C A P Í T U L O 1

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SAFIRA IVANOV SOROKIN
ATUALMENTE, 18 ANOS

            Acordei sobressaltada, olhando ao meu redor esperando ver as ruas e a chuva, mas ao invés disso eu estava em meu quarto

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            Acordei sobressaltada, olhando ao meu redor esperando ver as ruas e a chuva, mas ao invés disso eu estava em meu quarto.
            Fiz esforço me levantando e levei os dedos até meu nariz: não estava doendo. Peguei meu punho: nada dolorido ou quebrado aqui. Ainda estava com as mesmas roupas, minhas botas do lado da cama como sempre deixava, peguei-as rapidamente checando se minha faca ainda estaria ali suja de sangue, mas estava intacta.
            Não fazia sentido.
            A última memória que eu tinha era de ser arremessada contra uma parede e desmaiar em seguida. Me lembrava do sangue escorrendo do meu nariz. Da tortura e dor aguda de quando o homem misterioso bateu minha cabeça contra o chão. Tudo aquilo tinha acontecido, não poderia ter sido um sonho.
             Me levantei andando rapidamente pelo corredor enorme e descendo as escadas em direção a sala, estava vazia, andei em direção a cozinha e entrei na enorme biblioteca, mas tive o mesmo resultado. Meu coração começou a bater mais rápido, fui em direção aos fundos vendo as roupas penduradas e antes que eu me desesperasse, vi minha mãe sentada em uma cadeira ao ar livre, com as lobas aos seus pés.
            Ótimo, ao menos isso estava normal.
— Por um segundo achei que todos tinham sumido de casa. — disse assustando minha mãe, coloquei um sorriso fraco no rosto com sua reação. Mischa veio em minha direção, e eu a peguei no colo como se fosse um bebê, só que enorme e pesado. — Eu... acabei dormindo muito, não lembro de ter chegado em casa. — menti.
— Você chegou dizendo que estava exausta e precisava descansar, Mischa ficou uma hora chorando na sua porta até desistir de tentar. — dei um beijo nela como pedido de desculpas, que me recompensou com lambidas no nariz.
— Então eu não disse nada além disso?
— Nada.
— Tomou seus remédios hoje? — perguntei mudando de assunto e me aproximando de minha mãe. — Se não tiver comido, posso fazer um prato pra você.
— Não estou com fome, me sinto enjoada. — minha mãe fez uma careta como se fosse vomitar.
— Eu entendo, mas você precisa, ao menos um pouco. Quando não come se sente fraca, e pode acabar se machucando. Vamos entrar.
          Coloquei Mischa no chão, peguei rapidamente Yelena, lhe dando um beijo na cabeça e colocando de volta no chão. Enquanto minha mãe estava sentada na sala, arrumei sua comida e levei pra ela. Assim que viu o prato que não estava cheio, fez uma careta prestes a brigar, fechei a cara não dando espaço para isso e lhe entreguei o prato junto com suco.
            Eu poderia ser dura, e quase nunca mostrar meu lado mais sensível pra ela, mas me importava do mesmo jeito. Ela só não entendia isso ainda.
            Subi as escadas e passei pelo corredor com esculturas e quadro, andei até o quarto do meu avô, estava escuro, mas assim que fiquei de frente a porta aberta no corredor, ouvi sua voz me dizendo que estava acordado. Não acendi a luz, apenas andei pelo quarto e assim que cheguei próximo a cama, me deitei na mesma ficando mais próximo dele, lhe dando um beijo na bochecha e um abraço.
— Zhdat´kodo-to, dedushka? — perguntei em russo se ele esperava alguém. Eu não fui uma criança que se interessou muito em aprender outra língua, mas me esforçava ao máximo agora. — Acho que perguntei certo dessa vez.
— Foi belíssima, Malêncha. — ele beijou o topo da minha cabeça, igual fazia quando eu era pequena. — Estava pensando como seria essa mansão se não tivesse você e sua mãe. — sua voz saiu melancólica, quase como se quisesse chorar. — Penso que ainda dá tempo de eu ver este dia chegar, vê-las partindo e me deixando aqui.
— Sabe que isso nunca aconteceria Dedushka, mamãe só está preocupada. Sei que é mais fácil ela me abandonar, do que abandonar você. — tentei dar uma risada fraca. — Não pense nisso, vou cuidar de vocês dois, e isso inclui deixar vocês dois juntos. Prometi isso para o senhor antes, e prometo novamente agora.
— Você também não está bem.
— Não preciso estar bem para fazer o necessário. Não se preocupe, eu dou um jeito! — me levantei tocando a ponta de seu nariz e dando um sorriso. — Agora continue descansando. — lhe dei um beijo na testa e sai do quarto.
          Fechando a porta do meu quarto, pude sentir o peso nos meus ombros pesar ainda mais. Não tinha me permitido pensar no que tinha acontecido hoje, até ficar sozinha. Mas agora que estava, não sabia o que pensar.
             Ninguém tinha me trazido para casa, eu voltei e ainda "conversei", dizendo que estava cansada e precisava dormir.
             Não me lembrava de nada disso.
             Meu corpo deveria estar cheio de roxos e contusões, mas levantando a minha camisa, não via absolutamente nada disso. Estava perfeitamente normal. Meu estômago girava e o quarto também, corri para o banheiro e vomitei.
             A perda de tempo não acontecia comigo há alguns anos, mas o homem de hoje não era alucinação. Em alucinações você não tem o nariz quebrado, ou é arremessada contra uma parede. Você só vê e ouve coisas.
            Talvez eu estivesse realmente enlouquecendo, e só não tinha percebido isso ainda.
            Esqueci o assunto, não importava. Deixaria isso passar, não aconteceria novamente e se contasse a alguém provavelmente teriam a impressão de que estou mentindo, eu também teria essa impressão. Tranquei a avalanche de sentimentos que sentia, precisava me acalmar o mais rápido possível, então usei uma antiga tática.
            Me deitei no chão, o dia poderia estar quente, mas o chão estava frio. Deixei que o frio ficasse contra a minha pele até que eu não sentisse mais nada. Gostava desses momentos.
            Quando comecei a ter ataques de pânico e de ansiedade, recorria a cubos de gelo, eles ficavam em minha mão até derreterem, mas eu ficava muito inquieta para conseguir me concentrar na sensação para me acalmar. Então comecei a deitar no chão.
             No começo era somente eu sentada no chão do banheiro me forçando ao máximo a engolir o choro. Depois eu deitava encolhida no chão com fones no ouvido e fingia que as brigas que me faziam ficar trancada no banheiro por horas não tinham acontecido, era somente drama da minha cabeça, mas a ilusão acabava rápido, e a realidade era esmagadora.
              Fiquei a noite toda daquele jeito, não tive forças para levantar e agradeci por ninguém além de Yelena e Mischa terem ido até o quarto. Quando tentei abrir meus olhos tudo estava escuro, o quarto parecia ter sido engolido pela escuridão pouco a pouco, e mesmo que eu tentasse respirar fundo, percebia que já estava hiperventilando.
            Olhei na direção que deveriam estar as janelas, mas ao invés de achar a vista do céu, só enxerguei escuridão.
            Pessoas depressivas tendem a ficar em lugares escuros o maior tempo possível. Podem passar dias trancadas em um quarto, totalmente na escuridão, apenas sentindo o tempo passando. No começo eu era assim, agora ficar trancada em um lugar totalmente escuro me fazia sentir sufocada. Como se tivessem me trancado em um armário no subsolo, e jogado a chave fora.
             Meu peito subia e descia cada vez mais rápido, as paredes que não conseguia ver, apenas sentir ao meu redor, pareciam estar fechando a cada momento.
— Por favor, levante! — fiz esforço para respirar. — É apenas a sua cabeça!
         Briguei comigo mesma enquanto tentava me levantar cambaleando, meu corpo queria somente cair e voltar para o chão. Se enrolar como um filhote prestes a voltar para o útero da mãe, e depois de um certo, ponto eu deixei.
             Cai sentada.
             Olhando para a escuridão enquanto lágrimas desciam e molhavam minha camiseta. E fiquei daquele jeito por um bom tempo, com um medo enorme, mas mesmo que eu quisesse não conseguia me mover para tentar abrir a porta e andar pelo corredor.
             A escuridão tinha me aprisionado naquele lugar e eu não teria ajuda alguma.

⤿❜☾︎⋆໋𝕸𝗬 𝕾𝗛𝗔𝗗𝗢𝗪ᵎ・῾ (+18)Onde histórias criam vida. Descubra agora