O resgate

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Cap. 41                              O resgate

Alexandra

Escolhemos as ruas mais escuras para evitar que Kai e Makani chamassem atenção, mas o quartel de Malie ficava do outro lado da cidade e levamos muito tempo até o local. Talvez se tivéssemos seguido pelo porto, economizássemos alguns minutos, mas o porto estava sempre iluminado e com trabalhadores noturnos.

Nos escondemos e observamos a área. O quartel de Malie ficava próximo ao mar e parte de suas muralhas era voltada para a baía e a frente para uma rua sem saída. Os guardas faziam a ronda na parte superior da muralha, sendo visíveis entre as ameias no parapeito. Tentei me lembrar do mapa do quartel que Briseu nos mostrou no mosteiro.

As muralhas tinham o formato de um hexágono, em seu interior uma construção retangular ocupava o centro do complexo. Era o alojamento dos soldados e também a cozinha. Ao fundo, colado a muralha que divisava as águas da Bae Môr ficavam as celas, onde eu esperava encontrar Soraya e Celandine.

__Vamos morrer! – Filipe disse, exalando com tristeza. __Vai ser difícil esse plano dar certo.

__Não vamos morrer! – falei com ele tentando animá-lo. __Só precisamos seguir o plano.

__Não gosto da ideia de você escalar a muralha.

__Eles não acreditariam em mim se me vestisse de soldado da guarda de Zorah. Só você pode fazer isso.

__Eu sei. – ele disse mais conformado.

__Vamos! Já é madrugada, precisamos sair da Malie antes que amanheça.

Olhei para os Aieshs, que se mantinham calados, somente suas orelhas pontudas moviam-se ligeiramente como a captar pequenos ruídos inaudíveis para mim e Filipe. Observei seus cabelos verdes, cortados curtos, arrepiando-se no alto da cabeça. __Prontos Kai e Makani? – eles assentiram movendo as cabeças em conjunto. Me voltei para Filipe que terminava de se vestir com o uniforme da guarda de Zorah e o beijei.

__Fique vivo! Ainda quero me casar com você. – disse-lhe ainda segurando seu rosto entre as mãos.

__Você também! – ele me disse com ar preocupado. Me afastei de cócoras acompanhando meus companheiros aieshs até o final da rua, sempre escondidos sob as árvores do pequeno bosque. Chegamos a borda do penhasco e lá embaixo, as águas da Bae Môr.

Respirei fundo duas vezes me preparando para a água fria e mergulhei, sendo seguida por Kai e Makani. O plano era escalar a muralha pela água, entrar na prisão pela passagem da ventilação, encontrar Celandine e Soraya e sair. Filipe deveria entregar a mensagem de Briseu e convencer Jordan a nos ajudar, mas se isso não fosse possível, nós deveríamos garantir a retirada das mulheres do complexo de qualquer jeito.

Nadamos em direção a muralha e subimos com dificuldade. Até mesmo para os aieshs foi complicado, pois as pedras molhadas não favoreciam a escalada. Escorreguei várias vezes e Makani me segurou com força e se ofereceu para me carregar.

__Obrigada, eu consigo. – repliquei.

__Não deve machucar suas mãos. – ele disse. __Pode precisar usar o arco. – ele apontou para minhas costas, a aljava e o arco presos ao meu corpo. Então assenti e me empoleirei em suas costas musculosas e logo chegamos ao ducto de ventilação.

Uma grade fechava a passagem e Makani me fez sinal para me agarrar a muralha e com suas mãos entortou o frágil metal, retorcendo-o até que se desprendeu da parede. Os ruídos sendo abafados pelo incessante ir e vir das ondas chocando-se com as rochas abaixo.

__Acho que dá para passar. – ele disse e se esgueirou pela abertura, como um gato passando por uma fresta, seu corpo se contorceu graciosamente.

Tirei a aljava e o arco e passei pela abertura e depois fiz o mesmo que ele. Kai nos seguiu, engatinhamos pelo ducto até encontrarmos uma abertura sobre uma antessala. Makani desceu em silêncio e estendeu os braços me ajudando a chegar ao chão. Preparei uma flecha no arco e olhei ao redor. Estávamos em um depósito com o que parecia ser material de limpeza. Abri a porta com cuidado e verifiquei o corredor. Estava escuro e silencioso, Kai aspirou o ar e apontou a direção. Estranhamente só havia um guarda diante da porta e ele estava sentado em uma cadeira, cochilando com a cabeça apoiada na parede. Nem ao menos viu o que o atingiu; Makani o acertou na cabeça e seu corpo escorregou para o chão.

Com a chave que estava presa ao seu cinto, nós abrimos a porta e chegamos às celas. Um prisioneiro ergueu a cabeça e fiz-lhe sinal para que fizesse silêncio. Eu o havia reconhecido da guarda de Zorah, treinávamos juntos. Me aproximei e vi outros.

__O que fazem aqui?

__O comandante de Malie nos prendeu quando nos recusamos a seguir suas ordens. No navio recebemos instruções para prender a anciã e a criança. Nos recusamos a cometer tal injustiça e fomos presos.

__Sabe onde ela está? A anciã? – perguntei enquanto abria a cela rapidamente.

__Não está aqui. Ela estava sendo mantida sob o efeito de uma droga. Acredito que esteja no prédio principal. – praguejei alto e Kai se voltou para mim com uma expressão de desagrado.

__Encontrei a outra mulher. – ele disse. Assenti e continuei a libertar os soldados explicando-lhes rapidamente o que pretendíamos fazer e eles disseram que nos ajudariam. Então me dirigi a cela onde uma mulher jazia de bruços sobre um colchão de palha. Suas roupas estavam rasgadas e suas costas estavam feridas, em consequência das chibatadas.

__Soraya? – chamei-a e ela se moveu devagar. Era a mesma mulher que vi em poder do Handariano, mas ela estava com uma aparência horrível. __O que fizeram com você? – perguntei aflita enquanto a ajudava a se erguer.

__Ele queria que eu dissesse onde estão os outros.

__Que outros?

__Minha família. Eles fugiram antes que fossem capturados. Eu fiquei para traz para que pudessem se esconder. Sabia que Caleb me seguiria e me salvaria. – ela falou com tristeza.

__Nós viemos ajudar. – ela sorriu brevemente.

Encontramos as armas dos soldados de Zorah e nos preparamos para sair da cela com Soraya. Pedi a um dos soldados que saísse com a mãe de Caleb pelo mesmo lugar que entramos, mas ela se recusou.

__Vou com vocês. Quero ajudar também.

__Não está em condição. – eu repliquei e ela sorriu.

__Não me conhece moça. Eu não estou tão mal assim que não possa segurar uma arma. 

Andirá - a vingançaOnde histórias criam vida. Descubra agora