Sonhos são, acima de tudo, memórias.
Elas podem não se apresentar da maneira que você as lembra. Elas podem nem parecer com memórias à primeira vista, distorcidas para além do reconhecimento... mas os sentimentos que você tem sobre elas permanece.
Poucos se lembram da própria infância. Os que dizem lembrar geralmente se lembram de uma coisa: a simplicidade. Era simples existir e era simples pensar. O mundo de uma criança é confinado à sua própria existência; ele é tudo que sua presença consegue alcançar.
Lembre-se da infância através dos sonhos, e você receberá o efeito contrário — o que é simples se torna complicado, e o que é nostálgico se torna desagradável.
Os sonhos de Vera Lúcia sempre foram assim, cansativos, confusos. Eles faziam sua cabeça doer, a forçando a se lembrar de coisas que ela não pensava havia muito tempo. Talvez fosse por isso que ela demorava tanto para dormir... como se seu corpo tentasse evitá-los a todo custo.
Mas esses sonhos sempre a alcançavam, de um jeito ou de outro.
O sonho daquela noite começou em uma sala de jantar. Era um lugar impressionante, com uma enorme mesa de mogno e cadeiras que mais pareciam com tronos. Contudo, a mesa não estava arrumada para o jantar, e sim abarrotada com um belo café da manhã; frutas, queijos, bolos, pães caseiros e outras iguarias ocupavam toda a sua superfície.
Uma família se sentava à mesa. Um homem, uma mulher e duas meninas, embora uma delas se sentasse um pouco mais distante dos outros. A atmosfera era ensolarada, do tipo que seria vista em comerciais de margarina.
Exceto pela névoa que cobria cada um de seus rostos.
Vera Lúcia se contorcia em seu assento, inquieta com algo que ela nem sabia o que era. A garota mordiscava uma torrada coberta de geleia de morango; suas pernas balançavam no ar, curtas demais para tocar o chão.
— Por que Vera não pode ir pra escola?
Vera Lúcia ergueu os olhos. Uma versão infantil de sua irmã estava comendo bolo de fubá, arrumada com o uniforme escolar. Cada garfada do bolo desaparecia na névoa que cobria sua cabeça.
— Ela já tem idade pra estudar! — Helena insistiu. — Ela podia estudar comigo!
Veio uma risadinha. A mãe delas bebericava seu café, vestida em roupas elegantes demais para aquela manhã.
— Vera Lúcia é especial, querida.
Helena cruzou as pernas. Ela pegou seu copo de suco, o tomando em apenas um gole.
— Mas você sempre diz que eu sou especial e eu ainda vou pra escola!
— ...Vera é um tipo diferente de especial, filha. Ela não é como as outras crianças, então ela não pode receber o mesmo ensino que você.
Vera Lúcia encarou o próprio prato, a torrada pela metade. Sua fome havia minguado. A menina lambeu os dedos sujos de geleia, tentando ignorar a conversa.
Mas as palavras eram ditas especialmente para ela.
— Seus professores não saberiam como lidar com sua irmã — sua mãe continuou, dando uma mordida em um croissant amanteigado. Seus lábios mexiam atrás da névoa. — Ela é... muito caprichosa. Muito carente. Só daria trabalho pra eles.
— ...mas eu-
— Ouça sua mãe, querida — o pai delas interrompeu, embora ele parecesse mais interessado nos papéis que lia do que na conversa que estavam tendo. — Acredite, Vera ficará melhor se for ensinada aqui, no conforto de casa — ele deu de ombros. — Ela não vai precisar aprender muito, de qualquer forma. Ela vai viver debaixo das nossas asas a vida inteira. Estudar fora seria um desperdício de tempo e dinheiro.
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Oneirofobia
HorrorOneirofobia: o medo extremo de sonhar. Três jovens adultos, atormentados por pesadelos terríveis, se juntam para investigar e deter as estranhas entidades que assombram seus sonhos. No processo, eles aprendem que seus medos podem ser muito mais pr...
