CAPÍTULO 36 | A TEMPESTADE SE APROXIMA

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Tínhamos fechado a padaria cedo hoje, não por falta de movimento, mas porque Tryz teve um de seus típicos ataques de histeria. O motivo?. Eryx não estava trabalhando. Ele estava resolvendo outros assuntos para mim, e isso foi o suficiente para desestabilizar Tryz.

A chuva batia forte contra os vidros impecáveis, o som ecoando suavemente pelo apartamento silencioso. Do sofá, eu podia sentir o frio que as gotas traziam, mesmo com tudo fechado. As luzes da cidade atravessavam as cortinas claras, desenhando sombras nas paredes brancas.

Estava jogado ali, com as pernas estendidas sobre o tapete macio, o olhar perdido no teto. O sofá era novo, confortável, mas parecia rígido demais para quem só queria afundar e esquecer. Na mesa de centro, uma xícara ainda meio cheia de café esfriava ao lado de um livro aberto, que eu nem lembrava de ter começado a ler.

O apartamento estava limpo, organizado, como sempre. Cada coisa no seu lugar. Talvez por isso a sensação de vazio fosse tão insuportável. Nada fora do eixo, exceto eu. A cozinha, visível dali, parecia tirada de uma revista, mas o silêncio fazia tudo parecer mais distante, como se não fosse realmente meu.

O cheiro de café e o som da chuva preenchiam o espaço, mas não a falta de algo que eu nem sabia nomear. Era tudo perfeito demais. Ou talvez fosse eu que estivesse errado, desalinhado nesse mundo onde cada detalhe era tão absurdamente correto.

Eu pensava nela. Sempre nela. Cada curva do sorriso, cada palavra trocada. Mas, infelizmente, ela estava longe. Fora do meu alcance. Escondida naquela casa, protegida por ele.
A sombra desprezível de Caius pairava sobre ela como um veneno. Só de imaginar isso, meu peito se enchia de ódio. Ele não a merecia, nunca mereceu.

O pensamento me consumia, uma inquietação que parecia vir de dentro, como se algo que eu insistia em ignorar começasse a tomar forma.

O celular vibrou suavemente na mesa de centro, quebrando o fluxo dos meus pensamentos. Estendi a mão e peguei o aparelho. O nome de Eryx iluminava a tela, e uma leve tensão percorreu meu corpo. Algo na maneira como ele sempre ligava parecia carregar urgência, mesmo antes de eu atender.

Ele raramente ligava, a não ser que fosse algo importante.

Deslizei o dedo pela tela e levei o celular ao ouvido, logo ouvindo o som de sua voz:

- Tenho uma novidade. Tô passando aí.

Sem dizer uma palavra, encerrei a chamada. Não havia necessidade de responder;
, Eryx sabia. Ele sempre sabia. A porta, como de costume, estava destrancada, um gesto de confiança que eu não estendia a mais ninguém. Era o tipo de confiança que não precisava de explicações, algo tão automático quanto respirar.

Lancei um olhar rápido para a porta, o silêncio do apartamento agora carregado de expectativa. A chuva do lado de fora preenchia o vazio, mas não abafava a tensão crescente no ar. A espera por sua chegada pesava como uma presença invisível, algo que se movia nas sombras e me prendia no mesmo lugar.

Continuei deitado, os pensamentos fluindo como um quebra-cabeça que começava a se encaixar. Calliope sorrindo, Caius afastando-se naturalmente, e o futuro se desenhando com ela ao meu lado. Era inevitável. Tudo parecia convergir para isso, de forma quase matemática. Sempre lidei com lógica, com clareza. Não era uma idealização romântica ou algo impulsivo, como outros poderiam interpretar. Era uma conexão simples e inegável, tão evidente quanto uma fórmula certeira. Era pura química.

Os minutos passaram arrastados, até que finalmente o som da porta se abrindo e fechando com um clique suave quebrou o silêncio. Virei o rosto na direção do corredor e o vi aparecer, a figura de Eryx se destacando contra a luz fraca do hall. Ele estava tirando o casaco encharcado pela chuva, gotas escorrendo até o chão de madeira. Sem dizer nada, pendurou o casaco no cabideiro ao lado da porta.

ENTRE FLORES E SEGREDOS Onde histórias criam vida. Descubra agora