Sete anos de azar

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Leslieville, Toronto, Ontário, Canadá - Segunda-feira - 08h30

Sete anos de azar

Finn

Atrasado! Estar sempre em cima da hora era rotina para mim, mas nesta manhã, consegui me superar. Eu e minha família havíamos passado o domingo na casa da vovó, comendo, jogando cartas e conversando sobre nossas rotinas. Quando meu avô estava entre nós passávamos muito mais tempo juntos, apesar de meu pai e ele sempre acabarem brigando em algum momento da reunião.

Faziam exatos oito meses que nosso telefone tocou na madrugada, era meu tio Erin, avisando ao papai do mau súbito sofrido há horas pelo vovó. Tio Erin nunca ligava, nem falava com a gente, mamãe dizia que eles nunca tinham se dado muito bem, então, quando tiveram a oportunidade de se afastar, o fizeram. Não entendo até hoje o porquê dele estar na casa dos meus avós naquela madrugada, porém desisti de questionar, uma vez que mudaria pouca coisa dada a situação. 

Levantei em um sobressalto da cama, como se meu relógio biólogo fosse explodir, me avisando do atraso antes mesmo de meu cérebro o constatar de fato. Coloco a primeira roupa que encontro pelo caminho, tropeçando na bagunça deixada na noite, acho uma camiseta velha jogada no canto do banheiro, enquanto escovava os dentes apressado. 

-Finn, vamos! - meu pai grita da cozinha. 

- ESTOU ATRASADO! PERA AI! - respondo calçando os tênis velhos da Nike, adquirido por Diana em uma promoção estúpida da loja do bairro, onde, ao comprar três pares no cartão fidelidade, o quarto saia de graça. Minha avó nunca foi muito boa com cálculos, e por já beirar os 70 anos, foi facilmente manipulada pelo vendedor. Quis ir devolver, mas ela ficou extremamente magoada com a ideia, me fazendo desistir e aceitar o presente. 

- Mais cinco minutos, ou a Apatow não vai te deixar entrar. - avisa, prevendo a ligação da diretora. 

- Estou indo. - respondo, me curvando sob a pia na intenção de limpar os resquícios de pasta de dente em minha boca. Ensaboou o rosto com o sabonete anti espinhas e, sem medir muito bem o espaço, nem a força, volto a ficar ereto com todo o meu entusiasmo, em busca do desodorante, de olhos fechados, contudo, bato a minha cabeça com toda a força na prateleira de perfumes, causando uma dor intensa pelo atrito. Abro os olhos instintivamente, esquecendo do sabonete, na mesma hora uma ardência infernal na região dos olhos começa, praguejo os fechando novamente, buscando cegamente a toalha, que ficava na porta, porém, tinha jogado minha mochila no chão, perto dos pés, pois terminando de escovar os dentes desceria correndo até a garagem, mas aparentemente nada estava destinado a dar certo nessa manhã, já que ao alcançar a toalha com as pontas dos dedos, tropeço bolsa, caindo como um pato no meio do banheiro e, para piorar, ao tentar levantar, bato novamente a cabeça, só que desta ver no espelho que estava atrás da porta, o derrubando e o quebrando em milhões de pedaços. 

- MAS QUE MERDA! - grito com a toalha no rosto, irritado e extremamente atrasado. 

- O QUE VOCÊ DESTRUIU, CARA DE SAPO? - Nick grita do outro lado da porta. 

- VEM ME AJUDAR SEU INÚTIL! - peço aos berros. Nick não demora a chegar, trazendo a pá e uma vassoura. 

- Vai para a sua aula de uma vez, eu limpo isso aqui. - rindo, ele me libera. Pego a mochila estressado, passando por ele bufando. Paro no banheiro dos meus pais, terminando de lavar o rosto e usando um dos perfumes do papai. 

- VAMOS FINNEAS! - meu pai chama, buzinando.

Toronto, Ontário, Canadá, Bruce Public School - 09h30

Atravesso o gramado às pressas, prevendo que perderia o café e o começo da primeira aula. Desamarrando a cada dez passos dados por mim, o cadarço do tênis estava sendo o responsável por terminar de esgotar o que eu ainda tinha de paciência, por isso desisti de tentar amarrá-lo, pisando no infeliz com ódio, resultando em um belo trupicão nas escadas que levavam a porta de entrada do prédio principal. 

I've Got You - Fillie Histórias para pegar e não largar. Descubra agora