Eu andava de um lado para o outro, impaciente, estava do lado de fora da cadeia, próxima ao meu carro e cada vez que aquele portão se abria, meu coração acelerava, e se acalmava quando não era o Vitor que saía por ali, meu Deus, por que era tão burocrático?
O sol já estava se pondo quando o portão se abriu e finalmente eu vi ele, o Vitor, o meu Vitor, livre! Feliz! Sem pensar nem meia vez, corri até ele e me joguei em seus braços, como se eu tivesse passado esses longos anos sem vê-lo, mas era assim que eu me sentia e agora finalmente estávamos juntos, sem hora marcada para nos separarmos.
Nos afastamos do abraço o suficiente para nos beijarmos até perdermos o fôlego, logo ficamos com nossas testas encostadas e de olhos fechados.
Maria Pia: Você tá livre, meu amor! - Ao abrir os olhos vi o sorriso mais lindo, o sorriso que Vitor esboçava cada vez que eu o chamava de "Meu amor" ou dizia que o amava.
Vitor: Sim…- Disse ainda ofegante -...Vem, vamos sair logo daqui!...- Pegou minha mão e entramos no carro -...Você trouxe meu celular? - Perguntou ansioso, antes mesmo de eu dar partida.
Maria Pia: Sim, mas que pressa é essa? Quer ver como estão suas redes sociais?...- Ri, enquanto entregava o celular pra ele que pegou rapidamente, parecendo nervoso -...Vitor! O que foi? Você tá me escondendo alguma coisa? - Perguntei preocupada.
Vitor: O que?...- Finalmente tirou os olhos do celular, encontrando os meus, desconfiados -...Não, é...Eu só quero avisar pro Agnaldo, pro Júlio, pra…- O interrompi.
Maria Pia: Ah não, Vitor! Eu adoro os seus amigos, mas não dá pra vocês marcarem a festinha pra outro dia não? Hoje eu queria ficar sozinha com você. - Me aproximei dele.
Vitor: Eu também quero…- Me deu um selinho -...Só vou avisar eles, não vamos marcar nada não. - Voltou a atenção ao celular e eu dei partida, rumo ao nosso cafofo, o trânsito colaborou e não demoramos muito para chegar até lá, ao abrir a porta, fiquei surpresa.
Eu entrei devagar e Vitor logo atrás de mim, mas não parecia tão surpreso quanto eu, a primeira coisa que notei foi a mesinha de centro posta para dois, decorada em bordô e branco, no centro dela havia um delicado e pequeno bouquet, ao lado dele duas velas pequenas e em volta da mesinha tinham duas grandes almofadas. Na bancada da cozinha havia um bouquet grande e ao lado uma garrafa de vinho, junto a duas taças.
Maria Pia: Vitor…- Com as mãos sobre o rosto, me virei em sua direção -...O que é isso? - Comecei a rir de nervosismo, enquanto Vitor sorria.
Vitor: Eu tenho os meus contatos...- Tirou seu celular do bolso, imediatamente entendi o que ele queria tanto falar com seus amigos -...Bom, eu vou tomar um banho pra me "desinfetar" daquele lugar…- Disse indo até o guarda roupa -…E você recebe o jantar que daqui a pouquinho tá chegando, é só receber, já tá pago. - Me deu um selinho e foi em direção ao banheiro, me deixando ali, ainda confusa, fui até a cama e vi que ela estava com lençóis brancos e pétalas de rosas vermelhas, em outro momento eu acharia isso tão brega e clichê, talvez Vitor também, mas ri de mim mesma ao perceber que eu estava emocionada diante daquele cenário.
Logo o jantar chegou, eram três embalagens, uma era pizza, a outra uma caixa de bombons de cereja e a terceira eu não consegui identificar, antes que eu abrisse a embalagem Vitor saiu do banheiro vestindo uma camisa social branca e uma calça jeans.
Maria Pia: Ok, tá tudo muito estranho.
Vitor: O que foi? - Perguntou enquanto penteava o cabelo em frente ao espelho.
Maria Pia: Você tá muito arrumado pra comer pizza, bombom e uma coisa que eu ainda não sei o que é, aqui no cafofo. - Vitor olhou para a embalagem em cima da bancada, em seguida pra mim e começou a rir daquele seu jeitinho único.
Vitor: Você tá muito desconfiada hoje, ein garota! Só quero ficar ajeitadinho, não aguentava mais usar aquele uniforme horroroso, queria trazer ele só pra tacar fogo naquilo. - Rimos.
Maria Pia: Não vamos mais pensar nisso…- Me aproximei dele -...Vamos deixar aquele lugar no passado. - Suas mãos me puxaram levemente pela cintura, enquanto as minhas pousaram em seu peito, nos beijamos, mas logo ele interrompeu o beijo.
Vitor: Vamos comer?...- Disse indo em direção a bancada, enquanto eu fiquei paralisada por uns segundos, tudo bem que ele devia estar com fome, mas achei estranha a sua atitude e ele parecia nervoso, "Calma, Maria Pia, talvez você esteja ansiosa demais", disse a mim mesma mentalmente -...Você viu o que é isso aqui? - Indicou a embalagem ainda fechada, que logo foi aberta, revelando…
Maria Pia: Legumes cozidos?...- Vitor começou a rir -...Que palhaçada é essa, Vitor? - Minha dieta não estava mais tão restritiva, era moderada, graças ao amor e cuidado de Vitor, eu não era mais tão cruel comigo mesma, quando ele tinha suas saídas temporárias eu comprava ou fazia os pratos mais gostosos pra nós, as coisas que ele não podia comer na cadeia.
Vitor: Você não percebeu? Estamos relembrando os velhos tempos aqui no cafofo, a pizza, os bombons, as flores, mas também fomos bem felizes comendo legumes e saladinha né?...- Assenti e logo rimos...Sim, estávamos rindo de tudo, estávamos bobos, felizes como nunca -...Mas eu tô te zoando, não é pra comer isso não, não precisa! Você tá maravilhosa, como sempre! - Sorrimos e antes que o clima esquentasse, Vitor começou a servir a pizza e o vinho.
…
Maria Pia: Mas, me conta...Como você armou tudo isso? - Já estávamos sentados em volta da mesinha, comendo pizza e bebendo vinho.
Vitor: Júlio, Agnaldo e Sandra Helena me ajudaram, eles ficaram na rua vigiando, aí quando você saiu eles entraram. - Disse tranquilo.
Maria Pia: Como assim entraram? Eu tranquei a porta! - Vitor riu do meu desespero.
Vitor: Calma…- Acariciou minha mão que estava sobre a mesa -...Na minha última saída no semi-aberto eu arrumei uma chave pra eles, aí combinamos tudo, hoje eu te pedi o meu celular pra eu avisar a eles que já podiam pedir o jantar, se eles trouxessem antes já podia estar frio quando chegássemos.
Maria Pia: Ah tá...Entendi…- Comecei a rir e Vitor me olhou confuso -...Esse seu cafofo foi sempre assim né? Entra quem quer e sai quem pode. - Continuei rindo, mas Vitor ficou sério.
Vitor: Na verdade entra quem quer e sai quem quer também…- Parei de rir e olhei pra ele, curiosa -...Porque você não podia sair daqui e me deixar sozinho, mas você fazia isso. - Meu sorriso se desfez.
Maria Pia: Nem fala, você não tem ideia do quanto eu me arrependo por ter feito isso, agora eu sei como dói…- Levantei a cabeça, tentando conter as lágrimas que se formaram em meus olhos -...A propósito...Eu é que tinha que ter feito uma recepção assim pra você né? E não o contrário.
Vitor: Ah, não é nada demais, na verdade eu queria te oferecer um banquete em um lugar mais chique, mas...Achei que isso aqui fosse mais a nossa cara, mais apropriado pro momento.
Maria Pia: Como assim "momento"?
Vitor: Esse momento aqui, a gente, no cafofo, porque depois vamos pra Búzios né? Esse momento é quase como uma despedida desse lugar. - Olhei em volta, não queria me despedir daqui tão cedo.
Maria Pia: É, não vai ser fácil me despedir daqui, esse pequeno lugar foi onde pela primeira vez na vida pude ser eu mesma, me senti livre, feliz e amada de verdade...- Sorrimos, mas ele logo desviou o seu olhar, em direção ao pequeno bouquet que estava em cima da mesa, como se estivesse procurando alguma coisa ali -...O que foi?...- Vitor continuou olhando para o bouquet, o que há com esse homem hoje?... - VITOR! - Gritei, o acordando.
Vitor: Hã? O que?
Maria Pia: Você tá muito estranho, ein, aquele lugar afetou sua mente mesmo...- Me ignorando, Vitor levou sua mão até o bouquet, pegou uma coisa que estava no meio dele e tentou esconder em sua mão, mas consegui notar que parecia ser uma caixinha, será que?...Ah não, não pode ser! Vitor levantou e estendeu sua mão para que eu a segurasse, ele parecia nervoso, então me levou até o sofá onde sentamos um de frente para o outro -...Vitor, eu tô ficando nervosa. - Ri, literalmente de nervoso, mas não tão nervosa quanto Vitor parecia estar. Ele ficou acariciando minha mão por alguns segundos e logo seus olhos encontraram os meus.
Vitor: Ok, eu...Eu ensaiei isso várias vezes na minha mente, eu só não imaginei que eu poderia ficar tão nervoso…- Rimos, eu já sentia meus olhos marejados, será que estava acontecendo mesmo o que eu estava imaginando? -...Durante o tempo que passei naquele lugar, eu pensei em muitas coisas, pensei na minha vida, no meu passado, meu presente e no meu futuro, aconteceram muitas coisas, você sabe, eu fiz planos, estamos construindo o nosso resort…- Ele sempre se referia a tudo como se fosse nosso, “nossos dólares”, “nosso cafofo”, “nosso resort”, Vitor sempre fazia questão que eu tivesse certeza de que realmente pertencia a sua vida -...Mas em tudo o que eu pensava, que eu desejava, que eu sentia saudades, havia uma coisa em comum: Você! Eu posso me tornar o cara mais rico e poderoso do mundo, posso superar todos os meus traumas e morar no lugar mais incrível, mas NADA disso vai valer a pena se eu não olhar pro meu lado e ver você ali comigo, linda, sorrindo, exatamente assim como você está agora…- Deixei uma lágrima cair livremente -...E isso sempre foi tão claro pra mim, eu não posso dizer o momento exato em que eu me apaixonei por você, eu só sei que primeiro veio uma vontade de te proteger, de estar perto de você, e eu me sentia tão bem ao seu lado, eu sentia uma paz quando você vinha pra cá, mesmo que você ficasse só falando do Eric, e eu não me importava de dormir nesse sofá e acordar com dor nas costas, se você estivesse bem, eu ficava bem!...Hoje eu sei que eu nunca estive preso a você por causa da chantagem, por causa dos “favores” que trocamos, mas sim porque você me fazia bem, como há muito tempo ninguém fazia, a última pessoa que havia feito eu me sentir assim, foi a Mônica, mas ela me traiu, posso dizer que ela me deixou traumatizado, e isso poderia fazer com que eu te afastasse na tentativa de ME afastar de você quando eu percebi que poderia estar me apaixonando, mas eu não conseguia, eu só sentia vontade de te consolar, te proteger, fazer você se sentir à vontade, fazer você se sentir valorizada e linda, como você sempre foi!...- Deu uma pausa, para respirar, seus olhos já estavam vermelhos -...Eu sempre quis ter você ao meu lado, era pra ser assim, a minha vida não tinha sentido se não fosse de outra forma, por isso que eu não conseguia fugir, porque...O que eu ia fazer? Ia fugir...Usar meus dólares…e? E o que mais? E depois? Eu só não me arrependo desse roubo, porque ele me trouxe você!...- Assenti, tentando secar as lágrimas sem borrar a maquiagem, Vitor pareceu pensativo por uns segundos, logo balançou a cabeça em sinal de negação -...Antes de você, eu era um cara frio, por causa da Mônica, por causa do meu...do Timóteo, enquanto ele ferrava com a vida das pessoas só para ter dinheiro, eu vi a minha mãe ficar doente e morrer sem nada, eu me formei, trabalhava em um hotel luxuoso e tudo o que eu tinha conquistado era esse lugar…- Olhou em volta -...Então eu me revoltei, me fechei, eu fazia coisas antiéticas, eu enganava hóspedes, eu roubei o Hotel, por raiva, rancor, por não ter mais nada a perder, o pouco amor que eu já tinha tido na vida, eu perdi, então…- Deu de ombros -...O que me restava?...Até que uma mocinha bem debochada, chantagista e cheia de atitude entrou pela minha porta…- Rimos -...Você mudou a minha vida de uma forma que você nem imagina, você salvou a minha vida!…- Disse com a voz embargada, solucei, deixando as lágrimas correrem livremente, já não me importava com a minha aparência, se a minha maquiagem estava borrada e sabia que Vitor também não.
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Me espera
Fanfiction"Me espera" Esse é o nome de uma música interpretada por Sandy e Tiago Iorc, mas foi escrita por Sandy e seu esposo Lucas, em uma entrevista eles falaram que escreveram essa música em um momento do casamento em que os dois estavam um pouco distantes...
