Capítulo 9

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Annora Ferri


A Moon sempre foi o meu Sol.

Desde o primeiro momento em que a vi, eu soube. Soube que estaria ao redor dela pelo resto da minha vida.

A Moon não é... como ninguém que conheça. A Moon não é do tipo de pessoa que pode ser descrita em uma palavra. A Moon é única de uma forma totalmente diferente e especial e por isso sempre foi admirada.

Como a Lua.

Ela destaca-se dentre os outros. Brilha no céu noturno mais do que todas as outras estrelas. É bela, misteriosa, e guarda segredos e confidências como ninguém.

Porém, ela sempre foi o meu Sol.

A Moon nunca foi uma pessoa alegre e sorridente 24/7, na realidade, é raro sorrir verdadeiramente. Os únicos que lhe conseguem arrancar uma gargalhada sou eu e o Nix.

Desde há seis anos para cá que é assim. Nós três contra o mundo.

Nunca me esquecerei do dia em que a Moon chegou à AMON. Eu tinha apenas quatro anos na altura, ela, seis. Eu não sabia de nada na vida. Só sabia que tinha sido levada para ali quando era ainda uma bebé, jovem o suficiente para não fixar sequer o meu verdadeiro nome, e que tinha sido rejeitada para fazer uma espécie de testes provisoriamente. Os testes que a Moon viria a realizar por um longo tempo. O Projeto Marshall.

Nesse dia, eu estava a passar pela Avenida Jorsh, o tapete carmesim debaixo dos meus pés, quando ouvi o som do elevador superior a abrir. Espreitei pelos corredores até ter a clara visão de uma garota morena com o rosto choroso a ser conduzida para cá para dentro por uma mulher com o cabelo pintado de um roxo de tom claro.

Pude reparar nos cabelos castanhos despenteados para trás como se estivesse a chegar de uma viagem de jato terrestre com o tejadilho aberto, os olhos amendoados vermelhos e o as bochechas rosadas. Pude reparar no quão destroçada uma miúda tão jovem podia parecer.

Sei apenas que dias depois nos encontramos na Cantina e nos sentamos lado a lado por coincidência. Os seus olhos estavam pregados no prato com frango cozido e os seus lábios não se paravam de mover como se estivesse a rezar para si mesma ou simplesmente a tremer.

- Não comes? - perguntei-lhe.

Ela levantou lentamente os olhos para mim e notei no quão vermelhos e inchados estavam.

- Não gosto de carne.

Lembro-me que passei o resto da hora de almoço a falar com os cozinheiros para os convencer a fazer uma salada para ela. Afinal de contas, o que raio mais comeria a miúda?, pensava eu. Acabei por lhe conseguir arranjar uns ovos e alguma alface e tomate, pelo que preparei uma sandes.

Entreguei-lha sem rodeios. Ela olhou para mim com um pequeno vinco entre as sobrancelhas.

- Pão com ovos, alface e tomate - assegurei - Comes ovos, sim?

Com relutância, ela acenou que sim e pegou na comida. Não me disse mais nada. Não me voltou a espreitar. Só me sentei ao seu lado a vê-la comer, e só quando estava a acabar é que ataquei o meu frango.

Quando estávamos a sair para nos dirigirmos para as casas, ela passa por mim apressadamente, mas percebo um Obrigado pronunciado numa respiração rápida.

Não demorou muito para nos aproximarmos, duas crianças órfãs e sozinhas numa organização maníaca. Éramos a casa uma da outra. Éramos tudo o que tínhamos. Ela, a jovem Blair Scott. Eu, a pequena Annora Ferri.

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