Capítulo 3

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O corredor era estreito, as paredes tinham uma tinta descascando que demonstrava terem sido pintadas há muito tempo. No teto algumas fracas luzes florescentes que piscavam, quase se apagando.

- Onde diabos eu estou? – Perguntou Cristiane para si mesma, ouvindo seu próprio eco de volta. Estava com o corpo encostado na parede, na sua frente, apenas um vasto corredor estreito que não dava para saber onde daria. Abaixou-se e pegou o facão que apareceu do nada na sua mão e que havia deixado cair.

Deu o primeiro passo, cautelosamente, observando cada detalhe daquele corredor. As paredes descascadas, o chão de cimento com um pouco de poeira, o teto com teias de aranhas. De longe veio o eco de várias risadas, risadas de crianças. Sem perceber, começou a andar em direção as risadas.

Tem alguém ai? – gritou, sem obter nenhuma resposta. "Isso só pode ser um sonho" - pensou. À medida que ia acelerando seus passos ouvia que as risadas iam diminuindo e Cristiane, para alcançá-las, estava agora quase correndo.

Algumas das lâmpadas atrás dela se apagaram. Algumas duravam alguns segundos e logo voltavam a se acender, mas a maioria permaneceu apagada. Correu um pouco mais até o corredor se extinguir, dando origem então a um vasto salão todo iluminado por alguns lustres no teto, totalmente diferente do corredor mal iluminado que acabara de sair.

O salão era limpo e com o formato oval. Tinha as paredes pintadas de vermelho e o chão era todo no azulejo vermelho e amarelo. Do outro lado do enorme salão havia uma porta com uns desenhos nela gravados. Uma imagem de um homem segurando uma criança para entregar a um anjo. Cristiane Levou as mãos até a minúscula maçaneta e a girou.

Ao abrir a porta o som das risadas ficou maior. Cristiane entrou no cômodo, era uma sala de aula de primário. Desenhos de gatos e cachorros colados na parede. Mesinhas bagunçadas, cada uma com um par de mãos de criança pintada de diversas cores. A sala estava completamente vazia, mas mesmo assim, dava para se ouvir as risadas vindas de dentro dela. Cristiane começou a andar pela sala até perceber um caixote de madeira no canto da sala. Aproximou-se lentamente do caixote e viu que em cima da tampa, havia um bilhete escrito com letra de criança com os seguintes dizeres: PARA MAMÃE, COM AMOR.

Cristiane abriu a tampa devagar, o som das risadas aumentou a ponto de fazer Cristiane olhar para trás para se assegurar que estava realmente sozinha. Depois levou os olhos para o interior da caixa e congelou sem acreditar naquilo que estava vendo. No fundo da caixa uma poça de sangue quase totalmente coagulado. Mas não foi o sangue que congelou Cristiane, mas sim o que estava dentro do sangue: o corpo de uma criança.

A criança morta dentro da caixa aparentava ter uns dois anos de idade. Os olhos puxados e sem vida fixavam o teto. A face estava roxa e não tinha mandíbula, dando para visualizar perfeitamente os pequenos dentes superiores.

Cristiane deu um grito, e rodopiou seu corpo para trás. As risadas aumentaram com seu grito, como se ela fosse a personagem principal de uma peça infantil. Seu corpo caiu de joelhos no chão e a angustia daquela visão saiu de sua boca em forma de vômito. Soltou o facão que segurava e levou a mão até os cabelos para prendê-lo.

Quando finalmente terminou de vomitar, percebeu que as risadas haviam parado. Olhou para trás e para sua surpresa, pendurada na borda da caixa estava a criança morta. Cristiane arregalou os olhos, incrédula. A criança morta sem mandíbula fixava seu olhar para ela com aqueles olhos puxados e deu uma rápida piscada, mostrando para Cristiane que não estava totalmente morta. Depois deu um pulo para cima dela, como um gato sorrateiro atacando um rato encurralado.

Cristiane sentiu o peso daquela criança bater no seu peito, jogando seu corpo no chão vomitado, e foi então que se arrependeu de ter soltado o facão. O corpo da criança se debatia em cima do corpo dela, espalhando sangue por onde tocava. A criança emitia um barulho, como se tentasse chorar, enquanto seus pequenos dentes pontiagudos se pressionavam nos braços de Cristiane, deixando-o com marcas de arranhão. Cristiane segurou a criança com as duas mãos e a jogou contra a parede. Estava sentindo dificuldades de respirar, pois a criança exalava um forte cheiro de podridão. Tratou de ficar em pé e levou a gola da blusa para o rosto, tapando seu nariz.

A criança começou a correr pela sala, com os pés e as mãos apoiadas no chão, de forma tão ágil que Cristiane estava com dificuldade em acompanhá-la, então correu até o facão que havia deixado cair e o pegou de volta, ficando em uma posição de ataque.

A criança deu um salto do chão para cima de uma das mesinhas, ainda de quatro. Com dificuldade foi tirando as mãos e tentando se equilibrar sobre duas pernas. Cristiane pode ver que escorria sangue dos olhos daquela criatura. Sangue. Ela chorava sangue.

Quando enfim conseguiu se equilibrar, a criança morta gritou. Um grito fino e alto. O grito se espalhou pela sala de forma avassaladora e Cristiane teve que levar suas mãos com força para os ouvidos acreditando que aquele grito invadiria seu cérebro. A goela e as amígdalas, vistas pela falta de mandíbula, pulsavam visivelmente em um timbre vermelho e incansável, como se aquela criança jamais fosse parar de gritar.

O grito era alto demais, o cheiro era forte demais e Cristiane então se virou correndo na tentativa de alcançar a porta e sair daquela sala. Foi então que o grito parou. Do umbigo da criança um corte apareceu e de lá saiu um enorme cordão umbilical que foi com toda velocidade para cima da médica.

Cristiane que estava quase alcançando a porta sentiu algo prender seus pés e então não pôde mais correr. Seu corpo se desequilibrou e ela caiu com tudo no chão. Olhou para o cordão que amarrava seus pés. O cordão começou a voltar para dentro do corpo da criança, puxando Cristiane que gritava e se debatia na tentativa de se soltar. A criança então pulou para cima dela, ficando cara a cara com ela. Com as pequenas mãozinhas segurou seu rosto e levantou os dentes, mirando nos olhos da médica. Cristiane levou a mão que segurava o facão para frente do rosto e quando a criança desceu sua cabeça na tentativa de cegar sua vitima com seus dentes, sentiu o facão entrando pela sua boca.

Cristiane começou então a chorar, soltando o facão com a cabeça da criança presa. Chorou desesperadamente sem saber o que tinha acontecido. Foi quando escutou uma batida na porta. Olhou para a porta da pequena sala de aula esperando que alguém entrasse, mas ninguém entrou. Foi se soltando do cordão umbilical que prendia seus pés e, devagar, foi ficando em pé quando tudo ao seu redor escureceu.

Sua cabeça começou a doer e o som da batida na porta ficou mais forte. Fechou os olhos com força e foi sentindo a dor de cabeça sumindo. Abriu os olhos devagar e se deparou com uma foto do dia de seu casamento que ficava no porta retrato de sua sala ao lado da poltrona que estava agora. Levantou-se agitada. O roupão estava meio aberto.

"Foi apenas um sonho"

Sorriu aliviada. Aquela loucura tinha acabado. Escutou a batida na porta de novo e dessa vez a voz de um homem perguntando se havia alguém em casa. Levantou-se meio zonza. Sentiu seu braço queimando. Levantou a manga do roupão e viu que seu braço estava todo arranhado. Não conseguiu se lembrar aonde havia se machucado. Deixou para pensar isso depois. Ajeitou o roupão, caminhou até a porta e a abriu.

ParoníriaOnde histórias criam vida. Descubra agora