Capítulo 24

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Era 9:30 da manhã quando o sol finalmente apareceu. Surgiu tímido entre as nuvens, marcando o fim da tempestade, espalhando calor pelos telhados molhados e pelas ruas cobertas de poças.

Vera Lúcia abriu uma das janelas da sala, se apoiando no parapeito. O calor do sol agraciou sua pele feito um beijo... e a moça suspirou. Como era bom ver o lado de fora novamente!

Letícia estava no quintal, ajoelhada na grama úmida. Ela saiu de casa assim que o primeiro raio de sol apareceu, trazendo com ela uma amostra de sangue e uma lupa. A luz batia diretamente em seus cachos, acrescentando um brilho dourado aos fios.

— O que ela tá fazendo?

André se juntou a ela na janela, erguendo uma sobrancelha para a cena que acontecia diante deles. Vera Lúcia puxou seu celular.

Testando algo com o sangue do seu parasita.

O rapaz estremeceu. Abraçou o próprio corpo, esfregando os braços arrepiados.

— Não sei como ela consegue... o estômago dela é de ferro?

A fome dela por respostas supera qualquer coisa.

Ele franziu o rosto. Desviou o olhar da janela, encarando Vera diretamente.

— Ela descobriu algo novo hoje?

Vera Lúcia o encarou de volta.

Não muito, mas ela deve fazer uma descoberta grande em breve. Ela tem passado mais tempo investigando do que de costume.

— ...por acaso ela dorme? Quase nunca vejo ela dormindo.

A moça apertou os lábios. Seu olhar se tornou neutro.

Ela dorme sim.

Se dormia o suficiente, isso já era outra história... mas Vera não queria que a amiga fosse encurralada com perguntas desconfortáveis, não com tanta coisa já incomodando a cabeça dela. Não era como se qualquer um deles estivesse dormindo direito. As olheiras estavam lá como prova.

O que levava à outra pergunta.

E você?

André estreitou os olhos.

— O que tem eu?

Vera Lúcia forçou um sorriso, tentando suavizar a questão.

Como você tá? Não é todo mundo que passa pelo que você passou algumas noites atrás. Isso deve ter te marcado e tanto.

André ficou rígido. Ele começou a esfregar os ombros, calado, mordendo a pele ressecada de seus lábios. Vera o via esfregando os ombros e as costas com frequência, como se sentisse dor. Talvez ele tenha dormido de mal jeito? O sofá acabava mesmo com qualquer um.

— Eu bem que queria falar com você sobre isso...

Agora sim ela ficou curiosa. A moça se afastou da janela, indo até o sofá e se sentando nele. O rapaz se sentou ao lado dela.

Falar o quê?

André cruzou os braços, encarando o tapete sob seus pés.

— Eu percebi que nunca te agradeci... pelo que você fez naquela noite — ele pigarreou. — Me salvando daquele jeito e tudo mais, nem sei o que seria de mim se não fosse por você. Sério, muito obrigado.

Bom, isso era uma surpresa. Vera Lúcia mostrou um sorriso mais natural.

Que isso, cara, nem precisava agradecer. Eu só fiz o que tinha que ser feito.

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