- Que bom que você topou vir. - Joaquim sorriu para Amanda.
- A, eu que agradeço o convite. - Amanda ajeitou o cabelo e sorriu timidamente para ele.
- O que vai querer pedir? - Perguntou Joaquim em frente a ela na mesa do restaurante. Ele pegou o cardápio. - Pode pedir qualquer coisa, é por minha conta.
- Ah, isso é permuta? - Amanda perguntou interessada e Joaquim tentou não demonstrar o quanto estava ofendido.
- Não. Eu estou pagando...
- Mas por que, se você pode ter de graça?
- Acontece que eu posso pagar.
- Querido, famosos não precisam pagar. Por isso são tão ricos. - Amanda abanou as mãos e riu despreocupada.
- Mandy, querida... Não sou exatamente famoso.
- Não, você só tem mais de um milhão de seguidores no twitter, um monte de gente que se mata pra ver seus vídeos novos. É lindo, gato, faz várias publis e...
- Tudo bem. - Joaquim a interrompeu.
O garçom chegou e eles fizeram o pedido. Na verdade, Joaquim detestava comida de restaurante assim. Ele curtia mais um Big Mc ou pedir pizza e ver filmes, mas isso não fazia o estilo de Amanda e ele queria agrada-la, queria interroga-la mais... Quem sabe ouvir ela cantar de novo. Dessa vez de olhos abertos.
- E o concurso?
- Que concurso? - Amanda perguntou despreocupada e chegou uma notificação no celular dela. - Ah, o concurso! Estou me preparando bastante...
- Sei... Continua fazendo os exercícios?
- E até mudei a minha alimentação. Tenho trabalhado muito o meu diagrama... Diafragma, quer dizer. - Ela disfarçou.
- Uau. Estou impressionado em como você está dedicada.
- Eu também... - Amanda murmurou.
- Pois então... Eu pensei em te colocar por último na apresentação.
- Ah, que incrível. O melhor sempre é por último, não é?
- Foi o que pensei. - Joaquim sorriu. - Vamos fechar com chave de ouro e eu sei que você vai fazer uma apresentação incrível.
- Assim espero... - Ela suspirou, dizendo mais pra si mesma que pra outra pessoa.
O garçom trouxe os pratos e eles iniciaram a refeição em silêncio. Amanda ficou desconfortável e Joaquim não sabia no que pensar pra continuar tocando a conversa. Ela mandou mensagens pra Caio pra ver se ele tinha uma ideia. Seu meio irmão que estava sentado duas cadeiras distantes, porém não tão longe, de modo que ele pudesse ouvir a conversa e mandar mensagens ajudando-a, disse pra ela perguntar a Joaquim sobre o pai.
- Como vão as coisas com o seu pau? - Amanda perguntou e depois se deu conta do que leu e ficou vermelha.
Joaquim chegou a cuspir o vinho e Caio bateu na sua testa e quase deixou o chapéu gigante que o ajudava no disfarce cair. Ele pediu desculpas a Amanda e falou que foi o corretor.
- Quer dizer, seu pai! - Amanda falou um pouco alto. - Seu P-A-I! Nossa... que constrangedor.
O loiro riu sem graça e coçou a nuca. Depois ele tentou levar a conversa numa boa.
- Bem... Eu acho. Mas não quero falar do meu pai. Não quero estragar essa noite.
- Ah, sim. - Amanda sorriu pra ele.
- Você já pensou o que vai fazer depois do Ensino Médio?
- Pensei em fazer moda...
- Mas e o concurso?
- Como assim?
- Você estava confiante que ganharia e quem ganha o concurso pode trabalhar na companhia de teatro do meu pai.
- Ah, sim... Quer dizer, eu sempre amei teatro. É meu sonho desde criança.
Caio quis esgana-la. Ela poderia ter inventado uma desculpa melhor e agora Joaquim iria querer saber mais disso e ela nem gosta de teatro. Caio lembra dela dormindo quando seu pai levou os dois pra ver o musical de O Rei Leão.
- Sério? Que tipo de peças você curte mais.
- Que eu curto? - Amanda olhou pro celular e ainda bem que Caio entendeu a deixa. - Bom, eu amo musicais principalmente. Embora eu assista de quase tudo. Você sabe... Eclética. - Ela gesticulou e deixou o garfo voar longe.
Pediu desculpas a moça na qual o garfo foi parar à mesa e um garçom lhe deu um novo.
- Opa! - Ela sorriu pra Joaquim.
- Acontece. - Ele deu de ombros e continuou a perguntar, estava interessado em ver onde aquilo iria dar. - Então você prefere musicais... Claro, você adora cantar.
- Sim. Adoro.
- Mas e a moda...
- Ah, foi uma coisa passageira. Bem, se não der certo eu vou estudar moda por que é algo que sempre passou pela minha cabeça... Bom, digo... Eu pensava em teatro e os figurinos me inspiravam.
- Já pensou, você montando seu próprio musical e fazendo seus próprios figurinos? - O galã sugeriu.
- Nossa. Pois é! Nunca tinha pensado nisso antes. - Ela gostou da ideia e ficou viajando em pensamentos, imaginando um dia estar fazendo seu grande show em um grande Teatro com um vestido lindíssimo desenhado por ela mesma quando Joaquim a fez voltar pra Terra.
- E qual é o seu musical preferido?
- O meu... Bem... Wicked, com certeza.
- Ah, meu pai me levou pra assistir na Broadway.
- Sério? Deve ter sido tão irado! Eu fui a Nova York no meu último aniversário e foi uma viagem incrível, também. Agora estou pensando ir à Paris. Sempre quis visitar a Cidade do Amor.
- Cidade Luz. - Joaquim a encarou enjoado. Ele não queria falar de viagens e sim de música. - Então... Como eu dizia, eu assisti Wicked na Broadway. Não foi como assistir Idina Menzel, mas a menina que está nessa temporada arrasou. E o cenário é tão lindo. Dá pra entender por que ganhou um Tony.
- Quem é Tony?
- Como assim? - Joaquim franziu o cenho.
- Quer dizer... É claro que eu sei que o Tony é o maior prêmio de teatro do mundo. - Ela falou como se fosse algo óbvio e ela tivesse acabado de recordar. - Eu adoro fazer essa piada para os meus amigos do teatro. Ei, quem é Tony? - Ela riu e Joaquim forçou uma risada, mas ainda intrigado.
- É... Eu estou muito animado pra ver as apostas do ano que vem. Mas sabe, apesar de ter amado ter visto Wicked, queria muito mesmo assistir Hamilton.
- O música do incrível Linn-Manuel Miranda? - Amanda disfarçava olhando o telefone. - Sinceramente, eu nunca pensei que fosse gostar de um musical sobre história americana, mas esse é realmente um musical muito bem feito. Os figurinos, as canções...
- As canções... - Joaquim suspirou. - Toda vez que ouço a trilha sonora eu simplesmente viajo e isso tem servido de muita inspiração pra mim.
- Não me diga? Eu sinto a mesma coisa quando escrevo. - Amanda estava determinada a impressiona-lo. Ela se sentia irritada por ver que ele sabia de tantas coisas e ela não, mesmo que achasse musicais chatos, não gostava de não entender o que ele dizia.
- Você escreve, também? - Ele ficou impressionado e Caio revirou os olhos e bufou.
- Claro! Você não viu o piano lá em casa?
- Ah, eu uso mais o meu violão. Ei, podíamos fazer música juntos qualquer dia desses.
- Devíamos mesmo. Seria incrível! Ai, já posso até imaginar o próximo hit...
- Oh! - Joaquim riu sem graça.
- Não, eu acho que faríamos uma ótima música juntos. Você sabe, temos química...
- Pois é... Eu adoro compor com as pessoas que gosto. Estou trabalhando em algumas musicas e com um projeto que... Deixa pra lá.
- O que? Não, pode me contar o que quiser. - Ela pôs sua mão em cima da dele.
- Bem, eu estou planejando voltar com a minha banda.
- Que máximo! - Amanda bateu palminhas.
- Pois é... Festus está trazendo um som irado e os meninos estão animados e eu... Bem, digamos que ando bastante inspirado. Mas não conta pra ninguém ainda. Meu pai vai surtar quando souber.
- Entendo o que quer dizer. Ás vezes é difícil agradar nossos pais. - E Amanda dizia a verdade dessa vez.
- Sua mãe não tem encarado bem você estar no concurso? - Perguntou Joaquim.
- Na verdade, ela está amando isso.
Joaquim não entendeu e ergueu uma sobrancelha. Amanda não queria falar sobre isso e desconversou antes que ele questionasse algo.
- Então Hamish...
- Hamilton. - Ele corrigiu.
- Isso! É o seu musical preferido? - Ela quis saber.
- Pra falar a verdade, não consegui definir um musical preferido. Não sou tão fã de musicais como você. Porém com certeza está na minha lista de musicais preferidos. E você já viu algum musical ao vivo?
- O Rei Leão.
- Mentira?
- A versão brasileira... - Ela olhou pro celular implorando ajuda, porque ela havia dormido na peça e não lembrava de nada. - Foi lindo. Meu número favorito foi o de Nala com Shadowlands e... A Beyoncé fez o filme, não é?
- Não gostei muito...
- Como assim? - Tanto Caio quanto Amanda grasnaram e assustaram um garçom que derrubou uma jarra de água no celular de Caio.
- Desculpa. Quer dizer, adoro a Beyoncé. Mas esse filme não foi como eu esperava.
- Ah, entendi o que quer dizer. Pensei que estivesse falando mal da Beyoncé. - Amanda colocou uma mão no peito como se ele tivesse confessado um assassinato.
- Eu estava.
Amanda o encarou e então Joaquim riu e disse que estava brincando. Ela riu, também e até bateu na mesa. Na verdade, Amanda riu até demais. Joaquim ficou sem graça. Enquanto isso, a duas mesas dali um garçom se desculpava com Caio que tentava ressuscitar seu telefone.
- Você sabia que o Elton John escreveu as músicas de O Rei Leão? - Joaquim perguntou.
- Claro que sabia. - Ela bufou e riu. Depois ela olhou pro celular esperando chegar informações que não vinham.
- Está tudo bem com você? - Joaquim notou e a olhou intrigado.
- Como assim?
- Que nem da outra vez, você não para de olhar o celular. - Em sua voz era possível ouvir a irritação, ele já estava cansado de Amanda parecer estar mais interessada nos seus seguidores no twitter que em ter uma conversa com ele.
- Ah, é a minha avó... Ela caiu e quebrou a bacia. - Foi o que Amanda conseguiu pensar. - E aí ela fica me mandando mensagens o tempo todo, me atualizando de tudo.
- Ah, que fofo.
- Pois é... Sabe como são os idosos e os celulares. - Ela revirou os olhos e sorriu.
- Sei... A minha avó é assim comigo, também. Me liga pelo menos quatro vezes por semana.
- Own, que lindo. - Ela olhava pro celular e nada.
Então quando olhou pra frente viu Caio se levantando e correndo pra direção do banheiro.
- Essa não.
- Essa não, o quê? - Joaquim quase olhou pra trás.
- Não, é minha avó! - Amanda chamou a atenção dele. - Ela... An... Ela precisa ir ao banheiro.
- Nossa, ela te conta tudo mesmo.
- E eu lembrei que eu precisava ir ao banheiro, também. Com licença. - Levantou bruscamente e foi em direção ao banheiro.
Ao chegar lá, ela viu Caio em frente ao banheiro masculino desesperado.
- O que aconteceu? - Perguntou.
- O meu celular morreu... O garçom idiota deixou cair água. - Ele explicou.
- Ah, você não consegue mandar mensagens mais?
- Que parte de "O meu celular morreu" você não entendeu?
- Mas e agora?
- Agora eu vou pra casa...
- Você não pode me deixar aqui sozinha com ele! Ele não para de fazer perguntas difíceis.
- Você que é burra demais pra entender!
- Eu não sou burra! Você é um idiota. Babaca... Quer saber? Dane-se! Vai embora. Eu não preciso de você.
- Ah, boa sorte! - Caio saiu e a deixou sozinha.
Amanda respirou fundo e tentou se acalmar. Ela não ia deixar que a situação fugisse de seu controle. Por um instante pensou se essa história já não tinha ido longe demais. Joaquim era um gato, mas valia o esforço? Ela gostava mais quando os assuntos eram sobre ela, sobre moda, reality shows... Só que como ela bem raciocinou: Essa história já tinha ido longe demais. Jamais deveria ter topado essa ideia da sua mãe. Porém, ela não seria humilhada revelando toda a verdade e tendo que lidar com todos a encarando como uma farsa.
- Calma Amanda, você consegue se dar bem nessa. - Ela disse a si mesma se olhando no espelho. - Você é uma estrela. Vai brilhar!
Então voltou para o seu lugar com um sorriso largo no rosto. Tomou um gole de seu refrigerante, pois diferente de Joaquim, ela ainda não podia beber bebida alcoólica. Só tinha dezessete anos.
- Então, sobre o que falávamos?
- Sobre musicais. - Respondeu Joaquim. - Você já assistiu My Fair Lady? Não sou muito fã dos filmes musicais de época, mas estava lendo outro dia um debate pra saber se esse filme e a obra Pygmalion não reforçam o machismo e como esse tipo de atitude eram vistas como normais antigamente. Eu adoro a Audrey Hepburn, porém só assisti Breakfast At Tiffany's uma vez. Ei, você gosta da Ariana Grande, né? Sabia que ela faz essa referência na música dela 7 Rings... Você está bem?
Amanda estava encarando-o confusa. Totalmente confusa. Ela não sabia o que dizer, o que pensar e surtou. Com medo de estragar tudo agiu sem filtrar bem seus pensamentos:
- Minha avó morreu. - Disse rapidamente.
- O que? - Joaquim se alarmou. - Ah, meu Deus. Como assim?
- Preciso ir embora. - Ela pegou suas coisas e saiu do lugar.
- Espera... Amanda? - Joaquim iria oferecer uma carona, mas Amanda já havia ido embora correndo e pegou o primeiro táxi que viu na rua.
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Um Diferente Conto Da Nova Cinderela
FanfictionCaio é um jovem negro e gay de dezessete anos que está tentando sobreviver ao último ano do ensino médio. Seu maior sonho é sair de casa e ficar longe da sua madrasta e dos irmãos insuportáveis pra correr atrás do seu objetivo de ser uma grande estr...
