Capítulo 25

217 5 118
                                        

Letícia nunca esteve tão feliz.

Depois de tantos dias estressantes, tantas noites sem dormir, tantas horas curvada sobre sua mesa de trabalho em busca de uma solução, ela finalmente tinha um plano.

Um plano arriscadíssimo, sem garantia de que iria funcionar, mas era um plano!

Enfim as coisas estavam indo no caminho certo. Letícia sabia que não devia cantar vitória antes da hora, mas era tão, tão bom ter alguma ideia do que devia ser feito, mesmo que sua nova estratégia beirasse ao absurdo.

Mas nada naquela situação podia ser considerado normal.

Quem imaginaria que caçar três bichos-papões seria tão complicado? Seus filmes favoritos faziam tudo parecer tão fácil: ou você recitava algum trecho da bíblia para expulsá-los daquela realidade, ou você simplesmente pegava uma pistola e enchia eles de balas. Bem sangrento, mas ainda um clássico.

Infelizmente aqueles demônios não pareciam ser do tipo religioso... e comprar uma arma estava fora de questão. Não estavam nos Estados Unidos, não podia simplesmente comprar uma pistola no mercadinho da esquina.

Monstros reais precisavam de armadilhas mais elaboradas.

Por sorte a internet sempre a salvava nesses momentos, ela já tinha encomendado tudo que iria precisar nos próximos dias. Comprou no Brasil, claro; comprar fora do país arriscaria ter sua entrega presa em Curitiba, e isso era algo que eles realmente não precisavam agora.

"Espero que as lâmpadas não demorem muito pra chegar..."

Letícia saiu de debaixo do chuveiro, a toalha enrolada ao redor do corpo e os cachos protegidos dentro de uma touca. O banheiro estava tão quente quanto uma sauna. A moça parou em frente ao espelho, o vidro embaçado pelo vapor, e ela o limpou para ver seu reflexo.

O que viu não foi muito animador. Estava mesmo acabada, as olheiras mais profundas e a pele negra quase cinzenta. Parecia um zumbi, precisava de vitamina D urgente.

E de uma boa noite de sono.

Ao menos sua menstruação tinha ido embora, finalmente; talvez agora ela conseguiria manter suas emoções sob controle, já perdeu a conta de quantas vezes chorou na frente dos amigos. Letícia detestava ser tão sensível. Era para ela ser a líder, a capitã, o pilar que mantinha aquele grupo unido. Se ela não tinha confiança sobre o que estava fazendo... então o que seria deles?

Esfregou os olhos com um suspiro. Não deixaria essas dúvidas infestarem sua mente, não quando estava tão próxima de consertar tudo. Algumas noites, só mais algumas noites, e todos eles ficariam livres.

Bastava seguirem com a rotina de sempre.

A moça se enfiou em seus pijamas, andando pela casa e checando tudo uma última vez. Janelas fechadas, portas trancadas, aberturas e entradas totalmente bloqueadas. Nada conseguia entrar ou sair, não existia uma fortaleza mais fortificada do que aquela. Era uma certeza que tranquilizava a sua alma.

Letícia voltou à sala de estar, os braços cheios de petiscos e guloseimas, e espiou a cidade por uma das janelas. O crepúsculo invadia o céu, um roxo salpicado de estrelas, as ruas já tomadas pela escuridão. Os dias pareciam durar tão pouco tempo ultimamente.

Eles quase não tiveram tempo de arrumar tudo. Passaram a tarde toda fazendo doces e limpando a cozinha, o que se estendeu para uma limpeza da casa inteira. E que limpeza que foi! O chão havia se tornado um espelho de tão lustroso que ficou, poderia patinar nele se quisesse.

André e Vera Lúcia não eram apenas esforçados na cozinha... eles eram verdadeiros magos da faxina.

Letícia olhou para trás; os dois estavam sentados no tapete, ambos já trajando seus pijamas. O rapaz encarava as próprias mãos com uma expressão de dúvida.

OneirofobiaOnde histórias criam vida. Descubra agora