Quinze

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Assim que viu Caio entrar no teatro, o sorriso de Joaquim se desfez. Ele estava animado conversando com os participantes e ouvindo a história de como Eloá do segundo ano sonhava em ser uma grande atriz e ela falava do monólogo que iria apresentar.
- Que incrível, Eloá! E você vai conseguir. - Ele se virou para todo mundo. - Sabe, cantar pra mim sempre foi mais que um sonho. Cantar é o que sou.
O coração de Caio disparou ao ouvir o que Joaquim tinha acabado de dizer. Joaquim olhou de relance para ele e depois se concentrou em continuar falando com todo mundo:
- Acredite ou não, eu encontrei muitas barreiras que quase me impediram de continuar perseverando pelos meus objetivos. Muitos me veem como um garoto fútil que fez sucessinho na internet e não passa disso. - Ele encarou Caio. - Mais um influencer bobo. - Depois voltou os olhos para os participantes. - Só que eu encontrei na internet uma chance de mostrar ao mundo a minha voz. Mas não, meu conselho não é para que criem um canal no youtube ou algo assim. Quer dizer, até que seria uma boa ideia... - Todos riram e Joaquim sorriu de novo. - Meu conselho é pra que encontrem dentro de si a força de vontade de perseverar pelo o que acreditam. Se olharem por um outro angulo, vão encontrar uma maneira de conseguirem aquilo que querem. Essa é uma grande chance para vocês. Sonhadores de verdade. E se querem se destacar, mesmo que não vençam, só precisam confiar na sua própria voz e não terem medo de usa-la.
Todos aplaudiram, Eloá estava emocionada. Caio, também. Joaquim pediu pra que todos se acalmassem e subissem ao palco para irem se alongando que logo leria a ordem das apresentações e os ajudariam no que eles iriam fazer. Ele foi até Caio enquanto os outros se alongavam e forçou um sorriso:
- Caçador de talentos? É esse o seu talento?
- Não. - Caio riu. - Mas temos ótimos talentos aqui hoje.
- É... Estou orgulhoso do grupo que montamos. - Joaquim olhou para a professora de Teatro que estava encarregada de cuidar do pessoal do Show de Talentos e ela sorriu para ele.
- É tenho certeza de que fez a escolha certa.
- Não nos vimos muito desde antes da minha festa. Você está bem?
- Estou... Só ando muito ocupado com o trabalho.
- E quando é a próxima noite de Karaokê? Acho que dessa vez não tenho uma festa de aniversário pra me impedir de ir lá.
- An, vamos fazer uma próxima no início do mês que vem. Adoraríamos ter a honra de recebe-lo lá, senhor Joaquim Manfrenatti. - Caio debochou.
- É só falar com a minha assistente e verei se tenho o dia livre. - Joaquim falou num tom cortês e depois o acompanhou na risada. - Espero que esteja mesmo bem.
- Eu estou. E você? Tem estado muito ocupado postando stories?
- Está me stalkeando, é?
- Quem, eu? Imagina! Nem tenho tempo pra pensar em você.
- Sei... Você está só vendo tudo o que posto toda hora. Admita, você é meu fã. - Joaquim se aproximou dele.
- Nem se porcos voassem! - Caio riu e os olhos deles se encontraram.
Joaquim sentiu seu coração bater forte e pensou na menina da sua festa. A voz, o modo de falar... Aqueles olhos. Será? Mas logo a raiva veio quando ele se deu conta de que Amanda ainda não tinha chego para o ensaio.
- Cadê a sua irmã? Ela está atrasada. - Perguntou com a cara amarrada.
- Ah, quanto a isso... - Caio ficou nervoso e tentou não gaguejar. - Eu vim aqui para te avisar que ela não vai poder vir. Ela... Ela passou mal.
- Ela está bem?
- Ela vai ficar. Só teve uma leve dor de barriga e foi correndo pra casa.
- Nossa, que saco isso! - Joaquim estava se controlando pra não gritar na cara de Caio: Mentira! - Bom, espero que ela se recupere logo. Ainda mais que temos um encontro amanhã... - Ele suspirou e deixou seu olhar viajar. - Queria tanto ouvi-la cantar.
Caio pensou em cantar pra ele e dizer: "A voz é minha, eu era a garota na sua festa. Eu estou apaixonado por você..." E viveram felizes para sempre!, pensou. Mas não era possível. Agora ele acha que Joaquim estava enganado em sua música. Não se pode tudo.
- Sinto muito...
- Eu também. - Joaquim o encarou sério.
- Eu tenho que ir... Tenho que estudar para a prova.
Joaquim pegou na mão dele quando Caio começou a se afastar. Como ele não queria sentir raiva de Caio por estar compactuando com aquela mentira. Ele gostava tanto de Caio e por um momento pensou se havia uma conexão entre ele e a garota da sua festa.
- Vê se não some. - Pediu.
Caio apenas sorriu e foi embora, se controlando para não chorar.
Joaquim respirou fundo e tirou o celular do bolso que havia vibrado. Era Paloma lembrando a ele de fazer stories dos ensaios. Joaquim suspirou e se voltou para o palco pra ver o que a professora Renata estava aprontando com os alunos.

- E aí? - Amanda desceu as escadas correndo assim que Caio chegou.
- Deu tudo certo. Ele acha que você está com dor de barriga e veio pra casa. - Caio assegurou.
- O que? Você ficou maluco? - Amanda o encarou revoltada.
- Calma, Amanda! Essa foi a única coisa que eu consegui pensar pra que ele não ficasse desconfiado. Você faltar o ensaio do nada, isso poderia até prejudicar você no dia do Show de Talentos.
- Mas não precisava me humilhar, né?
- Foi preciso pensar em alguma coisa pra justificar sua falta. Me desculpe se foi isso que passou pela minha cabeça.
- Ah, é só o que me faltava! O Joaquim vai pensar que sou uma cagona e... Ah, como vou olhar pra ele amanhã?
- Amanhã é sábado, não tem aula. - Caio lembrou.
- Mas amanhã temos um encontro...
Isso fez o coração de Caio doer, ele sentiu um frio na barriga, mas tentou se manter calmo.
- Ah, então vocês ainda estão ficando.
- É claro, que estamos. Ele está caidinho por mim e eu... Bem, eu gosto dele. - Amanda não parecia muito certa do que estava dizendo. - Ainda estou revoltada com você, mas pelo menos conseguimos resolver esse problema. Vou dizer para a mamãe que você ajudou e talvez ela pegue mais leve com você daqui em diante...
- Era tudo o que eu queria. - Caio murmurou assim que a meia irmã saiu.
Ele caminhou até a cozinha e abriu a geladeira. Tirou de lá de dentro um pote de sorvete e quando a fechou tomou um susto com Dudu na cozinha, encarando-o. Caio suspirou e colocou o sorvete no balcão. Tirou duas colheres da gaveta de talheres e ofereceu uma ao irmão menor, que aceitou sem dizer nada. Os dois se sentaram no balcão o tomaram sorvete juntos. Arnaldo apareceu e ficou olhando para ambas com olhinhos pidão, querendo um pouco do sorvete, mas os dois disseram juntos que não e Arnaldo saiu da cozinha. Caio riu disso.
- Você está se saindo bem adestrando ele, ein! - Caio comentou e Dudu apenas deu de ombros. - Se continuar fazendo tudo direitinho, vai ganhar seus fones logo, logo.
- Já ganhei. Minha mãe me deu depois que eu insisti tanto.
- Achei que ela desistiria da ideia depois que você me ajudou.
- Eu não ajudei você! - Dudu falou com a boca cheia de sorvete.
- Mas você me ajudou, sim.
- Claro que não! Eu detesto você! Eu só queria muito aqueles fones.
Entretanto, Caio sabia que isso não era verdade. Por alguma razão, Caio sentia que lá no fundo, o seu irmãozinho caçula que tanto o inferniza, gosta dele de alguma forma. Ele olhou para o pequeno pestinha, que estava com o rosto todo lambuzado e pegou um paninho para limpa-lo. Dudu não protestou, mas quando Caio parou, ele pegou todo o pote de sorvete e foi embora pro seu quarto.

Um Diferente Conto Da Nova CinderelaOnde histórias criam vida. Descubra agora