•O refúgio

431 28 2
                                        

Aquelas palavras me atingiram como uma onda, me deixando desnorteada. Ninguém nunca havia falado comigo daquele jeito antes, com tanta sinceridade e intensidade. Eu queria dizer algo de volta, agradecer de uma maneira que fizesse jus ao que ela tinha acabado de me dizer, mas a verdade era que eu estava perdida. Perdida naquele momento, nas palavras dela, no jeito como ela olhava para mim como se eu fosse algo precioso.

Antes que eu pudesse pensar em uma resposta, o garçom chegou com nossos pedidos, interrompendo o que parecia ser uma conversa que poderia mudar tudo entre nós. O cheiro do café fresco e do pão de queijo recém-assado pairava no ar, mas eu mal notava. Toda a minha atenção estava em Gabi, na maneira como ela sorria para mim enquanto agradecia ao garçom, como se não tivesse acabado de virar meu mundo de cabeça para baixo.

Enquanto começávamos a comer, o clima parecia mais leve, mas a tensão ainda estava lá, latente, como uma corrente submersa. Eu tentava focar na comida, no ambiente ao nosso redor, mas meu olhar sempre acabava voltando para Gabi, e eu sabia que a sensação era mútua.

Ela me contava histórias sobre a última viagem do time, pequenas anedotas que normalmente teriam me feito rir, mas eu estava apenas semi-presente, porque tudo que eu conseguia pensar era nas palavras dela, na maneira como ela me fazia sentir.

Gabi pegou minha mão por um instante, do nada, enquanto falava, e eu senti aquele mesmo calor se espalhar pelo meu corpo, como tinha acontecido no carro. Era um toque simples, quase casual, mas havia tanto mais por trás dele. Ela não precisava dizer mais nada. Eu já sabia. Sabia que, para ela, aquilo também era mais do que apenas um café da manhã.

Depois do café da manhã, Gabi me convidou para dar uma volta. O clima ainda estava ameno, com o sol brilhando suavemente através das árvores, criando um cenário quase perfeito. Aceitei o convite sem hesitar, ainda tentando processar tudo o que tinha acontecido até então. A maneira como ela tinha me elogiado, o toque breve, mas cheio de significado... algo estava claramente mudando entre nós, e eu sentia uma mistura de nervosismo e excitação diante disso.

Entramos no carro, e dessa vez o silêncio que nos envolvia era confortável, cheio de uma expectativa silenciosa. Gabi parecia mais introspectiva, como se estivesse pensando em algo importante. Eu não perguntei para onde estávamos indo, porque de alguma forma, confiei que o lugar aonde ela me levaria seria especial.

Depois de um tempo dirigindo, começamos a nos afastar da cidade, as ruas de paralelepípedos dando lugar a estradas mais tranquilas e cercadas por árvores altas. Eu observava o cenário mudar, a vegetação ficando mais densa, enquanto o som dos carros diminuía gradualmente, até quase desaparecer.

Finalmente, Gabi virou em uma estradinha de terra, escondida entre as árvores. A curiosidade me dominou, e eu não consegui evitar de perguntar.

— Para onde estamos indo?

Ela sorriu de lado, aquele sorriso que eu já começava a entender que significava mais do que apenas alegria; era um sorriso que guardava segredos, e que agora eu estava prestes a desvendar.

Gabi: Quero te mostrar um lugar, —  ela disse, mantendo os olhos na estrada. — É... meio que meu porto-seguro. Um lugar que significa muito para mim.

Eu assenti, sentindo um calor no peito ao ouvir aquilo. Saber que ela estava me levando a um lugar tão pessoal me encheu de uma sensação agridoce de privilégio e responsabilidade. A curiosidade aumentou, misturada com a certeza de que algo importante estava para acontecer.

Após alguns minutos, Gabi parou o carro em frente a um portão de madeira envelhecido, coberto de musgo. Ela desceu e o abriu, revelando um caminho estreito que levava a uma pequena clareira escondida. O lugar era encantador, quase mágico, com uma pequena cabana de madeira ao fundo, envolta por árvores imponentes que pareciam proteger o local do resto do mundo.

Gabi: Chegamos, — disse com uma suavidade na voz que eu não ouvia há tempos.

Saí do carro e olhei ao redor, absorvendo a beleza serena do lugar. A cabana era simples, mas acolhedora, com um alpendre que dava para a clareira. Havia um balanço de madeira pendurado em uma das árvores, e uma sensação de paz impregnava o ar, como se aquele lugar estivesse congelado no tempo.

— É lindo, Gabi, — eu disse, sem conseguir esconder o encantamento na minha voz.

Ela caminhou até a cabana, e eu a segui, notando como ela parecia relaxada ali, como se toda a pressão do mundo tivesse ficado para trás no momento em que cruzamos o portão.

Gabi: Venho aqui sempre que preciso de um tempo para mim, para pensar ou simplesmente respirar, —  ela explicou, enquanto destrancava a porta e a empurrava, revelando um interior acolhedor, decorado com móveis rústicos e toques pessoais que contavam histórias de quem ela era além das quadras de vôlei.

Gabi: Nunca trouxe ninguém aqui antes,— acrescentou, com um tom que fez meu coração bater mais forte.

Entrei na cabana, sentindo a presença dela em cada detalhe. Era um lugar que refletia a alma de Gabi, sua força, mas também sua vulnerabilidade, algo que ela raramente mostrava. E o fato de que eu era a primeira pessoa a conhecer esse lado dela me tocou profundamente.

Gabi se sentou no sofá de couro envelhecido que ocupava o centro da sala, e eu me sentei ao lado dela, ainda maravilhada com tudo ao meu redor. Ela se virou para mim, seus olhos mais suaves do que nunca.

Gabi: Queria compartilhar isso com você, Nala. Este lugar... ele me ajuda a me reconectar comigo mesma. E ultimamente, tenho sentido que queria que você conhecesse essa parte de mim, que é tão importante.

Eu estava sem palavras. O que dizer quando alguém abre seu mundo desse jeito? Senti uma onda de emoção me invadir, algo que eu mal conseguia controlar. Aquilo não era só um lugar, era uma parte essencial de quem Gabi era, e agora ela estava me permitindo fazer parte disso.

— Obrigada por me trazer aqui," murmurei, minha voz quase falhando. — Eu... eu não sei o que dizer.

Ela sorriu, um sorriso tranquilo que fez meu coração se aquietar.

Gabi: Não precisa dizer nada. Só... quero que você saiba que significa muito para mim que você esteja aqui.

Nos sentamos ali por alguns minutos, sem precisar de palavras, apenas desfrutando da companhia uma da outra. E naquele momento, percebi que aquele lugar tinha se tornado mais do que o refúgio de Gabi; era agora um refúgio nosso, um espaço onde nossas almas podiam se encontrar sem pressa, sem pressões, apenas sendo o que eram. E isso era mais do que eu poderia ter pedido.

Inefável Histórias para pegar e não largar. Descubra agora