Família

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— Eu reconheço... — Colin deu mais uma grande mordida no X-tudo — É delicioso
Depois da noite de ontem, achei que seria melhor passar um tempo apenas com meus amigos.
Mesmo que o beijo com Anthony não significasse nada, ainda era recente. O momento com Benedict na noite passada, foi mais que vigor... havia paixão. Por mínima que fosse, não deveria deixar aquilo chegar a proporções maiores.
Levei Colin e Jordan para a cozinha, decidi fazer o famoso hambúrguer que prometia.
Era ótimo vê-los interagindo, sem diferenças. Não aceitei a ajuda deles, apesar de oferecerem — Até mesmo Colin, o que me surpreendeu ainda mais —
A parte mais difícil foi a carne, precisei cortar em tiras já que não existia moída.
Fritei os ovos e o bacon, fatiei o queijo e o presunto. Cortei o tomate e a cebola para a salada, lavei o alface.
Nunca havia me esforçado tanto para fazer um X-tudo, não por obrigação e sim porque queria agradá-los. Tudo é diferente quando se faz por vontade.
— Precisa me ensinar a fazer isso — Jordan se saciava
— Claro, eu ensino. Fico feliz que tenha gostado — Peguei uma das mãos dela — Isso não é nada comparado ao que faz por mim. Serei eternamente grata.
— Não deveria ir embora, poderia ficar aqui.
— Quem dera se essa decisão fosse minha.
— E não é? Achei que era dona da sua própria vida — Colin deu de ombros, para me provocar
Não pude dizer que estava enganado. Me irritava que não possuísse o controle daquela situação, era meu futuro e meus sentimentos em jogo.
Consegui disfarçadamente — ou pelo menos na minha cabeça — mudar de assunto, o que me rendeu um triunfo sobre Colin
— Qual o seu preconceito com minhas roupas? Elas são confortáveis
— A deixam nua — alegou
— Depois da situação no rio, acho que sabe perfeitamente diferenciar quando estou nua e quando não.
Jordan, que antes ria, virou-se para mim perplexa. Certo que não deveria dizer aquilo na frente dela, que compreendia ao que me referia. Ainda assim, nada me satisfazia mais que a expressão de um homem sem fala.

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Queria visitar a biblioteca enquanto o sol não se punha, refiz o mesmo caminho do dia anterior e cheguei até lá.
Como o escuro podia me cegar tanto? Era imenso. Diria uns 2 mil livros, ao que conseguia ver. No centro uma mesa retangular com 8 cadeiras — para 8 Bridgertons — feita de madeira maciça. As janelas eram maiores que as da sala, mais altas também. O que explicava a falta de tantas luminárias era a existência da lareira.
Sabia que gostaria daqui
Era Violet, caminhava elegantemente em minha direção.
— É um lugar muito bonito
— Minha filha Daphne costumava vir aqui, depois que se casou eu senti falta de uma presença rodeando esses livros
— Eu não toquei em nada, eu juro — fiquei nervosa com a menção à filha dela
— Fique tranquila, não estou zangada. Pode vir aqui o quanto quiser, adoraria ver essa biblioteca movimentada novamente
— Obrigada, realmente gosto de livros. Quando pequena meu pai me dava um pirulito cada vez que eu terminava de ler um livro, agradeço que ele tenha me feito criar esse hábito.
— E sua mãe? Chegou a conhecê-la?
— Não, era um bebê apenas. A dor da perda do meu pai já é bastante dura, me sinto um pouco aliviada de não ter que lidar com mais uma.
— Não importa onde estejam, sentem orgulho de você — Violet pegou nas minhas mãos e as apertou docemente — Tenho certeza
Deixei uma lágrima rolar, fiquei envergonhada quando ela atingiu meu queixo.
— Venha cá! — ela abriu os braços para me receber
A envolvi com meus braços e me deixei aproveitar aquele carinho materno que tanto ansiei na vida. Apoiei meu rosto em seu ombro enquanto Violet passava sua mão suavemente em meus cabelos
Existem abraços que nos curam de corpo e alma, o que não podia imaginar era que encontraria esse consolo um dia.
— Lady Bridgerton?
Nos distanciamos pausadamente até que enxergamos o Mordomo imóvel na porta
— Os vestidos chegaram!

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Eram 5 caixas enormes no meio da sala, até os homens apareceram para espionar.
— Lady Colette jamais falha na pontualidade.
— E na perfeição, olhe essas mangas — Eloise sacudia seu vestido artificialmente posto sobre seu peito
Antes que alcançasse minha caixa, Anthony a pegou.
— Posso ajudar a levar para seu quarto.
— Agora você quer falar comigo? — falei baixo, disfarçando minha raiva o máximo que conseguia
— Não finja que também não me evitou, fugia de mim.
— Está se dando muito importância
Comecei a subir as escadas, concordei com a ajuda mas não em conversar com ele. Dobrei o corredor e não olhei para trás um minuto sequer, ouvia seus passos e ignorava.
Já dentro do quarto, o esperei chegar. Não demorou muito, pôs a caixa em cima da penteadeira ao lado da porta.
— Obrigada — me permiti abrir um sorriso — agora pode ir
— Não — ele fechou a porta e a trancou — agora vamos conversar
Meu sangue gelou, não era medo mas também não era uma sensação boa. Tentei fingir o máximo possível que aquilo não me atingia
— Sobre o que quer falar? — Cruzei os braços, queria por um fim naquilo
— Não quero que pense que beijo qualquer uma
— Disse o libertino, você é hilário!
Você não é qualquer uma — falou se aproximando, eu recuava
— Nisso concordamos.
— Respeito a sua honra...
O interrompi, sabia exatamente em que ponto ele queria chegar.
— E ela está intacta. Essa era a sua preocupação? Pode sair agora — apontei para a porta e abri um sorriso cínico 
— Será que não podemos ter uma conversa agradável?
— Sim, nós podemos mas não vejo porquê. Eu beijei você...
Eu beijei você
— Achei que a conversa deveria ser agradável, sua masculinidade é tão frágil que não aceita o fato de ter sido beijado?
— Eu não compreendo uma vírgula do que diz — Anthony permanecia indignado
— Vou simplificar para você: Nos beijamos e ponto, foi ótimo e não acontecerá novamente. Eu sinto um grande carinho por você, como por toda a sua família. Não complique mais as coisas, por favor
Parecia abatido com a minha súplica, foi sincera assim como a expressão dele ao dizer
— Você é uma mulher formidável
Acabei sorrindo, involuntariamente. Ele também, pelo que pude ver. O curioso sobre Anthony era que mesmo podendo ser um bruto, sabia ser gentil quando queria.
Aquele momento chegou ao fim quando começaram umas batidas na porta. Me assustei e permaneci imóvel, quem deveria ser?
Clair, por favor abra, precisamos conversar.
Era Benedict, o quanto aquilo seria constrangedor? Diria muito
— Já vou abrir, só um minuto — Gritei me aproximando da porta
— O que Benedict faz aqui? — Anthony perguntou curioso
— Deixe de ser fuxiqueiro, isso é culpa sua — Toquei em seu peito 
— Minha? Se não nos trancasse aqui, você não ouviria o que eu tinha a dizer
— Percebe? Estamos discutindo de novo
— Estamos sozinhos dentro do seu quarto, não posso sair daqui com ele na porta
— Não vou mandá-lo embora, existe outro jeito.

Com tudo planejado, respirei fundo e abri a porta.
Sai antes que Benedict entrasse e fechei a porta.
— É melhor entrarmos — Ele tentava alcançar a maçaneta mas eu o bloqueava
— Seria muito perigoso, alguém poderia entender errado. Me acompanha até o jantar?
— Tudo bem
Demos os braços e começamos a andar. antes de dobrar o corredor, olhei para trás e vi Anthony saindo do meu quarto.

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Me sentia em família com eles, acolhida. Toda refeição me alegrava, fazia anos que não sentava na mesa.
Tudo que fazia era servir e depois obrigatoriamente comer na cozinha, nunca pensar em me juntar a elas. Eu me acostumei com isso, no começo foi difícil... com meu pai morto poucas coisas ainda faziam eu senti-lo perto e a forma como tudo mudou, as lembranças foram apagadas.
Começou com o jardim, parei de cuidar para me dedicar melhor às tarefas.
A casa sempre foi azul, a cor preferida de minha mãe... de repente ela era creme, como todas as casas da rua.
Talvez Lilith estivesse certa, eu deveria ser grata. Grata por ter tido a chance de conhecer pessoas tão boas, conhecer o que é uma verdadeira família. Depois de tanto tempo, tinha esquecido...
— Clair? — Eloise me chamou, ergui a cabeça e a encarei — Também está empolgada para amanhã?
— Sim, muito. Nunca fui a um recital antes, obrigada por me darem essa chance.
— Anthony falou muito bem da Maria Rosso, estou empolgada para ouvi-la cantar
— Você a conhece? — perguntei para ele, que pareceu encurralado
— Um pouco, o bastante para saber que fará do recital um sucesso.
O assunto morreu depois da forma seca com a qual respondeu, algo que apenas eu reparei. O que tinha essa Maria Rosso?
Após o jantar, ajudei as empregadas a tirarem a mesa. Agradeci a todas as mulheres da cozinha pela janta deliciosa, já estava lá a dias e ainda não tinha feito isso. Um erro que reparei, me sentia mais leve. "Trate os outros como gostaria de ser tratado" um ditado bobo mas que aprendi com meu pai, sempre guardei na memória.
Não existia sentido quando só recebia grosserias, agora entendia que um dia as coisas davam certo.
Agora era tratada da melhor forma possível, agradecia profundamente a meu pai e minha fada madrinha por isso.
Não pude conhecer a fundo todos os empregados, mas seus nomes sim. Levaria um tempo para me lembrar, um tempo que talvez não tivesse.
Segui reto até a sala, me sentia exausta. Jordan insistiu que eu subisse para deitar — o dia seria longo amanhã —
Subia cada degrau lentamente, amanhã completaria 1 semana aqui e o pânico só aumenta...
Quando encontraria Lilith de novo? Quando voltaria? Como voltaria? Eu queria mesmo voltar?
Era melhor apreciar cada segundo, até mesmo o simples caminho para meu quarto.
No instante em que alcancei o 2 andar, ouvi passos firmes se aproximando.
Por favor que não seja... SIM, era Benedict
— Eu fui até seu quarto para conversar e você me ludibriou
Novamente encurralada, suas mão na parede me cercavam.
Eu o queria, sentir de novo seu toque formigar minha pele...
Podia ter me enganado sobre Anthony, ele realmente não era um interesse para mim. É claro que o achava um homem elegante e cortês, mas era o primeiro homem que beijava em anos... anos que não convivia com mais ninguém, era comum me confundir.
Colin desde o primeiro momento agiu como um amigo e era isso que sentia, nada mais.
Benedict era diferente, começou com olhares deslumbrados; conversas sucintas até que descobri seu segredo.
Se abriu para mim, me permiti compreendê-lo.
O beijo não foi planejado, simplesmente aconteceu... sorrio por me lembrar.
Eu pertencia a um século e ele a outro, poderia criar sentimentos por ele mas jamais permitiria que se aproximasse demais. Para o bem dele.
— Não há nada para ser dito
— Existe algo entre nós, uma atração. Sinto toda a química nas minhas veias — Agora encarava a fundo seus belos olhos castanhos — Está trazendo a tona uma nova versão de mim
— Benedict, por favor — O afastei
devagar, ele não queria se mover
— Você sente o mesmo, não negue! Posso ver isso em seus olhos!
— Você precisa de óculos então.
Ele merecia mais do que poderia prometer.
Nossos narizes se tocavam, sentia sua respiração. Até mesmo as batidas de seu coração, resisti e não desloquei.
De repente ele se afastou, foi um espanto. Não sei o que esperava, mas com certeza não aquilo.
— Ainda irá ao recital comigo amanhã?
— Se prometer manter suas mãos longe de mim
— Tentarei me conter, eu prometo


É provável que amanhã não consiga postar capítulo novo mas caso aconteça, recompensarei vocês. Votem e comentem, ajuda bastante.
Não esqueçam de ler OS MISTÉRIOS DE UMA INGLESA da BillyBridgerton28
Lavem as mãos💕

Perdida nos Bridgertons Onde histórias criam vida. Descubra agora