Os brinquedos foram sendo deixados de lado, à medida que Miguel andava. Havia uma cerca ao redor da área que ficavam os brinquedos, Miguel passou pela cerca, através de uma portinha de madeira e foi andando por uma estrada entre a grama. Não parava de pensar em Cristiane e naqueles olhos verdes. Será que ela ficaria bem? Será que eles se reencontrariam novamente? Ela era a terceira pessoa com quem ele se encontrara nos seus sonhos. Gostava de encontrar pessoas ali, saber que não estava passando por aquilo sozinho.
A primeira pessoa que encontrou era uma mulher cega. Encontrou-a em um de seus primeiros sonhos depois que foi internado. A mulher não quis dizer seu nome. Ficou de joelhos no chão de uma casa antiga recitando palavras da bíblia. Quando Miguel se aproximou para falar com ela, as orações se transformaram em gritos de histeria e a mulher ficou em pé recuando seu corpo para trás e exigindo que um homem profano como ele não a tocasse nunca mais. E que era por culpa de homens pecadores como ele que ambos estavam passando por aquilo naquele momento. Miguel, vendo que não conseguiria se aproximar daquela mulher que ele deduziu ser louca e que deveria estar no lugar dele internada na clinica psiquiatra, saiu da casa, deixando-a só.
A segunda pessoa encontrada por Miguel, cerca de quinze dias, mais ou menos, era um homem quase da sua idade, jeitoso e educado. Disse se chamar Breno e falou que era médico. Eles se encontraram no que seria uma espécie de caverna. Miguel lutava desesperadamente contra um louva-a-deus gigante. Fazia força segurando suas patas e jogando seu rosto para trás enquanto o inseto tentava mordê-lo. Breno entrou com um revolver na caverna e atirou na cabeça do animal que jorrou uma gosma verde em cima dos dois. Mais adentro da caverna uma gruta subterrânea com água foi utilizada pelos dois para se limparem. Miguel contou sua história para o médico que estava próximo de acordar e que lhe prometeu que procuraria sua esposa Hélia para contar que o que o novo amigo estava passando era real e que o tiraria da clinica em que estava enterrado.
Miguel desde então não viu mais ninguém. Ficou imaginando se Breno havia encontrado sua esposa e a convencera de tudo aquilo. O que era pouco provável uma vez que ainda permanecia ali.
Distraído com seus pensamentos, Miguel tropeçou em uma linha de ferro que estava escondida entre a grama alta. E caiu no chão. Tratou logo de se por de pé. Com a mão investigou o local que tropeçara. O ferro era uma espécie de trilho de trem. Com o dedão do pé latejando começou a seguir o trilho que parou em um novo brinquedo. Um rosto de palhaço empoeirado sorria para ele. O corpo do palhaço, porém, tinha formato de minhoca, dividido em seis partes, sendo que cada parte era um banco de ferro para duas pessoas. Um trenzinho, velho e enferrujado. O nariz e a boca eram de um vermelho intenso. Os olhos verdes o encaravam. Enquanto da boca saia um simpático sorriso.
Miguel continuou andando e não demorou muito para avistar uma lona colorida em meio a um grande clarão. Um circo. Ao redor refletores iluminavam o local e várias jaulas estavam abandonadas no chão, tão enferrujadas quanto o trem de a pouco. Miguel não sabia se entrava no circo ou seguia em frente. Olhou para a arma que carregava, tinha pouca munição, duas balas no máximo. Resolveu então entrar para procurar algum outro tipo de arma.
Ao atravessar a porta do circo se encontrou em um enorme picadeiro vazio. O local era rodeado por bancos de madeiras. Quatro colunas de ferro ficavam em cada canto do circo, segurando a lona. No topo de cada coluna um refletor desligado e um par de auto-falantes. Miguel foi andando até o centro do picadeiro observando cada detalhe. No teto uma corda ia de uma ponta a outra onde algum corajoso atravessava se equilibrando. O teto era de lona, reversando entre azul e laranja. Um caixote de madeira estava abandonado em um canto do picadeiro, desses que os mágicos usam para cortar suas assistentes ao meio e trazê-las inteiras depois. Havia também vários monociclos, além de cordas e correntes, e pequenas caixinhas coloridas com manivelas do lado. O chão do picadeiro tinha formato de um rosto de palhaço. Com cabelo vermelho e uma língua da mesma cor para fora da boca sorridente. O olho direito estava fechado, como uma piscadela amigável ao público. O centro do picadeiro tinha uma elevação redonda, que na figura desenhada no chão, representava o nariz do palhaço.
Miguel se sentiu cansado, e se sentou na elevação que representava o nariz. Os quatro refletores preso nas colunas se acederam, um de cada vez, formando quatro linhas de luz que iluminava o local que Miguel estava agora. Uma musica animada começou a tocar dos auto-falantes. Miguel ficou em pé e uma voz grossa e divertida ressoou nos auto-falantes, deixando a musica como plano de fundo.
– Respeitável público, peguem suas pipocas, escolham seus lugares e se preparem, pois a apresentação de hoje nada mais é do que (tcham, tcham tcham, tcham) A MORTE DOOOOOO... FORASTEIRO!!!
Barulhos de palmas ecoaram das arquibancadas vazias. As caixas coloridas jogadas no chão começaram a se abrir revelando cabeças de palhaços presas em mola. Embora os palhaços que saiam das caixas não tivesse uma feição tão amigável como a do trem ou da pintura no chão. Tinham grossas sobrancelhas que se juntavam em formato de V, um sorriso enorme com dentes manchados de vermelho.
– E alguém aqui saberia dizer o nome do nosso forasteiro?
– MIGUEEEEEEL!!! – Veio o coro das arquibancadas vazias.
Mãos e pernas brotaram do caixote que agora estava em pé, andando desengonçado em direção a ele. Os monociclos ganharam vida e começaram a rodear o picadeiro. Miguel ficou em pé. E atirou na perna do caixote de madeira que vinha em sua direção. A porta superior do caixote se abriu e um grito saiu de dentro junto com pombos e corvos que voaram para cima da lona. Miguel sentiu uma forte dor no calcanhar e ao olhar para baixo viu uma das cabeças de palhaço das caixas coloridas lhe mordendo. Sacudiu a perna para se soltar da cabeça e deu um chute para longe. Os pássaros que voavam no teto do circo, desceram todos em direção a Miguel, bicando sua cabeça.
Miguel começou a correr, olhando para baixo enquanto os pombos e corvos reversavam para bicar sua cabeça. Estava quase se aproximando da saída, correndo o risco de ser atropelado por um dos monociclos, quando o chão a seus pés amoleceu, remexendo para frente e para trás. Os pássaros voaram e pousaram enfileirados na corda próxima do teto. Miguel olhou para baixo e caiu com as mãos no chão, sentindo-o úmido e áspero.
Percebera então que a língua pintada do palhaço havia ganhado vida. Tentou se equilibrar, ficar em pé, mas a língua enrolou-se em cima dele, levando-o para a boca do palhaço no chão. A parte que antes era um preto desenhado no chão agora era um buraco escuro e Miguel escorregou da língua indo goela à baixo do palhaço.
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Paroníria
TerrorO renomado doutor Breno teve uma misteriosa morte enquanto dormia, ninguém sabe ao certo a causa da morte e várias suspeitas parecem cair sobre sua esposa Cristiane que começou a ter sonhos estranhos desde a morte do marido. Agora, Cristiane deve de...
