Cheiro de sangue

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Enquanto caminhávamos em direção ao Arlong Park, o silêncio entre nós era pesado. Luffy liderava, e os outros seguiam firmes, mas eu mantinha certa distância. Cada passo parecia mais lento que o anterior, como se algo dentro de mim estivesse hesitando, ou talvez prestes a explodir.

Meu punho estava cerrado há tanto tempo que os dedos começavam a doer. O olhar de Nami, seu grito de dor, e o sangue que manchava o chão não saíam da minha cabeça. Aquilo era tudo o que eu conseguia enxergar.

- Yuri ? - A voz baixa de Usopp me tirou do transe. Ele estava ao meu lado, com aquele jeito meio inseguro, mas tentando parecer confiante. - Você tá quieto. Tá tudo... bem?

Olhei para ele. Algo no meu olhar o fez recuar um passo. Talvez fosse a frieza, talvez fosse a raiva que eu não conseguia esconder.

- Você acha que tá tudo bem, Usopp? - Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. - Nami quase morreu por causa daqueles malditos homens-peixe. Ela sofreu tanto, e a única coisa que posso fazer agora é ficar andando aqui, esperando a hora de lutar.

Ele piscou, claramente desconcertado.
- E-eu sei, cara, mas... calma, né? Não é como se a gente pudesse mudar o que já aconteceu. O Luffy tem um plano, e a gente vai dar o troco!

- Dar o troco? - A risada foi seca, sem humor. - Você acha que dar o troco é suficiente? Olha pra mim, Usopp. Aquilo que fizeram com ela... não é algo que se resolve só com uma luta. É algo que merece ser destruído, completamente.

Eu acho que estou um pouco mais abalado do que o normal, a cena de quando vi o sangue escorrendo pelo ombro de Nami, a lâmina em suas mãos parecia tão pesada quanto a dor que ela carregava e meus olhos ficaram fixos naquela tatuagem manchada de sangue, e de repente fui arrastado para um lugar que pensei ter esquecido para sempre.

Mary Geoise.

Eu era uma criança bem nova, do tipo que estava aprendendo a ler ainda. O vento batia forte, mas dentro da mansão, tudo estava silencioso demais. Eu estava com minha mãe, segurando sua mão, como sempre.

Ela tinha esse sorriso sereno, aquela calma imperturbável que ninguém conseguia quebrar. Sempre que ela me olhava, eu sentia que nada poderia me ferir enquanto estivesse ao seu lado. Ela era minha proteção, meu refúgio e também o meu maior pesadelo.

Mas naquele dia, as coisas estavam diferentes. Não demorou muito para ouvirmos os gritos, meu pai e outros Dragões Celestiais estavam em uma de suas reuniões, mas de repente, os guardas começaram a correr. Eu senti o pânico no ar antes de ver qualquer coisa.

No pátio da mansão, um escravo havia se revoltado. Ele estava no centro, tremendo, com as correntes ainda nos pés. Sua roupa estava rasgada, e sua pele marcada, cheia de cicatrizes. Ele havia conseguido se soltar, mas, por algum motivo, sua revolta não o havia libertado.

- Eu não sou mais propriedade de ninguém! - Ele gritou, sua voz era cheia de uma força bruta que parecia saudar a liberdade.

Mas não duraria. Não naquele lugar, e eu sabia muito bem disso.

Eu não conseguia parar de olhar para ele. Ele parecia decidido a se livrar da marca de escravidão que todos os Dragões Celestiais usavam para identificar suas "propriedades". O escravo pegou uma lâmina improvisada e começou a cortar a própria pele. Ele não se importava com o que aconteceria, não se importava com as consequências.

Eu não entendia. Não entendia porque alguém faria aquilo com seu próprio corpo, mas ele continuou. Sangue jorrava, manchando o solo de mármore branco. Quando ele finalmente conseguiu arrancar um pedaço de pele onde estava a marca, ele olhou diretamente para mim.

ᴏ ꜰᴀɴᴛᴀꜱᴍᴀ ᴅᴏ ᴍᴀʀ - 𝙊𝙣𝙚 𝙋𝙞𝙚𝙘𝙚Onde histórias criam vida. Descubra agora