34 - Capítulos. ( Revisado)

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                                                        14/04/2021
                                                   — Sexta-feira








                         Laura

O quarto ficou meio pequeno para toda a família Maya; cada um falava ao mesmo tempo. Os gêmeos, irmãos de Kayo, discutiam a sentença que Alessandro receberia quando fosse julgado.

— Aqui, minha filha, trouxe para você. — Dona Helena disse com um leve sorriso, enquanto a emoção era visível em seus olhos.

Ela me ofereceu uma vasilha com uma colher. Ao abri-la, senti o cheiro gostoso de uma sopa caprichada.

— Obrigada, Helena. Foi muito gentil da sua parte. — respondi, provando a sopa em seguida. — Está muito boa.

— Fico feliz que tenha gostado. Vou trazer mais se precisar; comida de hospital não é muito boa. — respondeu, prestativa e orgulhosa.

Kayo conversava com o irmão mais velho, Micael, enquanto lançava olhares de relance em minha direção. Ao ver a vasilha em minhas mãos, arqueou a sobrancelha esquerda e deu um sorriso mínimo, como quem dizia:

“Eu te falei que ela ia fazer isso.”

Sorri em resposta e continuei tomando a sopa, apesar de já ter tomado o café da manhã.

— Todos ficamos preocupados com você, Laura. — Hadassa disse emocionada, sentando-se na cadeira ao lado da cama. — Minhas cunhadas queriam vir, mas têm as crianças, e seriam muitas pessoas para pouco espaço.

— Eu imagino. — disse sincera, pois conseguia visualizar o momento em que todos ficaram preocupados com o meu sumiço, ainda mais sabendo de tudo o que passei.

Agora, parando para pensar, eu devia ter conversado antes com eles. Antes de namorar Kayo, eu já era amiga de sua filha, e eles me conheciam desde que eu era pequena, já que frequentavam a mesma igreja que minha mãe. Se eu tivesse conversado com o senhor Mateus, nada disso estaria acontecendo, e o relacionamento já teria terminado.

Mas também não posso me culpar. Eu tinha perdido minha mãe há pouco tempo e era mais próxima de Ester, já que morávamos juntas, e de sua família, que logo foi morar longe. Sem falar que levei um tempo para voltar a confiar em homens, apesar de serem homens que eu já conhecia antes. Meu corpo parecia não saber disso, assim como minha mente, e quase todas as vezes eu só queria fugir.

Isso passou com o tempo e com a terapia. Hoje consigo conviver bem e faço as sessões apenas de vez em quando.

— Agora vai dar tudo certo. Nunca mais esse homem vai te perturbar. — Dona Helena disse séria, acariciando meus cabelos.

E é como se eu tivesse ganhado uma segunda mãe agora. Não sou mais sozinha como pensei por um tempo. Tenho uma família que Deus me deu.

Sinto meus olhos lacrimejarem e contenho as lágrimas, porque eu não sou assim tão emotiva — quem é assim é a Ester. Falando nela, estou curiosa para saber por que ainda não chegou. Só espero que não tenha acontecido nada de ruim.

Eles ficaram só mais um pouco e depois foram embora. A chatice reinou, porque não posso fazer nada aqui. E logo eu, que sou ativa, gosto de fazer uma coisa ou outra, agora tenho que ficar parada em uma cama para não machucar ainda mais o pé.

— Até que enfim você retornou. — comento, ansiosa.

— O que foi? — Kayo questiona, confuso.

— É que eu queria saber como está minha amiga. Depois de tudo o que aconteceu, perdi meu celular e preciso do seu para ligar para ela. — respondo, estendendo a mão direita em sua direção.

— Aqui. — ele disse, me entregando o aparelho e, em seguida, me dando um beijo na bochecha, o que fez todo mundo soltar um som que indicava achar a cena fofa.

Resolvo ignorar a vergonha e procuro o nome dela, mas encontro apenas o de Elias. Ligo para ele e, depois de um tempo, atende.

— Oi, Kayo. Aconteceu alguma coisa? — questionou preocupado.

— Oi, Elias. Não. Sou eu, Laura. Só queria falar com minha amiga. Acho estranho ela não estar aqui; afinal, a reação dela seria vir me ver assim que soubesse. — explico, franzindo o cenho. Algo está estranho em tudo isso.

— Oi, Laura. Você está melhor? Vamos estar aí de tarde, então você vai saber o que está acontecendo.

— Espero que não seja uma notícia ruim. — respondo, indecisa.

— Não é, não. Agora vou ter que ir. Sua amiga teimosa não sabe ficar descansando e se levanta da cama toda hora.

A ligação termina de forma apressada. A confusão se instala na minha mente, mas deixo para refletir depois; afinal, à tarde saberei o que aconteceu.

Hadassa voltou para o quarto — tinha ido ao banheiro enquanto eu fazia a ligação — e começou a comentar animadamente sobre a faculdade e seu curso.

                              [...]

Aproveito o silêncio que tomou o ambiente depois que a hora de visitas terminou e Kayo teve que sair para resolver algo. Observo as folhas da árvore indo e vindo pela janela de médio porte. Um passarinho azul-claro pousa em um galho e começa a entoar um cântico.

Aperto minhas mãos uma na outra e deixo a tensão sair por meio de um suspiro profundo.

Terei que ficar de frente com Alessandro no tribunal daqui a alguns dias. Só preciso melhorar, pois a audiência já foi marcada. De alguma forma, tenho um pressentimento ruim sobre isso. Parece que algo vai acontecer. Só espero que seja coisa da minha mente.

— Vamos, mocinha, está na hora de tomar seu remédio para que a inflamação vá embora de uma vez por todas. — a enfermeira diz com um sorriso largo.

Isadora Ferreira é seu nome. Ela é uma mulher de quarenta e cinco anos, comunicativa e educada. Foi ela quem me consolou com empatia ao saber do que aconteceu e compartilhou que, infelizmente, casos parecidos com o meu não são raros. Em muitos deles, as mulheres continuam aceitando o que acontece porque os agressores são seus esposos ou namorados. Elas são dependentes emocionalmente e, por isso, não denunciam ou não deixam o processo seguir quando alguém tenta ajudar.

E isso é triste. Quando tiramos Deus do centro de nossas vidas, isso acontece. O casamento, pessoas ou objetos passam a ocupar esse lugar e se tornam ídolos. É algo mais comum e sutil do que parece. Quando percebemos, já não queremos mais saber de nada e, pouco a pouco, perdemos o sentido de existir.

— Hoje você está muito pensativa. — Isadora diz, divertida, enquanto aplica uma injeção em meu braço.

— Estava refletindo sobre o que você me contou. — murmuro, sentindo uma picada de dor.

— Entendo. — ela responde séria, suspirando em seguida.

— O que aconteceu? — questiono, preocupada.

— Nada, não. — Isadora diz, desconfortável.

— E como está sua filha? — pergunto, trocando de assunto.

— Está bem, graças a Deus. — responde, ajeitando os cabelos castanho-claros lisos em um coque que havia se desfeito. — Agora tenho que ir. Comporte-se, mocinha. — diz, carinhosa.

— Sim, senhora. — respondo, brincando, com um sorriso.

De repente, algo chama minha atenção: o doutor Álvaro, que passava pelo corredor, para. Assim como ele, Isadora também para. Eles trocam olhares intensos por alguns segundos que parecem minutos. Depois, cada um segue seu caminho.

Tem alguma coisa nessa história.

Analiso, interessada.

Acho que já sei o que tem distraído a mente da enfermeira responsável por cuidar de mim.








Espero que tenham gostado pessoal, até o próximo capítulo. Não esqueçam de votar e comentar.😉😊

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