- Amigo, você foi atropelado no caminho pra cá? - Diana perguntou a Caio assim que o viu no intervalo.
A coisa que mais chateia os dois é não serem da mesma sala, o que significa que só dá pra eles se verem na hora do almoço.
- Sim. Um caminhão chamado minha doce família. - Respondeu Caio em tom irônico. Os dois estavam perto do banheiro. - Trouxe o que te pedi?
- Aqui está o creme. Quer que eu tente dar um jeito na sua roupa, também?
- Não, estou de boa. - Caio entrou no banheiro pra tentar ajeitar o cabelo.
A professora Marta de Geografia havia lhe arranjado um band-aid, porém a calça ainda estava manchada de sangue. Ele podia ver as pessoas olhando pra ele e cochichando, então ele fez o que sabia fazer de melhor: Ignorar. Ele se analisou no espelho e suspirou. Seu cabelo já não estava tão rebelde, mas ainda não estava tão legal.
- Vamos comer o quê? - Perguntou ao sair do banheiro.
- Que tal cupcakes? Eu que não vou comer a gororoba dessa escola. - Diana andava ao seu lado até a cantina no grande pátio do colégio.
- Eu já como cupcakes de graça no Café. Estou a fim de uma esfirra, que tal?
- Pode ser...
- Ah, esqueci! - Caio bateu em sua testa. - Tenho que pegar um livro na biblioteca... Pra aula de redação.
- A sua professora é a Elisa, também, né? Pois é, ela passou isso pra gente também. Chata. - Diana revirou os olhos.
- Ela só está sendo... Sabe...? Professora. - Caio deu de ombros.
- Haha!
- Okay. Vai comprando as esifrras enquanto vou lá na biblioteca e depois a gente se encontra no campinho, tá?
- Tá bom.
Ao chegar na biblioteca, Caio cumprimentou Dona Fátima, a bibliotecária que o indicou a seção de poesias e Caio seguiu pelo longo corredor até uma parte meio afastada onde alguns alunos se pegam. Ao chegar no corredor, ele passou a mão pelos grandes textos e achou Carlos Drummond, mas achou que seria clichê demais usar um poema do maior poeta do país como inspiração. Ele pegou um livro interessante de poetas LGBT+ em sua mão e ficou lendo a contracapa, quando ouviu uma voz conhecida atrás de si:
- Poeta! - Joaquim falou como se gritasse "eureca" e Caio se virou encarando-o.
- Como?
- Você é um poeta. É esse o seu talento, né?
Caio riu ao se dar conta do que ele estava falando.
- Não. - Ele balançou a cabeça ainda rindo.
- Ah, qual é?
- Gosto de poesias, mas não é por isso que estou aqui. Estou aqui porque tenho um trabalho pra fazer.
- Ah, eu também. - Joaquim coçou a cabeça meio sem graça e tentou descontrair. - Não tenho cara de quem costuma ser estudioso, né?
- É, você tem mesmo cara de bad boy. Deve ser por isso que não gosto de você.
- Então você não gosta mesmo de mim?
- Não. - Caio falou tentando conter um riso.
- E o que eu devo fazer pra que você passe a gostar de mim?
- Não é sua culpa. - Caio colocou uma mão no peito interpretando. - O meu pai me ensinou a não confiar em caras como você.
- Ei, eu sou do bem. Me apresenta o seu pai e aposto que ele vai mudar de ideia.
- Não dá. - Caio disse. - Ele morreu.
Joaquim começou a rir pensando que Caio estava brincando, quando o viu calado, ele percebeu que não era brincadeira e ficou vermelho como um tomate.
- Foi mal. - Ele coçou a cabeça de novo e depois passou a mão no rosto. - Eu sou um imbecil.
- Não... Tudo bem. Você só não sabia. - Caio se encostou na estante.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, Joaquim já não sabia o que dizer depois desse furo e estava com vergonha demais pra falar mais alguma coisa. Caio foi sincero quando disse que estava tudo bem, porém estava constrangido e não sabia como levar a conversa, mas Joaquim não desistiu de manter um clima mais agradável.
- A minha mãe faleceu, também. - Ele disse pra tentar amenizar e sem perceber, começou a desabafar enquanto encarava o nada. - Foi a pouco tempo... Ela tinha câncer de mama.
- Eu sinto muito.
- Tudo bem. Estamos fazendo o possível pra superar.
- Você e seu pai? - Caio advinhou.
- Eu tenho me conectado a música pra amenizar a saudade. Já o meu pai... - Joaquim deu um suspiro longo. - Acho que meu pai se mantém ocupado demais com o trabalho como uma forma de ignorar a dor e a saudade.
- Entendo o que quer dizer. - Caio comentou, pensando no próprio pai.
Eduardo ainda era o amigão de Caio, o conselheiro, o "parceiro no crime", um pai amoroso e dedicado, porém ele estava focado em dar um incrível futuro ao filho que se dedicou demais ao trabalho, deixando Caio de lado.
- Você disse que a música te conecta a ela. Ela era musicista, também? - Caio quis saber mais.
- Ela adorava música! Tocava piano.
- Que lindo! Já escreveu uma música pra ela? - Caio perguntou de curiosidade.
- Nunca... Quer dizer, eu já pensei em escrever, só nunca escrevi de fato.
- Por quê?
- Não me acho tão bom em compor. Sei lá... Se for algo pra ela não quero que saia uma coisa ruim, entende?
- Sei... - Caio assentiu com a cabeça pensativo. - Mas, talvez... Você só devesse escrever. Entende? Começa a escrever e deixa as palavras fluirem e o sentimento tomar conta da caneta. Se ficar ruim, ficou. Mas pelo menos você tentou.
Então os olhos dos dois se encontraram e novamente seus corações bateram forte e devagar ao mesmo tempo. Um arrepio subiu pelas costas de Joaquim e Caio sentiu borboletas em seu estômago. Eles dividiram um momento, mesmo que não entendessem este momento, eles estavam apaixonados e esse era um sentimento incrível.
- Com licença... - Disse uma garota e os dois se distraíram do olhar um do outro. - Aqui é a sessão de poesias?
- Sim. - Joaquim disse e então começou a conversar com a menina, que era de sua sala.
Depois ele percebeu que Caio já tinha saído, ficou chateado, pois se dependesse dele, olharia aqueles olhos castanhos o dia inteiro sem cansar.
Caio apareceu no campinho da escola, aonde os garotos do futebol treinavam direto. Ele avistou sua amiga num canto da quadra mexendo no celular. Contraiu um sorriso ao perceber que Zack, namorado de Diana, a olhava com o cenho franzido. Zack era um dos inúmeros caras heteros chatos e imaturos que Caio e Diana passavam o dia inteiro falando mal, porém um dia numa festa, Diana deixou que Zack dançasse perto dela, até que começaram a dançar juntos e depois se deram conta de que estavam se beijando. Eles não se gostavam antes disso, mas deixaram a coisa fluir e está fluindo faz três meses.
- Zack está com o cenho franzido de novo. - Caio disse chegando perto dela.
- Ah, esse cara! - Ela revirou os olhos. Segurava o pacotinho com as esfirras que Caio pegou de sua mão pra analisar dentro. - Agora está de graça porque eu fico muito no celular. Dá pra acreditar?
- Mas você fica. - Caio falava de boca cheia e a encarando.
- E daí? Qual o problema de mexer demais no celular? Gosto de estar atenta as minhas reses sociais, ora!
Agora Caio quem revirava os olhos. Ele decidiu ignorar o drama de sua amiga e lhe contar sobre a biblioteca e ter conversado com Joaquim.
- Ah, esse cara é um pedaço de mal caminho. - Guardou o celular no bolso e pegou a outra esfirra de dentro da embalagem e antes de dar uma mordida disse: - Ele está na minha sala de aula e vou te dizer, é difícil se concentrar em Bhaskara com o perfurme dele exalando por toda a sala.
- Você é uma tosca! - Caio ria.
- Ah, vai dizer que você não o acha gato? Sei que acha ele meio fútil, mas ele é mega inteligente. E apesar da galera ficar o dia todo pegando no pé dele pra tirar uma selfie ou fazer um story, ele está aqui pra estudar.
- Eu sei... Ele ficou lá conversando com a Samira sobre o trabalho da Elisa.
- É, ele é tudo de bom. Inteligente, fofo, talentoso...
- Seu namorado está logo ali.
- Ele também é tudo de bom. Um idiota, mas um idiota tudo de bom. - Diana riu e Caio, também.
Então alguém gritou "cuidado" e quando olharam para o lado, os dois viram uma bola de futebol vindo em sua direção. Diana jogou a embalagem no chão e então deu um chute na bola que foi parar no gol. Algumas meninas na arquibancada gritaram e bateram palma e os garotos ficaram embasbacados. Zack que se aproximava pra pegar a bola parou e a encarou.
- Ela chuta e marca, diferente de você. - Diana disse.
Zack deu um sorriso travesso e foi até ela e a beijou. As meninas gritaram de novo e os garotos começaram a zombar deles. Caio tentou não ficar constrangido, quando o treinador apitou e Zack voltou ao jogo.
Caio e Diana ficaram ali rindo quando Diana apontou para a blusa dele.
- Você se sujou de catchup.
- Ah, não! - Caio se olhou. - Deve ter sido quando você me empurrou.
- Foi mal...
- Não, tudo bem. Esse tipo de coisa sempre acontece mesmo.
- Ei. - Amanda chamou e Caio se virou para ela.
Ela estava acompanhada de suas amigas exibidas e ao seu lado de braços dados com ela, estava Joaquim. Caio tentou não demonstrar estar chateado com a cena. É claro que ele ficaria com ela, pensou. Afinal, todo garoto fica. Quem consegue resistir ao charme e a beleza de Amanda Alencar?
- Costumização em uniforme é proibido pelas normas da escola. - Ela disse. - Se bem que isso combina com você.
As amigas riram. Joaquim não riu, porém Caio nem reparou nisso.
- Por que você não vai se catar, rata de shopping? - Diana disse.
- Porque eu não quero. - Amanda disse e depois que analisou que não foi uma boa fala, ela suspirou e encarou Caio. - Mamãe está te chamando. É pra você ir pro Campus, logo. E vê se não demora, não aguento mais ela me ligando.
- O quê? - Caio olhou a mochila e depois reparou que havia esquecido o celular em casa.
- Está tudo bem, ela tem que entender que você está no colégio...
- Mas a aula já acabou. - Amanda disse, interrompendo Diana. - Anda logo, antes que a mamãe surte. E se ela surtar, eu vou surtar.
- Ela vai ficar bem. Eu vou seda-la quando eu chegar lá. - Caio disse.
- Espero que tenha falado de brincadeira.
- Não, é sério... Ela provavelmente quer que eu leve os calmantes dela que ela pediu pra eu pegar na farmácia ontem e esqueci de entregar.
Amanda revirou os olhos.
- Bem, vamos meninas. Vamos nos sentar ali. Vem, Jojo, você vai achar incrível a galera jogando. - Amanda puxou Joaquim pelo braço que ficou olhando para Caio.
Caio não o olhava, ele olhava para o chão, não conseguia encara-lo nesse momento.
- Eu ainda arrebento essa garota. - Diana disse.
- Relaxa! Cão que ladra não morde.
- Não acredito que ele está com ela. Quer dizer, eu acredito. Ela é linda, popular e ele é uma estrelinha de internet. É claro que os dois ficariam juntos. Típico, clichê e tosco.
- Clichê seria se ele saísse com a fã nerd e desajeitada. - Caio diz em tom de deboche.
- Que passa por uma puta transformação no meio do filme e os dois cantam uma música da Demi Lovato no final.
- Ou da Taylor Swift.
Os dois riem e depois que se acalmam, Caio se despede pra ir pro trabalho. Ele ficou intrigado, pois Suzana raramente ia pra alguma loja e quando ia, ela ia para a do Centro que é bem mais popular. O que ela queria, ele não sabia, mas preferiu não arriscar deixando ela esperando.
- Não deixa aquela bruxa te importunar. - Diana olhou para o amigo e depois para a quadra vendo o jogo, quando Zack marcou um gol. - É isso aí, amor! Uh! - Ela gritou e bateu palmas.
- Okay. A gente se vê mais tarde no Pedro, tudo bem?
- Tá bom. Tchau! - Ela jogou um beijo enquanto ele se afastava.
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Um Diferente Conto Da Nova Cinderela
FanfictionCaio é um jovem negro e gay de dezessete anos que está tentando sobreviver ao último ano do ensino médio. Seu maior sonho é sair de casa e ficar longe da sua madrasta e dos irmãos insuportáveis pra correr atrás do seu objetivo de ser uma grande estr...
