Dezessete

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Joaquim não sabia o que pensar. Ele andava de um lado para o outro em seu quarto, tentando ignorar Paloma. Ele havia gritado com ela pra deixa-lo em paz, quando ela o chamou pra dar uma olhada nos recebidos e confirmar se ele estaria no evento de sábado para arrecadar fundos para um abrigo de animais. Mas Joaquim só queria ficar sozinho. Péssima escolha! Sozinho, ali no quarto, sua cabeça não parava de latejar por conta de muitos pensamentos que o rodeavam. Ele até se sentiu mal por ter tratado Paloma daquele jeito, mas ele não estava com cabeça para aquilo neste momento. Ele não estava com cabeça pra nada.
Ele pôde ouvir a voz. Era a Amanda? Por que ela pediu pra que ele se virasse? No instante em que a ouviu cantar, ele teve que resistir o impulso de se virar. Será que ela estava ali? Amanda estaria forçando-a a participar de toda essa mentira? Ou ela fez por vontade própria? Ou era mesmo Amanda cantando?
Mas a menina não tinha a aparência de Amanda, então como tinha a mesma voz que ela? Ou será que ele ficou tão encantado pelo momento e ao mesmo tempo ele gostava demais da voz de Amanda que acabou unindo as duas coisas e se confundido? O som da festa estava alto, ele lembra de mal conseguir entender o que a menina dizia. Porém, se as duas fossem duas pessoas diferentes, porque parecia que tinha muito mais nessa história que ele não conseguia entender? Como Amanda sempre evitava cantar e a menina tinha sumido do nada...
Houve um tempo em que ele pensou estar atraído por Amanda. Ele até podia ignorar que ela era uma chata mimada e egocêntrica que só pensava em si mesma e não sabia ter uma conversa normal sem ter que girar em torno dela como se ele fosse a Terra e ela o Sol. A voz dela realmente era encantadora e toda vez que via o vídeo como fazia agora, ele sentia seu coração bater forte, como se sua alma estivesse a vida inteira buscando por aquela voz, sendo chamado por ela. Mas e a outra menina?
Ela era real? Eles realmente dançaram juntos? Eles realmente tiveram aquele momento ou foi só a mente de Joaquim criando tudo aquilo durante um momento de fragilidade emocional? Ela parecia real, ele ainda podia sentir seu cheiro... Ainda podia sentir seu toque. Ainda sentia que era capaz de qualquer coisa como ela havia dito. E quem ela era?
E ainda tinha o Caio... Há uns dias, antes de sua festa, ele se perguntou como seria se um dia chamasse Caio pra sair... Caio era bonito, inteligente e divertido e Joaquim queria conhece-lo melhor, porém o cara sempre foi tão misterioso, tão distante... Mesmo assim, Joaquim insistia porque pra ele era claro que gostava de Caio. Só que agora seus sentimentos estavam confusos... Sua mente estava confusa.
Joaquim faltou a escola dois dias alegando estar doente e tentou ignorar Amanda. Como ele gostaria que sua mãe estivesse ali ou que a sua única preocupação fosse fazer seu pai nota-lo. Até ele notar...
- Você vai nesse evento e ponto! - Disse Humberto no jantar.
- Por que eu simplesmente não posso fazer o que quero?
- Você é um adolescente, não sabe o que quer ainda. Vive com essa ideia de ser músico como esses idiotas hippies que querem vender sua arte na praia. - O pai soltou uma pequena risada e bebeu um gole do vinho.
- Pois é! Esse evento só alimenta ainda mais a ideia de que posso ser um músico de sucesso. Achei que você não queria que eu fosse um produto.
- Você insistiu nessa palhaçada publicando aqueles vídeos. Queria atenção e ganhou... Agora dance conforme a música. Nesse evento estarão empresários importantes. Puxe o saco deles, ouça seus conselhos. Aprenda com os grandes se quiser ser grande. Você vai herdar o meu legado, filho... Faça por onde.
- Incrível. - Joaquim debochou.
- Não seja insolente, moleque!
- Pai, eu já tenho me esforçado demais pra aprender como você acha que devo, só quero um final de semana de folga de tudo isso. Quero visitar meus amigos e... Isso pode movimentar meu Instagram. Posso fazer uma live na praia tocando com eles...
- Você não vai pra Cabo Frio nesse fim de semana e acabou! Chega, Joaquim! Sem discussão... Que saco!
- Nunca... Nunca posso fazer o que quero!
- Quando você estiver debaixo do seu teto, você cria suas próprias regras e vive de acordo com o que quer. Debaixo do meu teto, você vai fazer o que eu quero.
- Beleza. Então vou simplesmente sair de casa e alugar um apartamento. - O garoto deu de ombros.
- Com que dinheiro? - O pai riu. - O seu dinheiro é o meu dinheiro. E eu sou dono de metade da cidade. Pra qualquer lugar que vá, provavelmente ainda estará debaixo do meu teto.
Joaquim piscou. Não podia acreditar que estava tendo aquela conversa com o pai. Aquele assunto já estava ridículo.
- E pode indo pra escola amanhã. Não me interessa que está doente. Pago os melhores médicos se for preciso pra te dar um elixir que te faça ficar esperto e prestar atenção na aula. Aceito você querer viver tocando violão o dia todo, mas não aceitarei você negligenciar seus estudos.
- Eu estava passando mal mesmo.
- Tanto faz. - Humberto conhecia o filho, sabia quando ele estava mentindo, mas desdenhou. - Você vai amanhã e ponto.
- Vai amanhã e ponto. - Joaquim murmurou imitando-o. Depois ele se tocou que o pai poderia ter prestado atenção e o encarou nervoso.
- Você já está passando dos limites...
- Eu só quero ser um adolescente normal! - Joaquim tentou não gritar... Tentou.
- Você já fez dezoito anos. Cresceu e precisa por os pés no chão. A vida não é um conto de fadas ou umndesses quadrinhos idiota que você lê. Um dis eu não estarei mais aqui e você precisa tocar a sua vida e eu não vou admitir ir pra um túmulo sabendo que está tomando café numa padaria de esquina qualquer e se preparando pra pegar seu violão e cantar mais uma música fadonha que não conseguiu vender pra uma gravadora, para um bando de gente ignorante nos fundos de um bistrô qualquer.
- Uau... Você é tão sábio, não é?
- Sou mais velho e mais experiente que você.
- Não significa que esteja certo o tempo todo! - Joaquim se levantou sem medo de encarar o pai. - Eu entendo as suas boas intenções, de querer que eu tenha um futuro e tudo mais. Só que é a minha vida. Você não pode decidir por mim. Nem tudo tem que ser sobre você!
- Você não tem o direito de saber o que quer e não levante a voz pra mim! Ainda sou o seu pai e... - Humberto levantou a mão. Havia amargura em sua voz, ele estava irritado demais. Ele respirou fundo e andou de um lado pro outro na sala de jantar e depois se virou para o filho. - Não me interessa o que você acha sobre como é ter uma vida de verdade, porque no final você não sabe de nada. É uma criança ainda... Tem razão, não cresceu o suficiente.
- Você nunca me escuta!
- Ah, não?
- Não... Você não me vê! Você não entende como você tem sido um babaca durante todo esse tempo desde que a minha mãe morreu. Sei que está sofrendo, mas precisa descontar em mim sendo um escroto o tempo todo? Você se afasta de mim e mal fala comigo. Não me apoia nos meus sonhos... Nem sei se gosta de mim...
- Não diga besteira!
- É a verdade! - Joaquim gritou. - Olha pra mim, pai... Olha pra mim e me vê de verdade!
Porém, Humberto não o encarava. O pai de Joaquim ficou bastante nervoso e ele ficou ali parado olhando para o pai por um tempo. Depois se cansou e foi para o quarto.

Suzana andava com a pulga atrás da orelha. Ela estava achando muito estranha a proximidade de Caio e Amanda, que andavam cochichando pelos cantos da casa. Acontece que ambos estavam preocupados com o sumiço repentino de Joaquim e achavam que tinha ligação com o encontro no Campus. Caio estava ainda mais preocupado, com medo de ter acontecido algo dentro de sua casa, pois ele sabia que o loiro não levava uma boa relação com o pai.
Na sexta, ele acordou pra ir à escola e estranhou que o despertador de seu celular tocou normalmente e Dudu andava muito quieto ultimamente. Na noite anterior, enquanto levava Arnaldo pra passear com ele, Caio o perguntou se ele estava bem, porque estava muito calado e com uma cara estranha. Dudu apenas respondeu que estava cansado e Caio deu uma risada seca.
- Só se for cansado de importunar todo mundo, isso sim. - Havia dito.
Dudu não rebateu e Caio achou isso estranho, mas ignorou.
Se levantou, escovou os dentes, tomou banho e foi pra escola comendo uma maçã, tentando engolir também o desastre que a Elias' estava se tornando. Suzana havia fechado mais uma loja e agora Caio estava preocupado com o que aconteceria com todas as outras lojas. Segundo Adriano, a loja de Ipanema está com os dias contados desde o problema no encanamento. O menino estava preocupado com o futuro do sonho de seu pai. Se ele não podia cantar, ele poderia pelo menos administrar o local, pelo amado pai e queria manter seu legado. Assim que deixasse a escola, ele iria conversar com o pessoal sobre novos modos de aumentar as vendas. A Elias' do Campus não iria fechar nem que a vaca tossisse. Esse sonho, ao menos, tinha que ser salvo.
- Foi mal. - Alguém disse quando esbarrou nele na entrada da escola.
- Ah, oi... - Caio sorriu ao notar que era Joaquim.
- Oi... - Joaquim sorriu, mas não estava muito animado. - Desculpa, estava distraído.
- Eu também... Quer dizer, estou com os pensamentos fora de controle hoje.
- Eu que o diga. - Joaquim murmurou e os dois andaram juntos até o prédio. Ele tentou quebrar o clima. - Pelo menos dessa vez não estamos atrasados, não é?
Isso animou Caio de verdade, a ponto dele rir.
- É... Verdade. - Ele olhou para o Joaquim.
Quando Joaquim olhou pra ele, seus olhos se encontraram e um arrepio subiu pelas costas do loirinho. Ele começou a encarar Caio de uma maneira estranha, que ficou intrigado. Uma ideia havia passado por sua cabeça.
- Caio?
- Sim? - Disse um Caio intrigado.
- Pode cantar pra mim? - Joaquim pediu.
Caio já achava que Joaquim andava estranho e provavelmente desconfiado de alguma coisa. Ele não ficou exatamente surpreso com o pedido de Joaquim, mas não esperava por aquilo... Entrou em pânico e apertou a barriga com a única ideia que veio a sua mente:
- Estou com dor de barriga! - E saiu correndo pro banheiro, onde ficou o primeiro tempo inteiro.

Um Diferente Conto Da Nova CinderelaOnde histórias criam vida. Descubra agora