Na quarta-feira à noite, no baile dos Heartsides, o visconde Bridgerton foi visto dançando com mais de uma jovem donzela. Esse comportamento só pode ser chamado de "surpreendente", já que Bridgerton costuma evitar senhoritas solteiras com uma perseverança que poderia ser impressionante, não fosse tão frustrante para todas as mamães casamenteiras.
Será que o visconde leu a coluna mais recente desta autora e, da maneira perversa que os machos de todas as espécies parecem confirmar, decidiu provar que ela está enganada?
Pode ser que a autora esteja atribuindo a si mesma muito mais importância do que tem de fato, mas decerto os homens já tomaram decisões baseadas em muito, muito menos.
E não estaria atualizando os leitores de tudo se não falasse de um certo vestido, ou melhor, de uma certa garota. Foi um dos assuntos mais comentados do baile, hóspede dos Bridgertons.
Nunca vista na cidade antes e é de longe uma estrangeira.
O visconde Bridgerton também foi visto dançando com a Srta. Katharine Sheffield, a irmã mais velha da loura Edwina. Isso só pode significar uma coisa, pois não escapou à atenção desta autora que a Srta. Katharine tem sido muito requisitada no salão de dança desde que a Srta. Edwina fez o estranho e inédito anúncio no recital dos Smythe-Smiths, na semana passada.
Quem já ouviu falar de uma garota que precise da permissão da irmã para escolher um marido?
E, talvez mais importante, quem decidiu que "Smythe-Smith" e "recital" podem ser usados na mesma frase? Esta autora compareceu a um desses encontros no passado e não ouviu nada que pudesse denominar-se eticamente "música".
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN
22
Eles mal me conheciam. Sabiam que eu não estava familiarizada com os costumes daqui e isso era bastante constrangedor... mesmo assim queriam que fosse ao baile junto com eles. Tudo bem, talvez não fosse nada demais. Apenas uma gentileza...
Mas por anos, sempre que ia uma visita lá em casa, amigas das minhas irmãs ou da minha madrasta devia ficar no quarto e só sair quando chamassem. Era uma vergonha pra elas, deixavam isso bem claro.
Agora essa família estava querendo me tratar bem e eu não sabia como reagir, não achava que merecia
Era mesmo o tipo de pessoa que não sabia mais o que era simpatia?
Me tornei tão triste assim?
— Por que está chorando?
Limpei as lágrimas e respirei fundo. Jordan se encontrava atrás de mim fazendo meu penteado. Eu não fazia questão de me arrumar tanto, mas não queria fazer feio para os Bridgertons.
— Sente falta da sua família? — Ela perguntou, baixo e com um leve sorriso para me confortar
— Sinceramente, não. Eu não tenho família.
— Disse que tinha uma madrasta e duas irmãs.
— Acredite quando ela se casou com meu pai, o que eu mais queria é que fôssemos uma família. Não foi o que aconteceu. Ele morreu, ela ficou com tudo e para a infelicidade dela... comigo.
— Deseja voltar para casa? — interpelava enquanto colocava o último grampo no meu cabelo
— Essa é a pergunta que tenho me feito desde que cheguei aqui.
Olhei pra ela, sentia que finalmente estava sendo franca com alguém naquele lugar. Sabia que entenderia e não me julgaria, ou me acharia doida, era verdadeiramente como uma "amiga"
— Terminei, está muito bonita.
Deixei bem claro a Jordan que não usaria a anágua e muito menos o espartilho. Ela conseguiu dar umas costuradas e deixá-lo cheio sem precisar de nada daquilo.
O vestido era vermelho, justo na cintura e solto embaixo. Disse que ela não precisaria trabalhar muito mas acabei precisando bastante de sua ajuda. Modifiquei um pouco o vestido, tirei as mangas. Fiz um pequeno decote nele.
Foi necessário bastante esforço meu e dela para que ficasse pronto a tempo.
me avisou que era um pouco inapropriado: Ombros, costas e braços de fora. Chamaria bastante atenção... mas do que adiantava estar em um lugar novo e não causar?
Me sentiria orgulhosa em impressionar um pouco as mulheres daquele século. Assumiria total culpa se Lady Bridgerton ficasse irritada.
Deixei claro a eles que não era daqui, que não conhecia os costumes... com certeza, pelo que sabia deles, não me cobrariam mudar totalmente meu jeito para se adequar. E mesmo que pedissem, jamais faria.
Essas pequenas opniões, pequenos pensamentos que faziam com que eu me impusesse e criasse minha própria visão sobre as coisas. Estar pronta para uma guerra para defender meu ponto de vista, acreditando ser o certo, era algo que achava ter perdido a muito tempo... estava aos poucos conseguindo de volta
Me sentia um pouco renovada. A Clair de antes apenas abaixava a cabeça, cansada de lutar e acabar derrotada sempre. Já tinha perdido as esperanças e não sabia o que fazer da vida... nem se tinha algo que poderia fazer
Aqui era diferente. Podia ser quem queria, me sentia até estúpida por não ter decidido fazer isso antes. Queria que minha madrasta me visse agora.
Sempre é tempo de mudar e eu estava começando aos poucos. Nada tiraria a minha felicidade dessa noite, era só um vestido...
— Aproveite a noite, nunca se sabe quando voltará para casa.
Olhei para o meu espelho na escrivaninha.
— Tem razão.
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Perdida nos Bridgertons
AcakApós anos de escravidão e desprezo, Camila perde as esperanças e aceita sua vida como Clair, a empregada de sua madrasta No dia de seu aniversário é enviada até o século XIX por sua fada madrinha. Se vê perdida e livre em um lugar completamente dif...
