Bosten

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- Por que você está sorrindo desse jeito? - sussurrou Bosten. Seus olhos se apertavam sempre que ele queria fazer graça ou pregar uma peça em alguém.

Eu nem tinha percebido que estava sorrindo. Tenho certeza de que não pareceria um sorriso para ninguém mais, só para meu irmão.

- Nada...

Ele deu uma espiada sobre o ombro. Estava vendo se nossa mãe estava por perto.

Fiquei lá parado, molhado e tremendo de frio, descalço na antessala. As bochechas de Bosten estavam vermelhas. Ele deslizou na minha direção pelo chão liso com suas grossas meias brancas.

- Eu deveria ter entrado em casa do jeito secreto. Mas tinha lama demais.

- E é por isso que você está feliz?

- Não. Larga de ser bobo, Bosten.
Tirei meu gorro. Ele pingava na minha mão.

Nós chamávamos de "jeito secreto" as portas laterais reforçadas que davam no porão.

Às vezes, em noites de verão, fugíamos por elas. Só voltávamos quando o céu começava a clarear.

Bosten dizia que era como se fôssemos vampiros e eu sempre adorava isso.

- Vem - disse ele.

Entramos sorrateiramente pelas escadas escuras e estreitas que iam para o porão.
Elas rangiam sempre, não importava o quanto devagar a gente pisasse, mas a mãe não nos ouviu.

Eu era a única pessoa da família cujo quarto ficava lá embaixo.

-Tira a roupa. Vou ver se consigo colocá-la na secadora sem ser pego.

Bosten saiu levando minhas coisas molhadas, todo carregado com aquela bagunça pesada
nas mãos, passando pela área do porão que era aberta e tinha um piso de cimento que ia do meu quarto até a lavanderia debaixo das escadas.

Dava para sentir o cheiro da fumaça de cigarro que vinha de logo acima de nós e chegava lá embaixo.

- Pai, posso pegar o carro hoje à noite e levar o Palitoso para ver o jogo?

Sempre que o Bosten me chamava de Palitoso eu sabia que ele estava planejando alguma loucura. Era nosso código, a única coisa que nossos pais nunca tinham descoberto.

Terminamos o jantar. Hoje era a minha vez de tirar os pratos da mesa.

- O Pontiac não, pai. O Toyota.

Meu pai fumava um cigarro e ainda estava de gravata. O Pontiac era seu carro de ir para o trabalho, o que ele usava com os clientes da imobiliária.

- Qual de vocês estava usando a secadora lá embaixo? - perguntou a mãe.

Ela sabia que era eu.

Colocou o cigarro aceso no cinzeiro ao lado de seu guardanapo.


Ela não estava nada feliz. Olhei para Bosten.

- Fui eu - ele disse.

- Não - eu balancei a cabeça. - São as minhas coisas. Eu me molhei voltando para casa depois da escola com a Emily. O Bosten só as colocou na secadora para mim.

Meu pai expirou fumaça pelas narinas.

- Agora a secadora está cheia de terra - disse minha mãe, com um ar desapontado. Era o modo como ela sempre começava suas broncas.


- E um desperdício de eletricidade - disse o pai.

Eu liguei a torneira e dei uma enxaguada nos pratos, de modo que o barulho encobrisse tudo. Mas alguns sons não são facilmente abafados.

Minha metade silenciosaOnde histórias criam vida. Descubra agora