Capítulo 22

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Vera Lúcia não conseguiu dormir.

Não que isso fosse uma surpresa. Dormir de tarde era praticamente impossível; ela já demorava para pregar os olhos quando amanhecia, imagina para cochilar por apenas meia hora? Passava mais tempo tentando descansar do que de fato descansando.

Mas ficar deitada não estava sendo tão ruim assim.

Sem vontade de sair da cama, Vera Lúcia acabou passando os próximos vinte minutos assistindo Letícia cochilar, a respiração da moça fazendo cócegas em seu rosto. Estar assim, a poucos centímetros da amiga, enchia sua mente de uma paz que soneca nenhuma seria capaz de dar.

Diziam que assistir alguém dormir era assustador. Tóxico, inclusive... mas Vera achava impossível desviar os olhos da deusa que deitava ao seu lado.

Era experiente com mulheres, experiente até demais. Provou quase todas as almas femininas daquela cidade, incluindo mulheres já de idade, que pensavam serem velhas demais para terem uma noite de pura paixão. Sua mente ainda guardava os sabores de algumas delas, as carícias e os beijos marcados na pele.

Mas nenhuma mulher a afetava tanto quanto Letícia.

A moça era um anjo na terra, em aparência e personalidade. Os olhos castanhos gentis, a pele escura e brilhante, os cachos que emolduravam seu rosto, os lábios cheios e sorridentes... a moça tinha uma beleza tão etérea que Vera Lúcia já cogitou perguntar se ela caiu do paraíso.

Não pela cantada, mas por acreditar nisso de verdade.

Letícia era linda até quando dormia. Os cílios longos acariciavam as bochechas, os lábios entreabertos em um suspiro interminável. Estava deitada como uma musa de uma pintura renascentista.

Vera Lúcia mordeu o lábio. Fechou os olhos por um momento, focando na própria respiração.

Não conseguia entender esse sentimento, essa emoção que a fazia agir como uma adolescente estúpida, as bochechas queimando com qualquer coisinha que Letícia fizesse. Mesmo estar perto dela deixava seu coração descontrolado, como se estivesse sofrendo uma pane no sistema.

Vera Lúcia sempre foi uma lésbica dramática, mas nunca a esse ponto.

...talvez fosse a abstinência. Fazia tempo que não ia a uma festa, que não tinha uma noite regada à álcool, música alta e beijos desesperados. Seu espírito festivo estava enferrujado. Suas madrugadas se tornaram silenciosas demais.

E o silêncio alimentava os pensamentos ruins.

Vera Lúcia se remexeu de leve, as pálpebras tremendo. Não queria pensar nessas coisas; direcionou sua mente para um assunto diferente.

Qualquer coisa que não fosse ela mesma.

"Espero que Helena esteja bem..."

Tentou imaginar o que sua irmã fazia naquele momento. Provavelmente estudando, aquela mulher só sabia estudar. Capaz de ter nascido com uma apostila na mão.

Helena era o que as pessoas chamavam de garota perfeita. Estudante perfeita, cidadã perfeita, amiga perfeita.

...filha perfeita.

Inteligente, bonita e, acima de tudo, comportada. Não bebia, não fumava, nunca chegava atrasada. Não ficava à toa, não gastava dinheiro com futilidades.

E com certeza não beijava mulheres.

As duas não podiam ser mais diferentes.

Mas Vera Lúcia a amava mesmo assim.

Não era questão de laços familiares, ou também amaria seus pais, que estariam mais do que felizes em ter Vera Lúcia fora de suas vidas. Ela era uma mancha na reputação da família que eles tentavam limpar a todo custo.

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