Em meia hora de viagem, já havia perdido a conta de quantas vezes sentira minha consciência escorrer por entre os dedos, independente do quanto eu tentasse me agarrar a ela.
No início, enquanto a adrenalina do combate ainda queimava nossas veias, Samuel tentou insistentemente falar comigo para me manter acordada. Questionava como eu me sentia ou pedia ajuda com o caminho, mas sinceramente eu pouco conseguia contribuir além de me esforçar para manter os olhos abertos.
O sol nascia em um horizonte de aquarela alaranjado enquanto todo o cansaço da noite em claro finalmente esmagava meus ossos, intensificando a dor dos machucados. Tentava ficar imóvel para ao menos diminuir as pontadas agudas, mas nem isso amenizava a dor incessante nas minhas costelas. Mesmo o simples ato de falar doía — mas tampouco foi por isso que eu não respondi às perguntas de Samuel.
— Para onde minha mãe falou que iriam, Rebeca?! Você acha que devemos ir para o hospital? — Samuel perguntou, mas manteve os olhos lacrimejantes na estrada.
Não sabia se era uma pergunta genuína ou ele apenas estava tentando se controlar, mas ambos tínhamos ciência de que estávamos indo para o lado contrário — o caminho em direção ao hospital estava bloqueado pela multidão de zumbis. Não respondi, porque nada que eu falasse nos ofereceria qualquer esperança.
Após perguntar, em meio aos prantos, se eu tinha certeza que seu pai não tinha conseguido sobreviver (dessa vez, olhando nos meus olhos) e eu responder apenas com um aceno de cabeça, seus questionamentos aos poucos cessaram. Observei a postura tensa, a forma como agarrava o volante do carro com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos.
Então lembrei da frieza com a qual atirou no homem que estava no carro. Não que eu o julgasse — até porque, bastava prestar atenção em seus olhos azuis por apenas alguns segundos para entender que o que o movia era o mais puro desespero —, mas me atrevi a questionar se eu mesma teria sido capaz de tirar a vida de um desconhecido naquela situação. De Adão, com certeza, mas... não podia deixar de pensar no que aquele homem dissera, que haviam sido enganados por ele.
— Samu... Eu sinto muito. Por tudo. Seu pai era o homem mais corajoso que eu já conheci — murmurei, na esperança de pelo menos mostrar que solidarizava com sua dor, mas não recebi nenhuma resposta.
Quando o silêncio se estabeleceu e mais uma vez senti o cansaço esmagador me convidando a fechar as pálpebras, tentei me esforçar para ser útil de alguma maneira. Compensar o peso morto que eu havia virado. Vasculhei na mochila de Alex até encontrar as garrafas de água e algo que pudéssemos comer. Ofereci para Samuel, mas ele recusou. Falou que eu precisava mais.
Tomei um pouco de água e tentei comer, mas a náusea me impediu de engolir mais do que meia barrinha de cereal. Só então, atrevi-me a conferir meus machucados. Eu já estava acostumada com cicatrizes e roxos cobrindo todo o meu corpo, mas agora o número estava consideravelmente maior; o corte de quase doze centímetros na minha perna direita era profundo, mas não parecia ter acertado a artéria e o torniquete de Samuel diminuíra o fluxo de sangue; minha mão esquerda também havia parado de sangrar, mas a dor que me travava apenas ao tentar mover os dedos não parecia trazer boas notícia.
Todas as vezes que me imaginei morrendo, foi estraçalhada na boca das criaturas que saíram de nossos pesadelos para caminhar sobre o mundo. Desde que me atrevi a sair daquele banheiro, nunca pensei que merecia uma morte calma. Mesmo nas mãos de Klaus, antecipava o momento em que seria atirada aos zumbis apenas para prolongar o meu sofrimento. Ainda assim, vendo o sangue que manchava todo o meu corpo saído das feridas abertas, pela primeira vez em muito tempo pensei que morreria de outra maneira. Que sequer teria forças para sair daquele carro — ou que, quando o fizesse, desmaiaria sem forças no asfalto para sangrar até o fim.
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Em Fúria
HorrorLIVRO 3. Mais uma vez o mundo desmorona diante de seus olhos, mas agora Rebeca é uma pessoa diferente. Com um ataque inesperado, um único inimigo é capaz de trazer fim à paz que construiu atrás dos muros do condomínio e separá-la do seu grupo. Dess...
