Hannibal

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Capitulo 16: Hannibal

Para a maioria das pessoas, a rotina poderia facilmente ser vista como algo entediante, mas não para Hannibal. Ele sempre encontrava formas de injetar um toque de excitação, mesmo nos menores detalhes do cotidiano. Desde que sua vida se encheu de alegria e de novas bocas para alimentar, Hannibal notava que a despensa se esvaziava mais rápido do que antes. Não que ele se importasse. Na verdade, o simples fato de poder prover para sua família era uma espécie de paraíso pessoal. Ele sempre teve mais do que o suficiente. Suas heranças o sustentariam por várias encarnações, sem sequer precisar tocar nos ganhos de sua profissão como médico e psiquiatra. E agora, com o salário de Will e seus investimentos cuidadosamente planejados, eles estavam mais do que abastados.

Ainda assim, Hannibal nunca foi o tipo de pessoa que deixava qualquer detalhe passar despercebido. No dia anterior, ele se entregara à sua arte mais sombria: tinha pintado uma nova tela como o Estripador, apenas por diversão. Era uma mistura de arte e necessidade, embora ele soubesse que, ultimamente, fazia mais coletas do que deixava obras para trás. Sua pequena família exigia mais... e ele se deleitava em atender essa necessidade. Hoje, por isso, estava nas compras, algo que ele transformara em uma espécie de passatempo. Para alguém com seu paladar sofisticado, a tarefa era quase um ritual: escolher os ingredientes perfeitos, calcular mentalmente as combinações de sabores, perder-se nas possibilidades.

Will, por sua vez, estava com Beverly naquela manhã. Ela aparentemente tinha um encontro e, fiel à amizade de longa data, havia solicitado a ajuda de Will, o que deixou Hannibal encarregado de sair sozinho pela primeira vez com Eloise.

A pequenina estava em seus braços, aninhada de maneira tão confortável que parecia quase indiferente ao mundo à sua volta. Hannibal, no entanto, sentia algo diferente. Ele nunca fora indiferente a essas novas nuances de sua vida, muito pelo contrário. Ao observar Eloise, uma sensação surpreendente de tranquilidade o envolveu, um tipo de paz que raramente experimentava. Talvez fosse o calor inocente que ela emanava, ou a vulnerabilidade dela contrastando com sua própria natureza.

O mercado estava tranquilo naquela hora do dia. Ele podia ouvir o som distante de carrinhos, o murmúrio das conversas dispersas e o ritmo vagaroso dos passos. Eloise se mexia de leve em seus braços, seus olhos grandes e curiosos se abrindo lentamente, como se quisesse explorar o mundo ao lado de Hannibal.

Ele sorriu para ela, um sorriso quase imperceptível, mas genuíno. Era curioso como ela, tão pequena e frágil, conseguia trazer um lado seu que raramente mostrava ao mundo. Com Will, havia companheirismo, entendimento mútuo. Mas com Eloise, havia algo mais puro, algo que quase o fazia esquecer do peso que carregava por trás dos olhos.

Pegou uma maçã, girando-a entre os dedos com cuidado. Eloise fixou seu olhar nela, hipnotizada. Ele riu suavemente, algo raro, mas natural na presença da menina.

— Você gosta de maçãs, querida? — Hannibal murmurou com suavidade, como se estivesse falando com alguém muito mais velho do que ela. Eloise, incapaz de responder, apenas deu um leve gemido de curiosidade.

Enquanto avançava lentamente pelos corredores, Hannibal sentia-se surpreendentemente conectado ao presente. Havia algo de reconfortante em estar ali, em meio aos produtos cuidadosamente selecionados, com Eloise nos braços, respirando a calma daquele momento. Talvez fosse o fato de estar sozinho com ela pela primeira vez, ou talvez fosse a nova dinâmica de sua vida, uma nova fase que ele ainda estava aprendendo a explorar. Ele percebeu algo quase estranho para si: estava feliz. Não havia monotonia que pudesse sufocar sua rotina, não quando tinha uma família para alimentar e uma filha para cuidar.

O carrinho de compras estava quase cheio, abarrotado com os ingredientes mais refinados que ele podia encontrar. Apenas o melhor entraria em sua cozinha, e Hannibal sempre se orgulhara disso. Cortes de carne perfeitamente marmorizados, vegetais frescos e queijos importados se empilhavam cuidadosamente no carrinho. A compra fluía sem pressa, até que ele chegou à sessão de queijos e embutidos. Hannibal era um verdadeiro entusiasta da culinária italiana — seus olhos percorreram com precisão cirúrgica os presuntos de Parma e os queijos trufados com nozes. Já imaginava os pratos que criaria, harmonizados com vinhos finos, elevando o paladar de sua família a novos patamares.

A taste for familyHistórias para pegar e não largar. Descubra agora