Capítulo 21

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Depois do café, Letícia passou boa parte da manhã dentro do próprio quarto, imersa em sua investigação. A moça esvaziou sua mesa de trabalho para improvisar um mini laboratório, montado com um microscópio e um kit de estudar pequenas amostras. Um pouco caro, mas emergências imploravam por medidas drásticas.

Focou especialmente na sua pista mais preciosa... o moletom sujo de sangue sobrenatural, guardado com segurança em um plástico protetor. Embora um pouco desse sangue tenha se misturado ao sangue da própria amiga, Letícia foi capaz de coletar uma amostra para estudá-la de forma isolada.

A análise trouxe um detalhe interessante: mesmo depois de um dia inteiro, o sangue do parasita ainda não havia coagulado completamente. Em comparação, o sangue de Vera Lúcia estava totalmente seco, mesmo que ambos tenham espirrado em horários semelhantes.

Era quase como se o sangue do parasita ainda estivesse ativo de certa forma...

"Eles não tem batimento cardíaco. O fluxo de sangue é mantido por outra coisa," Letícia apertou os lábios. "Mas o quê?"

Guardou a amostra de sangue dentro do kit, escrevendo um lembrete para expô-la ao sol assim que possível. Por mais que quisesse fazer isso agora, ainda chovia forte lá fora. Provável que o clima fosse chuvoso o dia inteiro.

Mas, se conseguisse confirmar que tais parasitas eram realmente vulneráveis ao sol... então Letícia estaria pronta para criar a armadilha perfeita.

A moça se espreguiçou, as costas estalando. Bocejou. Ainda usava seus pijamas, nem teve tempo de se arrumar direito; não é como se fosse sair para algum lugar. Mesmo sair para investigar soava perigoso demais. Perigoso e infrutífero.

Precisava focar no que já tinha.

Ajoelhou debaixo da mesa, puxando outro item que poderia ajudar em sua investigação... um boné de hélice imundo. O chapéu também estava protegido dentro de um saco transparente. Letícia quase tinha medo de tocá-lo; era como se estivesse segurando um objeto amaldiçoado.

Estudou o boné sob a luz da lâmpada. Parecia um boné comum, apenas com camadas e mais camadas de sujeira. Apesar da aparência infantil, aquele chapéu era feito para a cabeça de um adulto.

Um boné que seria usado por artistas de rua, por palhaços... ou por um pediatra, um médico especializado em crianças.

Nova Maria tinha apenas um hospital, localizado bem no centro da cidade, uma zona comercial que não era tão voltada para o turismo quanto as avenidas construídas em frente à praia. Letícia visitou o hospital algumas vezes, até checou o site meio obsoleto dele, mas ninguém ali conhecia ou conheceu qualquer médico chamado Bob.

Contudo, haviam histórias sobre médicos que antes trabalhavam ali... profissionais que simplesmente desapareceram da face da Terra. Nada de vestígios, nada de avisos: eles estavam bem, seguindo com suas vidas, e então nunca mais foram vistos.

Nova Maria, uma das cidades mais turísticas de São Paulo, tinha um padrão mórbido de desaparecimentos. Sumiços repentinos eram extremamente comuns. Fosse morador ou fosse turista, bastava a pessoa estar no lugar errado, na hora errada; o lugar costumava ser uma rua deserta, e a hora costumava ser a noite eterna. Seus corpos nunca eram encontrados. Os jornais não se davam o trabalho de noticiar algo tão vago e inexplicável, de forma que os desaparecidos não tinham nem a honra de se tornarem estatísticas.

Letícia, Vera Lúcia e André escaparam desse destino por pura sorte, mas chegaria uma hora em que sorte não seria o bastante. Havia algo de sombrio naquela cidade, algo que se escondia debaixo da pedra e do concreto, da areia e do mar; havia ali um mal que desejava machucar a todos.

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