A noite já estava alta, e o céu era escuro e limpo, pontilhado por estrelas que pareciam espiar o navio em silêncio. O Going Merry balançava levemente, embalado por ondas tranquilas. Todos pareciam ter se recolhido, exaustos depois do jantar caótico — ou cheios demais pra continuar acordados.
Eu, por outro lado, estava ali.
Sozinho na parte frontal do navio, os cotovelos apoiados na madeira fria da amurada, observando o reflexo das estrelas no mar. Me sentia... estranho, não triste exatamente. Só com aquele vazio que aparece quando a memória sussurra algo que a consciência ainda não alcançou.
O nome tinha voltado à minha mente sem aviso.
Alabasta.
Foi aí que ouvi os passos leves.
Sem nem precisar olhar, eu soube quem era.
Luffy parou ao meu lado, as mãos nos bolsos, chapéu pendendo um pouco pra frente, e me olhou com aquela expressão relaxada de quem não fazia ideia do que tava acontecendo, mas queria muito participar mesmo assim.
— Você tá com cara de quem tá pensando demais. — Ele disse.
Suspirei, meio sorrindo.
— E desde quando isso é um problema?
— Ah, sei lá. — Ele respondeu, encostando-se na amurada. — Às vezes eu também penso demais. Tipo, porque polvo tem aquele formato estranho? Ou pra onde vai o vento quando ele some?
Eu virei o rosto pra ele, levantando uma sobrancelha.
— Isso é o que você chama de "pensar demais"?
— Uhum. — Ele respondeu, com toda a convicção do mundo.
Fechei os olhos e ri baixinho, não consegui evitar,ele era ridículo, mas era meu ridículo.
— Você tá tentando me animar?
— Eu tô só sendo eu. — Ele disse, dando um meio sorriso. — Mas se isso te anima, então eu tô vencendo.
— Você sempre ganha — Murmurei, encostando a cabeça na madeira de novo. — Mesmo quando não percebe.
Ele me observou em silêncio por alguns segundos. Dava pra sentir. Luffy podia ser impulsivo, distraído e totalmente imprevisível, mas ele percebia mais do que deixava transparecer.
— Você quer me contar o que tá te incomodando? — Ele perguntou, direto.
Demorei a responder. O nome ainda estava latejando na minha mente.
— Luffy... você já ouviu falar de um lugar chamado Alabasta?
Ele franziu a testa e coçou a cabeça de leve, pensativo.
— Hmm... não. Não lembro de ter ido, nem ouvido. É um lugar legal?
— Não sei... — Falei, encarando o mar escuro. — Ou talvez eu saiba, só não lembro direito. É estranho, esse nome me veio à cabeça como se fosse uma coisa importante.
— Pode ser um lugar que você conheceu quando era pequeno — Ele disse, encostando o queixo nos braços cruzados na amurada, me observando com aquele olhar curioso. — Ou alguém que falou disso antes... ou um sonho esquisito. Às vezes minha cabeça também faz isso.
— Faz o quê?
— Me mostra coisas que eu não entendo — Ele respondeu com simplicidade. — Tipo... um cheiro que me lembra algo, mas não sei o quê. Ou uma música que parece triste mesmo que eu nunca tenha escutado.
Fiquei em silêncio.
Era exatamente isso. Como uma tristeza que não tem nome. Como uma memória com o rosto apagado.
Luffy virou o rosto na minha direção, os olhos atentos.
— Mas se é importante pra você... a gente vai pra lá.
— Mesmo sem saber o que é?
— Uhum. — Ele assentiu, sorrindo. — A gente vai acabar indo de qualquer jeito, é assim que o mar funciona.
A resposta dele era tão simples que doía.
— Você fala como se o mundo fosse fácil de entender.
— Não é, mas também não precisa ser difícil o tempo todo, né?
Suspirei, abaixando o olhar.
— E também... — Continuou, com um sorrisinho — se você ficar pensando demais o tempo todo, vai acabar virando o Zoro.
— Isso não faz o menor sentido.
— Exato! — Ele riu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, e então ele se aproximou e encostou a cabeça no meu ombro, do jeito que fazia quando queria estar perto mas sem chamar atenção demais.
— Quando a gente chegar nesse lugar, se for real mesmo... você vai me contar, né?
— Contar o quê?
— Por que isso te deixa assim. — Ele virou o rosto um pouco, encostando a bochecha no meu braço. — Porque você tá com essa cara desde o jantar.
— Eu não sei se eu consigo contar.
— Então não conta ainda — Ele respondeu, baixinho. — Mas eu vou tá aqui quando você quiser.
Fechei os olhos, sentindo o calor dele perto de mim, a respiração leve, o toque sincero.
— Obrigado... amorzinho.
— Eu gosto quando você me chama assim — Ele sorriu. — Me faz parecer importante.
— Você é importante.
— Então tá tudo certo. — Ele me puxou pela blusa. — Agora vem deitar comigo, pensar demais de pé dá dor nas costas.
Soltei uma risadinha e fui, ele me abraçou por trás, como sempre fazia quando queria me proteger do mundo. E eu deixei, fechei os olhos e respirei fundo.
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ᴏ ꜰᴀɴᴛᴀꜱᴍᴀ ᴅᴏ ᴍᴀʀ - 𝙊𝙣𝙚 𝙋𝙞𝙚𝙘𝙚
Fiksi PenggemarNa vastidão dos mares, onde as ondas guardam mistérios e tesouros, um jovem chamado Yuri sonha em se aventurar, desde a infância, ele e Monkey D. Luffy eram amigos inseparáveis e amantes compartilhando sonhos de liberdade e aventuras em alto-mar. Qu...
