- Futebol! - Gritou Joaquim assustando Caio.
- Será que dá pra parar de fazer isso. - Caio bateu no peito dele que ainda ria.
- Foi mal, adoro te pegar desprevenido. - Joaquim coçou a nuca sem graça e depois se recompôs. - Então?
- Então o quê?
- Futebol... É esse o seu talento?
- Acha que eu sei jogar bola? - Caio o encarou.
- Por que não?
Ponderando com a cabeça um pouco, Caio decidiu colocar a bola que estava segurando para Zack, enquanto ele se dava uns amassos em Diana, no chão e então chutou pro campo, mas a bola não foi muito longe. Depois ele encarou Joaquim rindo.
- É... Futebol não é a sua. - Joaquim riu e foi pegar a bola.
Então ele começou a fazer embaixadinhas, o que deixou Caio impressionado, mas Caio não foi o único que ficou assim. Zack parou a conversa com Diana e foi chegando mais perto, assim como os outros meninos. Todos encarando Joaquim fazer as embaixadinhas e quando ele terminou, chutou a bola que foi direto pro gol.
Os garotos urraram em comemoração e cumprimentaram Joaquim que ficou sem jeito, mas eles se afastaram e começaram a conversar com ele sobre a possibilidade dele fazer parte do time. Joaquim ficou feliz por fazer parte de alguma coisa na escola e não ser apenas bajulado por ser um influencer.
- É, você está caidinho por ele. - Diana chega perto de Caio que não parava de olhar Joaquim com um sorriso bobo.
- Não sei do que está falando. - Responde de forma irônica.
- Hum. - Diana riu e depois chamou ele pro canto. - Pedro está preocupado com você. Disse que você o anda evitando.
- Ah... - Caio gagueja, nervoso. - Eu te falei que a bruxa me deixou cheio de tarefas em casa, porque demitiu os empregados.
- A sua irmãzinha bem que poderia te ajudar.
- E eu não sei?
- Você precisa ter mais pulso firme, Caio. Se você continuar deixando que aquela mulher controle você, nunca terá a chance de ser feliz.
As palavras o deixaram viajando em pensamentos. Ele olhou de novo pra Joaquim que se afastava dos garotos e ia falar com Amanda, os dois riam e ela parecia bastante animada, mas Caio tentou ignora-los e se voltou para a amiga com um sorriso.
- Tenho que ir trabalhar. - Ele disse. - Mais tarde eu te ligo, tá bom? - Quando já estava um pouco longe ele se virou pra amiga e gritou: - Diga para o Pedro que eu estou bem e que vou visita-lo em breve!
- Você vai adorar o Mocaccino daqui. - Amanda puxava Joaquim pela mão.
Junto dos outros, eles se sentaram numa mesa perto das janelas na Elias.
- Esse lugar é irado! Por que só está me mostrando agora? - Perguntou a Amanda.
- Ah, antes tarde do que nunca, né gatinho? - Depois ela se virou para as amigas, Zack e os outros dois garotos do futebol. - Não se preocupem, é tudo por minha conta pessoal. Fiquem à vontade. Já volto!
Ela se levantou e foi em direção ao balcão, onde Adriano estava e falou com ele para servir bem seus amigos ou ela iria contar tudo pra mãe, depois caminhou para o banheiro com as amigas logo atrás.
Enquanto isso, Caio pendurava a decoração do Karaokê no alto em frente a janela e Joaquim nem o viu quando se levantou para ir ao banheiro, de modo que quando Caio desceu se esbarrou nele e por pouco não caiu.
- Opa! - Joaquim o segurou pela cintura.
- Ah, foi mal. - Caio riu sem graça.
Os dois se encararam por um tempo, até que alguém derrubou uma colher os despertando de um transe em que se colocaram por admirarem demais um ao outro. Sem jeito, eles se afastaram e Joaquim pegou um panfleto na mesa ao lado pra disfarçar.
- Então... Karaokê?
- É... Eu que vou apresentar.
- Então esse é o seu talento?
- Você não desiste, né?
- Não mesmo. - Joaquim riu e Caio o acompanhou na risada. - Mas então, já que você vai ser o apresentador, bem que podia me dar umas dicas para o Show de Talentos.
- Você vai se sair bem, já cantou na frente de uma multidão!
- Não é a mesma coisa... - Joaquim coçou a nuca e Caio achou esse gesto fofo.
- Bom, se quiser... Você pode vir ao Karaokê e a gente pode apresentar juntos, aí já vamos treinando.
- É, seria perfeito!
- Você vai vir, então?
- Vou adorar.
- Ah, que máximo! - Caio exclamou. - Quer dizer... É que se você dissesse nas suas redes sociais que viria... Ah, meu Deus. Não, esquece! Você não tem que fazer isso.
- Tudo bem, não me importo. - E Joaquim falava a verdade, ele não se importava em ajudar.
- Não. Você mesmo disse que odiava a bajulação. Deve pensar que só estou querendo ser seu amigo pra obter vantagem.
- Eu não estou.
- Não está?
- Não! Olha... - Ele pegou o celular e apertou o play nos stories. - Aí, galera? Vai rolar um Karaokê irado aqui na Elias' do Campus da Universidade do Rio. Se vocês estiverem sem planos pro fim de semana, já podem parar de queimar os neurônios pensando em algo, porque aqui é onde você deve estar. - Ele enviou o vídeo.
O tempo todo Caio tentou se afastar, com vergonha por aparecer no vídeo, mas Joaquim ficou seguindo-o com o celular, até que ele cedeu e sorriu pra câmera. Os dois caíram na gargalhada vendo o resultado da gravação e depois voltaram a viajar nos olhos um do outro, de novo.
- Obrigado de verdade. Vai ser incrível! - Caio comemorou. - Quer dizer... Eu vou adorar ouvir você cantar no sábado.
- Sábado... - Depois que raciocinou bem ele se alarmou. - Caramba! É... Eu não vou poder vir.
- Não? Mas...
- É que sábado é meu aniversário.
- Sério? An... Meus parabéns!
- Não, guarde seu parabéns pra sábado. Você vai pra minha festa, né?
- Sua festa?
- É... Eu convidei a maioria da escola e... Acho que não te convidei. - Joaquim coçou a cabeça sem graça e Caio riu
- É... Não convidou. Mas de qualquer forma não vai dar. Porque vou ter que trabalhar.
- Ah, não... Você não pode tirar um dia de folga?
- Eu até poderia, se minha chefe deixasse.
- Ué, você fica um pouco no Karaokê e depois dá uma passadinha lá. Vai ser a fantasia e vai ter um fonte de chocolate! Além disso, eu vou tocar com a minha banda, então... Você tem que ir!
- Não dá, Joaquim. - Caio morde os lábios. - Eu quero, mas...
Com esse relato, Joaquim foi até o balcão onde Adriano olhava o Tinder. Ele disfarçou quando viu um cliente chegar e tentando parecer confiante, Joaquim disse para ele:
- Ei, esse cara aqui é um bom funcionário, não é?
- Na verdade ele é o melhor funcionário daqui. - Adriano responde com sinceridade.
- Então, você não acha que ele merece uma folga?
- Joaquim... - Caio tentou repreende-lo, mas ele o ignorou.
- Tipo, eu sei que ele pode compensar o horário que ele perder folgando no sábado à noite, mas... Esse cara é um grande amigo e eu gostaria muito de que ele fosse na minha festa de aniversário nesse sábado. Prometo que se o senhor o liberar, eu posso compensar com stories ou algo do tipo e fazer as pessoas frequentarem mais esse lugar e...
- Opa! Eu acho que gostei desse cara. - Adriano apontou para Joaquim. - Por mim, não tem problema.
- Então ele pode folgar?
- Claro. - Disse Adriano.
Joaquim se virou para Caio com um sorriso triunfante. Balançando a cabeça sem acreditar, Caio o encarou e tentou não alargar muito o sorriso. Fingindo estar sério ele disse:
- Você não devia ter feito isso.
- Agora já fiz e você vai ter que ir à festa. Sem desculpas!
- Mas...
- Mas nada. Agora se me der licença, preciso ir ao banheiro. - E com isso Joaquim deixou a cena.
Sabrina que ouvia tudo se aproximou do amigo com um sorriso travesso e uma bandeja na outra mão.
- Ah, meu Deus! Migo, é esse o cara que você estava me falando? Tenho que admitir que ele é mais bonito que no Instagram.
- É... Ele é. - Caio suspirava olhando na direção onde Joaquim fora. - Tem algo a mais nele que mexe comigo.
- E você vai nessa festa, né?
- Vou. Quer dizer, eu não sei! Acho que eu não deveria ir.
- Você deveria sim. Quantas vezes você já saiu pra se divertir como um adolescente normal? - Foi Adriano quem disse.
- Pois é. Você vive com a cara enfiada nos livros, fazendo tarefas e trabalhando. Amigo, você tem que ir nessa festa! - Sabrina concordou.
- Eu quero ir, mas e o Karaokê? Não posso deixar vocês na mão.
- Não vai. Você já se esforçou ao máximo. A gente cuida do restante.
- É! Acha que eu não dou conta de controlar todo mundo aqui? - Adriano debochou.
- Eu sei que você dá conta.
- Então deixa com a gente!
- Vai dar tudo certo! - Sabrina pegou o pedido da mesa seis. - Você vai ver.
- Caio, pode me ajudar com a mesa nove? - Perguntou Cleyton.
- To indo. - Depois ele se virou para Adriano. - Você tem razão. Preciso viver. Já deixei muitas oportunidades passarem.
Ele estava se referindo ao concurso que ele não se inscreveu e deixou que Suzana o controlasse para que todos pensassem que sua voz era a de Amanda. Chega!, disse a si mesmo. Caio não poderia mais deixar que aquelas duas o controlassem. Ele iria nessa festa, se divertiria bastante e quando estivesse sozinho com Joaquim, poderia começar a cantar e revelar toda a farsa de Amanda e os dois se beijariam e viveriam felizes para...
- Caio! - Amanda deu um berro. - Estou a horas te chamando. Pare com esse olhar de peixe morto que está assustando a gente. Já não basta esse seu cabelo. - Ela riu e os outros a seguiram, com exceção de Joaquim que Caio não sabia, pois não estava olhando pra ele. - Ah, minha garganta. - Amanda tocou a própria garganta.
- Calma, amiga. - Disse Lola, uma de suas seguidoras. - Você tem que poupar sua voz para o concurso.
- Verdade. Jojo, pode pedir pra mim?
- Acho que você sobrevive se pedir por si mesma. - Joaquim disse com um sorriso debochado.
- Ui. - Zack provocou e Amanda o olhou feio.
Todos fizeram seus pedidos e Caio anotou de cada um. Perguntou se iam querer acrescentar mais um coisa.
- Não, é só isso por enquanto. - Amanda disse. Agora ande logo, porque não temos o seu tempo. - Disse abanando a mão em desdem pra Caio.
- Mas é claro, sinhá! - Caio fez um reverência a Amanda que revirou os olhos e Zack riu.
Quando Caio já tinha saído com o pedido, Joaquim se virou para a Amanda:
- Amanda, você deveria ser mais gentil com as pessoas.
- Mas eu sou gentil! - Ela fala na defensiva. - Mês passado eu dei todas as minhas roupas fora de moda pra caridade. Ah, meninas. A gente precisa ir às compras para escolher uma fantasia babadeira pra sábado à noite. - Depois se virou para o loiro. - Jojo, você devia ir com a gente. Podíamos usar fantasias combinando.
Caio entregou os pedidos à mesa de Amanda e seus amigos. Zack deu um soquinho na mão dele e Joaquim agradeceu. Caio acenou com a cabeça e Amanda grunhiu depois de tomar um gole de seu chá gelado.
- Isso está horrível. - Ela empurra o copo pra Caio. - Me traga outro chá agora mesmo!
- Amanda, eu não sou seu empregado. - Caio disse zangado. - Fale comigo direito, por favor?
- Eu não tenho que falar com você nem direito e nem esquerdo. O que é isso? Desde quando os funcionários desse lugar começaram a tratar os clientes dessa forma? - Ela riu para as amigas que não tinham certeza se deveriam acompanha-la na risada.
- Até onde eu sei, você nem está pagando. - Caio disse a encarando seriamente. - Agora bebe logo esse chá e para de me encher o saco.
- Como é que é?
- Amanda... - Joaquim começou a dizer e Amanda ergueu um dedo pedindo silêncio, sem deixar de encarar o meio irmão.
- Em primeiro lugar, eu não preciso pagar por nada aqui, minha mãe é dona desse estabelecimento. Em segundo lugar, você devia prestar atenção em como fala comigo, se não quiser ter problemas.
- Que problemas, Amanda? - Caio vociferou. - Você vai fazer o quê? Choramingar pra mamãezinha pedindo pra ela me demitir? Vai em frente. Esse lugar é tão meu quanto dela, você sabe disso. Já disse pra engolir logo esse chá e dar o fora daqui. Antes que eu diga pra ela que você está importunando meu trabalho de novo.
- Você vai se arrepender de falar comigo desse jeito! - Ela gritou e depois tocou a própria garganta de novo.
- Amiga, não grita! - Lola a acariciou. - Não precisa se exaltar.
- Tem razão, Lo. - Ela disse à amiga e depois encarou Caio com desgosto. - Não vale a pena prejudicar a minha bela voz com esse garçonzinho de quinta categoria que não sabe nem pentear o próprio cabelo.
Agora ela foi longe demais. Caio resolveu que não iria deixar barato aquele desaforo. Ele estava cansado da Amanda, da mãe dela e achava que Joaquim estava rindo dele assim como os outros, então resolveu dar o troco.
- Por que você não canta pra gente? - Ele pediu.
- O quê?
- Você me ouviu, Amanda. Mostra pra gente a sua bela voz. Nos agracie.
- Não tenho que fazer nada que você quer.
- É, Mandy. Mostra pra ele como você canta bem. - Lola disse e isso fez com que todos a encarassem com expectativa.
- Ah... Eu... - Ela ficou muito sem graça e com medo. Tentou controlar a respiração e escondeu as mãos soando. - Não posso gente. Eu realmente preciso poupar a minha voz, a minha professora...
- Ah, eu tenho certeza que a sua professora não iria brigar. É só uma palinha. - Caio provocou. - Vai... Mandy. Canta pra gente.
- É. Qual o problema? É só uma palinha. - Joaquim a encarou.
De repente Amanda se viu num beco sem saída. Ela realmente estava muito nervosa e começou a tremer. Caio sabia que quando ela tremia daquele jeito, encarando o nada é porque ia começar a chorar. Era o que fazia quando era criança e as coisas aparentemente não mudaram muito mesmo depois de grande. Caio se perguntou se monstros tem coração. Não aguentava mais os caprichos da meia irmã e ela andava explorando-o assim como a mãe, ela merecia ser desmascarada. Só que Caio era mais do que isso. Ele se apiedou de Amanda e resolveu que não iria ser tão cruel quanto ela.
- Tem razão. - Ele disse. - Esqueci como sua professora é chata, Amanda. É melhor poupar sua voz. Amanhã te ajudo a gravar um vídeo pra todo mundo pro seu IGTV. - Ele disse e depois se virou voltando pro balcão.
Amanda parecia um pouco aliviada, mas a mesa ficou silenciosa. Joaquim recebeu uma notificação no celular e ele tinha um encontro com o pai. Eles iriam entrevistar alguém pra ser seu assistente. Ele não queria ir, mas precisava. Por isso, pediu desculpas à todo mundo e se levantou da mesa. Zack também tinha que sair pra se encontrar com Diana e os amigos do futebol o acompanharam, deixando Amanda só com as duas amigas.
Antes de ir embora, Joaquim tocou as costas de Caio que atendia a mesa seis.
- Ei, não esquece de sábado. - Piscou e depois foi embora.
Caio sorriu e tentou se concentrar no trabalho, enquanto Amanda encarava a cena.
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Um Diferente Conto Da Nova Cinderela
FanfictionCaio é um jovem negro e gay de dezessete anos que está tentando sobreviver ao último ano do ensino médio. Seu maior sonho é sair de casa e ficar longe da sua madrasta e dos irmãos insuportáveis pra correr atrás do seu objetivo de ser uma grande estr...
