogiando você, sequer mencionei o fato de que passeando desavisado poderia terminar desembrulhado - E como esperar alguma coisa de alguém que não tinha entendido minha apatia em relação aos seus presentes? E cansada de ser minimamente educada ou condescendente eu simplismente tomei um pouco mais do meu suco derramando o resto do líquido sobre seu rosto estupefato.

Com certa raiva por minha audácia o rapaz de cabelos negros me deferiu um olhar de irritação e faz menção de tocar meu rosto e tirar minha máscara sendo interrompido por um segurança logo em seguida para o meu alívio. Tocando meu rosto coberto várias vezes optei por não voltar a sair do camarim mesmo que Candela dissesse que por hoje ele não poderia mais entrar, e com isso queria dizer que até poderia fazer com que impedissem sua entrada, mas que não ia porque ele consumia bebidas caras e era um dos sócios, valendo-lhe bem pouco se voltava a tentar invadir meu espaço ou não.

E não que eu realmente me importasse com ele ou com se iria ou não tentar fazer minha vida impossível, mas a certa maneira comecei a ficar muito mais alerta em relação a minha identidade, hoje era esse homem e amanhã poderia ser outro, porque enquanto homens acreditassem que eram os donos do mundo não havia parte que não estaria ameaçada de devastação.

Frustrada pela promessa quebrada de Valentina e pelo recente episódio decidi que tive o suficiente do meu sábado e recolhi minhas coisas, tirando a maquiagem do rosto, outra vez colocando uma roupa confortável e calçando em seguida os meus tênis, tendo em vista que já havia cumprido minha função a noite.

Perto da entrada, sou surpreendida pela presença de Candela novamente.

- Queria falar com você antes que fosse embora - Confessou apoiada na única saída discreta enquanto sustentava o cigarro com a outra mão.

- Acabou de falar - Tentei dar um passo em direção a saída, mas a mulher não deu a entender que se moveria.

- Se você for mais carinhosa com quem realmente interessa pode ganhar o mundo. Veja esse rapaz, o Sérgio, nunca vi alguém tão obstinado atrás de alguém como ele está de você. Dê a ele o que ele quer e consiga tudo o que você quer. Jóias, apartamento, cartões de crédito, tudo! Se você apenas se permitisse por alguns minutos saberia o quão fácil é manipular um homem para que te conceda o mundo - Todo o líquido consumido retorna a minha garganta amargamente e quase pensei que ia realmente ter um refluxo, mas me controlei antes de responder.

- Isso é uma ordem? - Perguntei para seu olhar inexpressivo enquanto soltava a maldita fumaça em minha direção.

- É uma sugestão, outra, na verdade. Mulheres são mais perigosas Camila. São inteligentes e não se deixam levar por um rostinho doce e uma boceta disponível. Aquela garota não te dará nada, pelo contrário, ainda vai te levar o pouco que tem - Neguei com a cabeça dando a entender que não me deixaria levar por boa parte das suas palavras, embora como ontem eu fosse, eventualmente trazê-las a tona em minha mente.

- Valentina não é assim - Afirmei mais para mim que para ela tirando seu corpo da entrada delicadamente com um empurrãozinho.

- Isso ela mesma poderia me dizer se aqui estivesse uma noite depois do tórrido encontro - Falou cedendo em seguida acompanhando como o veneno jogado se espalhava na ferida aberta dando de ombros em seguida.

Sem que a própria Valentina pudesse me dizer o contrário a dúvida ia crescendo cada vez mais dentro de mim sem que eu pudesse de alguma maneira evitar.

Irritada com tal situação apenas vou me encaminhando para fora daquele lugar me perguntando porque sempre voltava, mas entendendo o porque deveria..

Era necessário.

Para completar a belíssima noite que estava tendo pequenas gotículas de uma chuva forte começam a cair sem que eu pudesse encontrar um lugar próximo para me refugiar sem que eu alcançasse já completamente molhada.

- Droga! - Bradei em frustração preparando meus pés para cortar a pequena chuva que começava a me atingir. Entretanto, para minha má sorte, alguém fechou os dedos em meu braço e me parou a meio passo.

- Onde você pensa que vai?...

CamilaOnde histórias criam vida. Descubra agora