[Harry]
O som estridente da máquina invadia os meus ouvidos, numa tonalidade constante e estável. Tão intensamente estável que acabava por agitar as minhas emoções. Os seus olhos mantinham-se fechados, e a pele demasiado cálida, quase que brilhava com a reflexão da lâmpada pendurada no topo do quarto. Engoli em seco quando voltei a ver-lhe a expressão serena, sem qualquer tipo de mudança nas últimas horas, nos últimos dias.
Funguei, sentindo os olhos arderem devido à vontade de chorar que me corrompia todo o sistema e todos os meus sentimentos. Os meus braços estavam preenchidos por cortes, as minhas mãos eram envoltas de compressas e uma parte do rosto estava inchada. Ligaduras envolviam o meu tronco, reparando as minhas feridas. Mas todos aqueles ferimentos não chegavam a metade daquilo que sentia no meu interior, nem metade da dor, do sofrimento. O meu coração pulsava apenas por aquela pequena esperança, ritmado com o som da máquina, do beep constante que infernizava a minha audição. E no fundo, eu sabia que dessa forma, ambos batiamos pulsações ao mesmo tempo, como se ambos estivessemos a puxar para o mesmo lado, como se a vida fosse apenas um mero barco e os dois puxávamos por ele. Prendi-me por alguns minutos nesse reconforto inutil, pensando que poderíamos encontrar o nosso caminho neste luta conjunta, mas ao final de tudo, ela estava a lutar sozinha. Como ela era forte mas tão frágil. Como poderia eu, mísero homem sem afetação sentimental que não a da sua presença, aceitar uma vida em que ela não existisse? Como poderei eu aceitar que parte de mim esteja a sofrer sem que eu possa, pelo menos, partilhar dessa dor que tanto mereço?
“Ainda aqui?” O médico perguntou entrando no quarto com a sua habitual pasta. Não respondi, pois ele sabia perfeitamente que não iria abandonar aquele espaço nem por um único segundo. Tudo o que tenho feito tem dado errado pelo simples facto de ter deixado de a proteger, porque não pensei que ela precisasse de mim, mas ela precisa, talvez pela mesma razão de que eu preciso tanto dela. Nunca mais iria dar um passo para me afastar dela, mesmo que a minha vida dependa disso.
Observei o homem aproximar-se da maca e verificar as anotações, escrevinhando nos seus papéis.
“Os sinais vitais continuam estáveis, em breve deve despertar.” Revelou com um sorriso encorajador, que de nada me serviu. Mesmo que ela acordasse, haveria uma chance enorme das coisas estarem diferentes. Já fora avisado de que muita coisa poderia estar mudada e, de alguma maneira, isso mantinha-me inquieto.
Um batuque na porta fez com que ambos olhássemos no sentido do barulho, para o sítio onde a figura alta e morena surgia na porta do quarto. De rosto fechado e inexpressivo, Zayn envergou pela divisão vestido em cores escuras. A mulher seguia atrás dele e, logo depois, Niall. O mais velho trazia na sua mão flores, um pequeno vazo preto com violetas plantadas. Aquele gesto deu-me náuseas, desconforto e raiva, pelo simples facto de que o quadro assemelhava-se à desistência, ao facto de que ele não acreditava mais na força da irmã.
“O que é que ele está aqui a fazer?” Perguntei bruscamente erguendo-me da poltrona e caminhando para junto de Evelyn, como se a minha presença o fosse manter afastado.
“Eu ainda sou irmão dela, Harry, ela ainda está sob a minha custódia.” O mais velho fez questão de me relembrar e, não fosse a minha falta de equilíbrio, ter-me-ia jogado para o esmurrar. Ele não tinha direito nenhum de ali estar, depois de tudo o que fez. “Eu sei que agi erradamente, mas eu já tentei redimir-me, e, neste momento ambos precisamos manter-nos unidos, por ela.” Os seus cabelos negros balançaram à medida que se aproximava da cama onde o corpo da rapariga permanecia inconsciente. Pousou as flores e suspirou. Não me demovi, como se aquilo ajudasse alguma coisa. “Por favor.” A mão de Zayn foi estendida na minha direção, como que pedindo, de novo, tréguas.
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Save Yoυ △ |h.s|
Fanfiction❝ Se os nossos segredos fossem iguais eu dir-te-ia que somos a mesma pessoa. Porque no fundo os nossos segredos distinguem-nos uns dos outros. Mas não se trata apenas de segredos pois não? Trata-se de honra, de fidelidade, confiança, sentimentos. Tr...
