Cap. 43 Dor e morte
Vic
Logo que chegamos a mansão do ancião, senti um calafrio percorrer minha coluna. Um sentimento de opressão tomava conta de mim, Ekualo farejava o ar e suas orelhas moviam-se inquietas.
__O que está ouvindo? – perguntei um tanto preocupada.
__Sinto o cheiro dos Handarianos, mas não ouço nada.
__Também estou sentindo algo diferente. – apontei o muro e Ekualo tomou a frente, escalando-o em meio as folhagens. Na época de Caleb como comandante, aquele muro jamais havia ficado daquele jeito. Estava fácil demais.
Encontramos a abertura por onde Briseu havia escapado e eu também, antes dele, em um tempo nem tão distante. Caminhamos abaixados até a masmorra e o senti. Senti a energia marcante de Caleb, achei que fosse chorar. Corri aos tropeços pela masmorra até sua cela, não haviam guardas, só a escuridão e o cheiro acre de sangue e excrementos. Agarrei as grades sem compreender aquela forma jogada ao chão.
__Vic?! – ouvi a voz de meu irmão Gabriel.
__Biel! – me aproximei de sua cela e o vi. Seu rosto estava marcado por hematomas.
__Vic, deve partir. É uma armadilha! Ouvi Michel dizer...
__Eu vou tirá-los daqui. – disse interrompendo-o, sem tempo para ouvi-lo. Usei de meus poderes e abri as trancas das duas celas e Gabriel veio até mim e me abraçou. Ekualo entrou na cela de Caleb e tocou em seu queixo erguendo o seu rosto. Caí de joelhos e segurei seu rosto entre as mãos. __Caleb! Caleb! Por favor, fale comigo!
__Michel tem aplicado algo nele. Algum tipo de droga, o deixa confuso e sem condições de usar seus poderes. – Gabriel explicou ao nosso lado.
Procurei suas mãos e estavam presas em grilhões de metal, que arranquei com o passar de minhas mãos. Caleb tombou sobre mim, o abracei e chorando fiz com que o veneno fosse extraído de seu corpo do mesmo modo que fiz com os Aieshs na floresta. Caleb voltou a si devagar após alguns momentos angustiantes, com Ekualo me lembrando minuto a minuto que precisávamos sair.
__Precisamos sair agora Vic.
__Ele ainda não pode sair, não desse jeito.
__Eu posso carregá-lo. Não podemos permanecer aqui por mais tempo. – o arrastei para fora da cela e no corredor da masmorra o segurei em meus braços como a um bebê.
__Eu sei, mas ele precisa recobrar a consciência primeiro. - acariciei seu rosto machucado até que os ferimentos se suavizassem. Beijei seus lábios devagar.
__Vic! É você mesmo? – ele me encarou confuso.
__Sim, sou eu. Eu estou aqui, nós vamos embora.
__Não, não deveria estar aqui. Michel... Michel enlouqueceu...
__Nós viemos buscá-los. – reparei que o colar com a pedra que Andirá o presenteou havia sumido, coloquei o meu colar em seu pescoço e o ajudei a se levantar e nesse momento ouvi o silvo de Ekualo, o Aiesh se colocou em posição de ataque.
Vi a luz de uma tocha clarear as paredes e as escadas devagar. Não havia mais tempo para fugir, Michel surgiu diante de nós e sorriu.
__Que comovente! A bela alienígena e seu amante, ambos invasores nesse planeta. Só me pergunto qual dos seus homens escolherá salvar. – me ergui devagar, pronta para explodir sua cabeça. Quando vi Max subjugado por um Handariano, logo atrás de Michel. Meu coração parou por alguns momentos.
"__Maxine está com Nahele." – Max enviou-me a mensagem mental, me tranquilizando em parte.
"__Você está bem?" – o perguntei preocupada.
"__Não se preocupe comigo." – ele disse, mas percebi que algo não estava bem. Porém a escuridão ao redor do halo de luz da tocha não permitia que enxergássemos com clareza.
__Sugiro que me acompanhe, - Michel continuou falando __e sem truques, ou seu amado esposo sofrerá as consequências. – ele riu um risinho cheio de sarcasmo.
Ekualo voltou a sibilar e eu toquei em seu braço e fiz um gesto para que se acalmasse. Ele e Biel ajudaram Caleb a se levantar e subimos os degraus com dois Handarianos nos escoltando. Tentei enviar um pouco de minha energia para Caleb, ele precisava melhorar o mais rápido possível, minha esperança era de que Andirá o ajudasse através da minha pedra.
Caminhamos por um tempo pelos corredores da mansão, até que chegamos ao pátio interno, onde costumava treinar com Caleb quando vivi aqui em Malie. Logo vi os Handarianos com suas armas, haviam uns quinze soldados e sorriram ao nos ver chegar. Olhei ao redor, procurando uma rota de fuga. Será que conseguiríamos descer pelo muro? Voltei a encarar Michel e Max, que era mantido sempre atrás pelo guarda, ele parecia um tanto cambaleante. Foi quando notei sua roupa suja de sangue, ele estava ferido, muito ferido. Dei um passo para frente instintivamente e Michel fez um gesto para que eu parasse.
__Quietinha aí, Bruxa!
__Vic, não faça nada estúpido. – Max disse em voz alta.
__Está ferido! – afirmei. __Preciso curá-lo.
__Não vai fazer nada! – Michel falou com autoridade. __Não percebeu ainda que está em minhas mãos? – Um dos Handarianos se aproximou dele e lhe falou com rispidez.
__Dê-nos a nossa parte. – o Handariano falou com seu sotaque cheio de estalidos. __Fizemos o que pediu, perdemos muitos homens.
__Eu sei, eu sei. Serão recompensados. Vocês terão a bruxa.
__O trato era levar a cria dela junto. – senti meu corpo tremer e tenho certeza que meus olhos cintilaram ao ouvi-los mencionar minha filha.
__Sim, sim. – ele respondeu impaciente. __Mas terão que esperar um pouco mais. Ela não deve estar longe. Parece que está com um dos selvagens dos Meiavis.
__Deixe minha filha em paz! - eu gritei e Michel voltou sua atenção para mim e riu.
__Eu volto a sugerir que se acalme, não queremos que ninguém se machuque. Ou queremos? – o soldado Handariano que mantinha Max cativo o atingiu no ferimento em suas costas e ele gemeu dobrando o corpo de lado.
__Pare! Liberte todos eles e eu ficarei aqui. Faço o que quiser.
__Não quero nada de você. – ele desdenhou. __Talvez, seu sofrimento. Mas quem eu quero ver sofrer de verdade é Caleb.
Olhei angustiada para Caleb, que se mantinha apoiado em Ekualo, com o rosto voltado para baixo. Então senti um forte poder emanando dele e a pedra, que descansava em seu peito brilhou. Caleb ergueu-se de súbito e atingiu vários Handarianos fazendo-os chocar-se contra as paredes de pedra. Ekualo avançou sobre os outros dilacerando suas gargantas. Foquei em Max, eu queria chegar até ele para curá-lo. Neutralizei o soldado que o segurava e quando estava quase chegando até ele, algo aconteceu. Michel apontou a arma para Caleb, que ainda agia sobre os Handarianos, eu não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Michel disparou e Max se interpôs, salvando Caleb, suas mãos tocaram o peito ensanguentado, ele me olhou e o brilho de seus olhos lilases se apagou.
__Nãããooo! – minha garganta se fechou com meu grito, pulverizei os Handarianos restantes juntamente com os soldados de Malie que seguiam Michel. Mas não ele, não Michel, eu queria confrontá-lo, eu queria olhar em seus olhos quando o matasse. Corri até Max e o segurei em meus braços. __Não, não, não me deixe! Por favor, não me deixe. Max...
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Andirá - a vingança
FantasyVic está feliz vivendo em Lenora com Max e sua filha Maxine. Quando recebe a notícia de que sua família na Terra será alvo da vingança de seus inimigos. Enquanto está de volta a sua casa, com Caleb, descobre que tudo não passou de um plano dos Handa...