Cansado

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Poderia ter sido mais um dia qualquer em que Shotaro ficava apenas em silêncio, trancado em seu quarto e só sairia para dizer bom dia para seus pais, comer, para depois voltar e à noite ir para escola.

Ele pensava que nenhum de seus pais iria notar suas feições cansadas e seus olhos pesados. No entanto, quando estava quase pronto para sair de casa, sua mãe o chamou no andar de baixo, dizendo que precisavam conversar.

Estavam sozinhos em casa, seu pai deveria estar saindo do trabalho, mesmo sabendo que ele não iria direto para casa. Shotaro já tinha se acostumado com aquela ausência do pai nas últimas semanas. Ele sabia que o homem chegava tarde em casa e duvidava que era por causa do trabalho. Em algumas dessas vezes, o mais velho chegou bêbado e arrumou motivos para discutir com sua mãe, um desses motivos sendo o garoto.

Sua mãe tinha que suportar ouvir o marido falando de Shotaro, mas agradecia pelo filho ir para escola mais cedo nesses momentos.

Era muito difícil superar uma perda. Os pais de Shotaro faziam questão de mostrar o quanto o luto estava presente pelo resto de suas vidas. Aceitar o que aconteceu não parecia ser uma opção naquela casa. Como não podiam fazer justiça com quem deveria, aquela dor psicológica era descontada na pessoa que também fora vítima do ocorrido.

O mais novo não sabia mais como aguentar aquelas acusações diretas e indiretas vindo da própria casa. Ele preferia se fechar em seu próprio mundo, mas lá dentro também estava uma confusão. Não sabia qual foi a última vez em que pensou apenas em si próprio. Todas as suas decisões no momento foram pensando em outras pessoas. Chegou a se questionar se essa sua mania de querer resolver todos os problemas só acabava piorando ainda mais as situações.

Enfim, quando ouviu que sua mãe o chamava, tratou de ir rápido ver o que ela queria. A encontrou na sala, sentada no sofá e parecia que estava lendo algum livro, pela presença de seus óculos.

- A senhora me chamou?

- Sim, filho. Se sente aqui do meu lado – pediu, apontando para o espaço vazio no sofá. Assim que o garoto se acomodou ao seu lado, ela respirou fundo antes de continuar. – Eu venho percebendo que você parece estar perdido toda vez que chega em casa. Parece não saber onde está ou o que vai fazer.

- Ah... Não é nada demais – sorriu minimamente, tentando a convencer de que não estava acontecendo nada de errado consigo. – Não precisa se preocupar.

- Eu apenas quero te alertar que é melhor não se mostrar desse jeito na frente do seu pai.

O mais novo dali já imaginava que a preocupação não era apenas pelo o que ele estava sentindo. Sabia que sua mãe tentava fazer com que não houvessem mais discussões por sua causa, mas ele também estava em um momento em que precisava do apoio de alguém.

Já se segurava para não desabar em lágrimas quando parecia incapaz de resolver algo e agora teria que esconder suas expressões também?

- Mas não posso controlar totalmente o que estou sentindo. Eu faço muito tentando não chorar ou gritar quando vocês se mostram não se importar comigo – Shotaro não se aguentou e acabou dizendo aquelas coisas que, há tempos, evitou dizer a um deles. – Nenhum de vocês dois faz ideia de como está minha cabeça nesses últimos meses. Como só percebeu algo de errado agora?

Queria poder dizer mais coisas para sua mãe, como um modo de desabafar o que sentia, mas foi interrompido por um barulho de porta se fechando. O garoto não percebeu seu pai chegando, então congelou quando viu que ele estava em casa mais cedo.

A mãe de Shotaro se levantou, tentando contar qualquer outro assunto para seu marido, mas o mesmo tinha sua atenção voltada para o filho. O mais novo já se preparava para a mesma discussão de sempre. Tentou sair dali e ir direto para escola, mas seu pai o impediu.

- Você fique aqui. Não vai sair agora.

Shotaro buscou não dizer nenhuma palavra que fosse piorar a situação. Tentaria apenas ouvir o que seu pai diria e depois sairia.

- Diga o que está acontecendo com você fora de casa para te deixar dessa maneira – o mais velho da casa se pronunciou novamente.

Surpreso com aquela pergunta, Shotaro pensou no que poderia dizer naquela hora. Um medo tomou conta de si, quando procurou palavras para explicar o que se passava com ele.

Então, o garoto desistiu de tentar contar a verdade.

- Não quero preocupar vocês. Prometo que vou resolver tudo.

Só aquilo bastou para seu pai rir desacreditado e negasse com a cabeça.

- Eu sabia que não iria contar. Está na cara que você fez algo de errado e quer consertar antes que descubramos. Foi a mesma coisa de anos atrás.

Não sendo o bastante, seu pai foi capaz de mencionar aquele triste e trágico dia, mais uma vez o colocando como o culpado da história.

Dessa vez, Shotaro decidiu não ficar calado.

- Estou cansado de ouvir e sentir tudo sendo jogado em cima de mim, principalmente porque vocês fazem o possível para nunca acreditarem no que eu digo. Eu preferia ter ido no lugar da minha irmã para não ter que viver esse inferno todos os dias.

Após dizer isso, Shotaro correu para seu quarto, pegou sua mochila e saiu de casa sem olhar para seus pais. Quando estava distante, não impediu suas lágrimas decaírem. Ele não sabia como iria se manter bem na escola naquela noite, mas era melhor do que voltar para casa. 

Young and Pure - SungtaroHistórias para pegar e não largar. Descubra agora