Capítulo 8

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Beatriz era seu nome, uma jovem no auge de seus 27 anos, formada em letras, dava aula de literatura para várias turmas de ensino médio, sendo bastante paquerada por seus alunos adolescentes. Era muito bonita e desejada. Sua pele era clara e macia, seu cabelo era da cor preta, cortado até o ombro. Seus olhos eram de um castanho tão claro que no sol era bastante confundido com amarelo, mas ao abrir os olhos naquela hora, a íris de seus olhos estavam escuro.

"Onde estou?" Pensou "Outro sonho?".

Estava deitado em um chão, talvez o mais limpo e encerado que já vira até hoje. Foi se levantando devagar. No teto uma pintura adulterada de um famoso quadro de Michelangelo. Estava com um vestido preto, salto alto e colar de pérolas, como se tivesse se arrumado para alguma festa. Ficando em pé, Beatriz analisou o ambiente em sua volta. Um largo salão de museu, cheio de quadros na parede. Uma pequena porta encontrava-se a sua direita. Do outro lado, um vasto corredor escuro.

Começou a andar pelo salão, olhando o vasto exemplar de quadros a sua volta, quando ouviu um estrondo vindo detrás da coluna próximo ao escuro corredor. Beatriz foi até onde o barulho tinha vindo e se deparou com uma gigantesca moldura caída no chão. Se aproximou mais para tentar levantá-la e ver a imagem, mas a moldura era muito pesada. Fez mais força e sentiu o quadro sacudir. Soltou-o de vez.

De dentro da tela, uma figura foi criando forma, era uma mão que logo foi se transformando em um braço rodeado por olhos. Era um braço arroxeado e forte. Beatriz olhava incrédula aquela criatura que nascia de dentro da moldura em sua frente. Os olhos, em volta do braço a encararam e então a mão se abriu em sua direção. Na palma da mão roxa, uma linha surgiu e dessa linha a carne da mão se abriu, formando um grotesco sorriso.

Beatriz deu o primeiro grito assustado. Os dedos da mão roxa foram até o chão e ganharam impulso para se arrastar em sua frente. Beatriz deu o segundo grito, dessa vez clamando por socorro e se virou para correr. A mão roxa se arrastava mais rápido, acompanhando-a. Beatriz olhava para trás enquanto corria, para ver se o monstro se aproximava, quando voltou sua visão para frente à ponta do salto se partiu, fazendo-a sentir a pequena torção em seu pé, desequilibrando-a e levando seu corpo a cair com tudo no chão.

Beatriz sentou-se no chão e começou a tentar desafivelar o salto. Quando percebeu a mão roxa mais perto de seu corpo, com uma enorme língua também na tonalidade roxa para fora da boca, a jovem fechou os olhos e começou a gritar novamente, quando o barulho de um tiro a fez parar. Viu-se pensando no que estaria acontecendo. Estava com medo de abrir os olhos e ver aquela mão sorrir em sua frente. Escutou outro tiro, foi quando abriu os olhos.

Uma mulher, próxima a porta ao lado oposto de estava, loira com um belo vestido vermelho, portava em sua mão um revolver do qual saia os tiros que atingiam seu predador. Voltou as suas mãos para a fivela do salto e conseguiu se livrar do primeiro salto. Começou a desafivelar o outro pé, a mão deu um grito de horror que a assustou. Tentou levantar-se, com um pé descalço e o outro salto quebrado. Quando sentiu um forte murro da mão no chão.

O chão estremeceu, como um terremoto, seu corpo pairou alguns segundos sobre ar e caiu mais uma vez no chão. Viu a criatura em forma de mão avançar com tudo em direção a loira que lhe salvou a vida. Voltou-se para a segunda fivela. Estava quase lá.

A loira entrou de volta na sala que a pouco havia saído. O monstro deu uma forte pancada na porta e depois pareceu desistir da loira virando-se para sua vítima original. Beatriz estava de pé na outra ponta da sala, agora com os pés desnudos. Olhou para trás e viu apenas o escuro corredor para onde podia correr. A mão veio mais uma vez em sua direção. Beatriz entrou correndo no corredor, onde não via nada. Esperançosa que por trás de toda aquela escuridão tivesse uma saída daquele inferno. Seus passos rápidos foram se afastando cada vez mais da moldura que se arrastava no chão. Embora não visse nada, lágrimas vieram a seus olhos. Levou a mão ao rosto e as enxugou. Respirou fundo e continuou correndo.

Beatriz estava com medo. Não daquela escuridão que a rodeava, mas medo de não saber onde estava ou o que tinha ali por trás de toda aquela densa cor negra e onde aquele corredor poderia levá-la.

Sua ansiedade foi aumentando, queria se livrar de todo aquele escuro. Em sua mente, conseguia imaginar os lugares mais bizarros aos quais poderia está passando no momento. Com criaturas assustadoras a encarando em silêncio.

Ah, o silêncio.

O silêncio era o pior, fazia alguns minutos que parara de ouvir o som da moldura da mão rastejando atrás dela. Estava apenas com o barulho de seus pés descalços correndo e sua respiração ofegante. O silêncio a angustiava, acreditava que a qualquer momento um forte barulho surgiria e começaria a lhe seguir, sem ela nem ao menos ter a chance de saber o que seria.

Sentiu vontade de parar por alguns segundos, mas não tinha certeza se era seguro. Não tinha certeza de nada. Olhou para trás e viu o escuro. Olhou para frente, escuro. Os lados, o teto, o chão. Tudo escuro. Sentiu que iria chorar. De repente, voltara a ter sete anos, chorando em seu quarto pedindo para a mãe não apagar a luz ao sair. Mas a mãe sempre apagava. Acreditava que a filha não tinha mais idade para um medo tão bobo como aquele.

As lágrimas caiam do seu rosto em silêncio igual a quando era criança. Sua voz infantil gritou com força na sua mente "Não apague a luz" "Não gosto do escuro". Levou as duas mãos em direção aos ouvidos. Queria parar essas vozes em sua cabeça. Não queria ouvir sua voz infantil implorando por luz. Aquilo era algo que já havia passado. Para que se remeter aquele velho trauma?

As mãos pressionaram com mais força sua cabeça. Mais lágrimas saiam de seus olhos, como torneira ligada, molhando todo seu rosto. Rangeu os dentes. A voz ficou mais forte "Mamãe, mamãe, tem um monstro aqui". Aqueles pesadelos que tinha na infância tornaram-se tão reais agora. Lembrava que cada detalhe dos pesadelos que tivera há 20 anos. A porta do guarda roupa batendo, a cama flutuando. E de manhã, quando a luz do sol parecia protegê-la, vinha sua mãe a castigar por ter urinado na cama.

Na sua vista, o escuro parecia aumentar. Será que era possível aquele escuro se tornar mais escuro? Será que aquele corredor não tinha fim? Será que sairia daquele lugar sã?

Começou a sentir uma pontada abaixo da costela. Dor desviada. Seu corpo estava começando a sentir o excesso daquela corrida. Não tinha ideia de quanto tempo estava correndo. Minutos, horas, dias. Tirou a mão da cabeça e pressionou a lateral direita de sua barriga. Pensou em desacelerar o ritmo. Parar para descansar. Foi quando seu pé não sentiu mais o chão.

Era como se ali tivesse uma escada, com degraus desproporcionais. Não podia dizer ao certo, afinal, não via nada. Tudo continuava escuro. Ao perder contato com o chão, seu corpo se desequilibrou e foi rolando escada abaixo. Bateu algumas vezes com a cabeça, mas não se machucou. Ao menos aquelas batidas pareceram afastar sua voz infantil da mente.

Quando parou de rolar, sentiu água. Umidade. Tudo molhado. Levantou-se. A água formava uma pequena poça até seu calcanhar. O chão era muito liso. Sentiu dificuldades de se equilibrar. A cada passo que dava parecia que iria escorregar. Elevou suas duas mãos para frente, balançando-as no escuro, na tentativa de encontrar alguma parede para se segurar. Nada.

Começou a andar lentamente, com o pé sempre ameaçando escorregar. Sentiu uma gota cair no seu rosto. Olhou para cima, escuro. Escutou o barulho de um pingo d'agua atrás de si, sendo seguido por outro pingo na frente e uns três do lado. Depois ficou impossível contar. Ali, onde acabara de cair, chovia. Olhou para cima procurando algum indicio de céu. Escuro.

A chuva engrossou. Os pingos que lhe atingiam a pele começaram a machucar. Beatriz foi tentando andar mais rápido. Sentia que o nível da água estava subindo. Foi quando suas mãos que dançavam com o nada encontraram algo. Pela textura Beatriz pôde ver se tratava de uma porta. Desceu a mão até encontrar a maçaneta. Deveria abrir? Continuou tateando e para sua surpresa não encontrou paredes. Deu a volta com a mão pela porta. Era apenas uma porta esquecida ali. Não daria para lugar nenhum já que dava para sentir seu outro lado. Encostou a cabeça na porta e chorou mais uma vez, misturando suas lágrimas com a chuva que dali caia.

Sua mão foi descendo pela porta, até esbarrar na maçaneta. Imaginou atravessando a porta e saindo do outro lado daquela mesma sala, mas para sua surpresa, de dentro da porta veio uma luz.

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