Laura
Tentei ajudar a lavar a louça, mas Elena não deixou de jeito nenhum, dizendo que eu deveria descansar. Agora estou sentada em um dos bancos de madeira, observando as árvores à frente e o céu limpo.
— Ester, vou ter que ir à biblioteca pegar alguns livros que preciso estudar — Dassa avisa assim que se aproxima de mim.
— Entendi — respondo, tentando ajeitar o coque que ficou frouxo depois de algumas horas.
— Quer que eu traga alguma coisa do centro? — ela pergunta, prestativa.
— Não precisa, Dassa. Mas obrigada — agradeço com um sorriso discreto.
— Então já vou indo — ela se despede.
— Certo — comento e pego o celular que começa a tocar.
Atendo ao ver que é o André.
— Alô? — digo.
— Oi, Laura! Está tudo bem? É que até agora você não apareceu para começarmos o trabalho como planejado — André diz, preocupado, fazendo-me soltar um longo suspiro.
Eu poderia muito bem ocultar o que aconteceu ontem, mas não posso. Assim como Alexandre veio atrás de mim, ele vai atrás da Dayane. E eu não me perdoaria se algo acontecesse com ela.
— Na verdade, ontem aconteceu algo inesperado. Por isso, não irei trabalhar hoje como o previsto. Mas gostaria de falar com o Richard e a Dayane — respondo, séria.
— Algo grave deve ter acontecido, pela forma como você está falando — ele diz, preocupado. — Vou avisá-los. Que horas você vai vir?
— Duas horas da tarde. Ainda tenho algumas coisas para resolver — digo após pensar por alguns segundos.
— Certo. Agora preciso desligar. Fique com Deus!
— Amém. Fique com Ele também — me despeço e logo a ligação é encerrada.
Não quero incomodar o Kayo mais do que já incomodei, por isso irei sozinha à delegacia fazer a denúncia de invasão de domicílio que ocorreu na minha casa.
Levanto-me do banco, decidida a enfrentar essa situação por completo, em vez de ficar adiando como se isso fosse, de alguma forma, fazer o problema desaparecer.
Entro na casa pela cozinha e avisto Elena enxugando as panelas enquanto cantarola um louvor antigo chamado “Bem distante eu te vi”.
Sou profundamente tocada por essas palavras ditas em forma de canção; é como se meu Pai estivesse me dizendo que estava comigo em cada processo — seja feliz ou triste, bom ou ruim. Meus olhos marejam e continuo parada na porta, ouvindo até o fim.
— A senhora tem uma bela voz — comento, após ela terminar de cantar, assustando-a.
— Você quer me matar do coração? — ela diz de forma dramática, colocando a mão no peito.
— Não, a senhora ainda é muito jovem para morrer — brinco, fazendo-a rir abertamente enquanto balança a cabeça de um lado para o outro.
— Me chamando assim, não acho que isso seja verdade. Porque “senhora” quer dizer que é uma pessoa de idade — diz ironicamente.
Paro para raciocinar e só então percebo o que falei.
— A senhora sabe que quando a chamo assim é por respeito, não porque a considero velha — explico rapidamente, receosa de ela ter entendido errado.
— Eu sei, querida. Só estou brincando com você — ela diz com um sorriso de lado.
— Dessa vez a senhora me pegou — comento, divertida.
Saio da cozinha e vou para o quarto, onde troco minha roupa simples por uma mais ajeitada, já que vou à delegacia.
Visto uma calça jeans um pouco folgada, coloco uma blusa laranja e calço um par de sandálias rasteirinhas.
Coloco meus documentos na pequena bolsa, borrifo um pouco de perfume e desodorante. Passo apenas um hidratante labial, pois não me sinto à vontade para me maquiar. Parece que, com tudo o que aconteceu, minhas estruturas foram abaladas.
Balanço a cabeça, tentando espantar os pensamentos negativos, e saio do quarto. Entro na sala e vejo Kayo sentado no sofá assistindo a um programa sobre curiosidades do mundo animal.
Nossos olhares se cruzam, e de alguma forma fico presa no olhar esverdeado dele, que me avalia de baixo para cima.
— Vai sair? — ele pergunta, quebrando o silêncio.
— Sim — digo em tom baixo, meio tímida.
— Posso te levar, claro, se quiser — Kayo se oferece gentilmente.
— Não quero incomodar, e tenho certeza de que nossos destinos são opostos — comento, sem querer ser um incômodo.
Nessas horas, queria estar com a minha moto. Aliás, preciso voltar em casa para pegá-la logo. Não consigo depender dos outros por muito tempo.
Também não acho que vá conseguir viver por muito tempo na casa da dona Elena. No fim, essa não é a minha casa, apesar de todos serem bem receptivos e agradáveis.
— Você ainda não me disse para onde vai, para eu saber se são ou não — ele comenta, insistindo, enquanto se levanta do sofá.
— Vou à delegacia — digo séria, desistindo de esconder isso de Kayo.
Parece até que ele sabia que eu iria para lá. Não duvido nada que esse seja o motivo de ele estar sentado no sofá, penso, observando sua roupa: calça jeans escura e blusa branca de manga curta.
— Então não tem nem discussão. Não vou deixar você ir sozinha — ele diz sério, arqueando a sobrancelha esquerda em desafio.
— Tudo bem — digo, suspirando em seguida.
— Espera só alguns minutos. Vou pegar a chave do carro e me despedir da minha mãe — ele diz, saindo da sala.
— Está bem — respondo, sentando-me no sofá.
Fosse qualquer outra pessoa, eu já estaria me sentindo incomodada, pois sempre fui muito independente, dadas as circunstâncias em que fui criada. Mas, de alguma forma, esses pequenos gestos que ele faz por mim acalmam meu coração e despertam em mim um carinho por ele.
Agora, além de lidar com Alexandre, terei que controlar esse sentimento que está surgindo. Tenha misericórdia, Deus. Eu sou humana e falha; sozinha, não vou conseguir.
— Mãeee, vou sair com a Laura. Tchau, bença! — ele diz em alto tom, se despedindo enquanto caminha em minha direção.
— Deus te abençoe, filho! Vai com cuidado! — ela responde, também em voz alta.
Parece que esses dois gostam de gritar, penso, divertida.
— Vamos? — ele pergunta ao chegar à porta.
— Vamos — concordo, seguindo-o para fora.
Entramos no carro e ele deu partida em direção à delegacia onde seu amigo trabalha.
Será que esse processo vai para frente? Já fiz um boletim contra ele no passado e não deu em nada. Foi arquivado por causa da influência que o pai dele tem na região.
— Pode tirar esses pensamentos pessimistas da sua mente. Você não está mais sozinha — Kayo diz, sério, desviando o olhar por um momento para me encarar. Não consigo retribuir; volto o olhar para a janela.
Kayo, pouco a pouco, está conseguindo derrubar as barreiras do muro que construí ao meu redor. Só não sei se isso é bom ou ruim. Por enquanto, apenas confiarei. Estou cansada de não ter quase ninguém ao meu lado. Talvez dar uma chance para ele não seja tão ruim assim, penso, com um leve sorriso surgindo no canto dos lábios.
Pronto pessoal, saiu mais um capítulo de Meu segundo amor. Espero que gostem, até mais.
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Meu Segundo Amor
SpiritualLaura Campos é uma jovem guerreira e de personalidade forte, que não suporta injustiça e está sempre disposta a ajudar a todos. Desde pequena foi ensinada por sua mãe a depositar sua confiança e esperança no Senhor... Mas, o que acontecerá quando aq...
