Perdida

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Assim que acordei, tomei um susto.
Podia jurar que tudo tinha sido um sonho maluco mas ainda estava ali
Enquanto esfregava os olhos ainda pensava na noite passada.
"Você precisa se libertar"
O que isso significava?
Eu sempre me senti presa, uma completa submissa naquela casa. Não tinha para onde ir ou a quem pedir ajuda. Também nunca quis ser tratada como vítima ou que sentissem pena...
mas sempre foi uma prisão
Era estranho pensar na palavra "liberdade", com o passar dos anos deixou de existir no meu vocabulário e na minha vida.
Apoiada no parapeito, refletia sobre tudo isso.
Estava perdida, não de uma forma boa ou ruim... na verdade nem sabia classificar isso ainda
Estava presa aqui, também estava presa lá. Por que choro? Do que sinto falta?
Talvez pelo menos lá eu tivesse alguma chance ou...
Escutei batidas na porta, limpei as lágrimas e andei devagar até a porta.
Era uma garota, devia ter uns 25 anos. Era mais jovem que Karen. Era bonita, talvez arrumada fosse mais perceptível. Era difícil dizer com o cabelo preso, as roupas cinzas e um pouco de sujeira no rosto.
— Bom dia senhorita — ela entrou no quarto e foi direto até a cama — Espero que tenha dormido bem.
— Sim, muito bem. Pode deixar, eu mesmo posso arrumar a cama.
Corri até a cama e antes que pudesse encostar nela, a garota me impediu.
— Imagine, esse é o meu trabalho. Estou aqui para ser sua camareira.
— Camareira? Pode ter certeza que sei me cuidar sozinha — Afirmei sendo gentil, agradecia o interesse dela
— Posso preparar seus banhos, te ajudar a vestir sua roupa. Acompanhá-la caso precise ir a algum lugar.
— Desculpe mas posso sair sozinha.
— Eu soube que não é daqui, por isso está desatualizada das tradições. Posso ajudá-la também a ficar informada sobre os costumes.
— Eu não ficarei aqui por muito tempo então não acho que seja preciso.
— Senhorita...
— Clair — a interrompi, não aguentava mais ser tratada como um bela dama de bla bla bla
— Clair, é o meu trabalho. Estou aqui para te servir, seria fácil se me deixasse trabalhar.
— Não é a minha intenção te atrapalhar.
— Eu pedi para servi-la, pedi a Lady violet para ficar encarregada de cuidar de você.
Fazia anos, mais do que poderia me lembrar, que alguém não se oferecia para fazer algo para mim. "Cuidar" era uma palavra esquecida e agora desconhecida para mim
Muitas palavras eram, principalmente "ajudar"
— Tudo bem, mas não darei muito trabalho porque sei fazer as coisas sozinha.
Queria deixar claro que não era uma donzela indefesa que não sabia se lavar sozinha
— Pense em mim como uma amiga que está aqui para te ajudar quando precisar — ela abriu um sorriso e voltou devagar a cama para terminar de arrumar
Amiga, algo que eu não tinha a muito tempo. Era uma sensação nova... na verdade uma sensação que a muito tempo não sentia.
— Como se chama? — perguntei me aproximando dela, ainda de braços cruzados e um pouco feliz
— Jordan.

🎻

Estava sentada na cama, esperando Jordan voltar com minha roupa. Quantas horas deviam ser? 10?
Nunca acordei tão tarde em anos. Devia estar sempre em pé as 6, cuidar da casa e fazer o café até as 7. Acordar minha madrasta e minhas irmãs as 7:10. 7:20 colocar a mesa, isso quando elas não pediam no quarto...
Me assustei quando Jordan entrou de repente. Ela segurava uma pilha de roupas que daria para montar uma barraca. Corri até ela e a ajudei a jogar tudo em cima da cama.
— Trouxe essas roupas, não imaginei qual seria seu gosto ou sua cor favorita.
— Não posso me dar ao luxo de escolher uma cor, nada fica bom em mim mesmo.
— Esse ficará bom — ela apontou para um de tecido azul e o tirou da pilha que estava embolada na cama
Peguei o vestido da mão dela e agradeci. Ela não se moveu, não queria mandar ela sair assim... seria grosseria.
— E o resto do seu traje? — ela esticou o braço me oferecendo uma pilha
— Hein? — perguntei sem compreender — Já peguei o vestido.
— Os trajes íntimos. A anágua, o espartilho, as meias, a crinoline e o sapato.
Jordan nem esperou minha resposta e colocou tudo aquilo nos meus braços.
Pedi para que ela saísse, demorou mas acabou cedendo.
Vestido: OK
Meias: OK
Um treco de metal que parecia uma gaiola: Nem pensar
Espartilhos: Já tinha ouvido falar, costumava ler um pouco de literatura antiga
E uma saia branca de tecido duro, deveria ser a anágua.
Havia uma peça branca de tecido fino que parecia um short. Conclui que era um tipo de calcinha, já que tinha uma abertura entre as pernas e um laço de fita de cetim unindo as duas partes.
Não consegui segurar o riso.
Tirei a "camisola" que usava e coloquei o vestido. Se o problema era pernas de fora, aquilo serviria. Não usaria aqueles outros instrumentos de tortura. Fiquei mais aterrorizada com a gaiola, por Deus quem usaria aquilo? Quem inventou aquilo?
O vestido era azul claro, de mangas longas. Ficou um pouco apertado na cintura mas era pelo fato de Eloise ser mais magra que eu. Os sapatos não eram tão desconfortáveis quanto eu pensei, mas ainda eram. Desisti deles e coloquei a minha sapatilha. Nem daria para ver, o vestido cobriria.
Todos os filmes de época que já tinha visto não mostrava o desconforto das atrizes ao usar o figurino. Pensando agora, deveriam dar um Oscar a todas as mulheres que já atuaram usando algo assim. Eu não conseguia respirar. Suava em todos os lugares.

Perdida nos Bridgertons Onde histórias criam vida. Descubra agora